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Prof. Agostinho Baldin,

doutor em Letras, autor de “Anseios do Coração”

 




ANO 7 - ED 79 - ABRIL DE 2006


Níveis de comunicação humana

Agostinho Baldin

Em seu discurso de recepção na Academia Francesa, Jean Guitton se referia à versatilidade com que seu antecessor na Academia Francesa - Léon Bérard -, sabia dosar o nível de linguagem verbal, desde o mais elevado, de sabor acadêmico, na tribuna parlamentar ou nas atividades jurídicas, até o nível desprovido das luzes da cultura, por parte do povo simples do interior. Quanto a este, ele se referia ao povo bearnês, na atual região dos bascos, na encosta ocidental dos Pireneus próxima do Atlântico (tem por "capital" a cidade de Pau).

O grande sábio Jean Guitton, debutando na sábia Academia Francesa, ao pé de preclaros expoentes da ciência e das artes, no memorável dia 22 de maio de 1962, dia de sua posse naquele cenáculo da fina flor intelectual da França, usou de palavras lampejantes de estilo e de conteúdo, pois o auditório assim o exigia. Certamente, em outras ocasiões, em entretenimentos informais com o povo de sua terra, esse mesmo luminar da palavra escrita e falada, sabia baixar o registro de sua palavra falada, até atingir o nível da ingenuidade mental de seus ouvintes. Porém, como diz ele, "a verdadeira igualdade é aquela que eleva todos os cidadãos a uma espécie de nobreza"; a nobreza da compreensão recíproca. Quando o ouvinte está ao pé do sábio, que fala a "mesma língua" que ele, sua mente se abre como um sulco pronto para receber a boa semente da palavra que ensina e que soergue. Quem fala não se empobrece; quem escuta se enriquece. O que fala não perde do que sabe; o que escuta ganha muito do que se lhe diz. Disse Jean Guitton: "Bérard se comprazia em deixar cair sua palavra no sulco do silêncio campesino". Que nobreza!

É bem assim que acontece em qualquer lugar e em todos os momentos do convívio humano. O desnível cultural existe sempre, não importa se a nação é desenvolvida ou subdesenvolvida; sempre há pessoas mais instruídas convivendo com pessoas de reduzida escolaridade ou até mesmo a inexistente.

A oportunidade merece uma consideração que me parece procedente.
O pregador, o professor, o comunicador, o político e outros muitos profissionais da comunicação correm um risco permanente no exercício de sua missão. Eles são o falante, no exercício de sua profissão - a primeira pessoa do diálogo; o discípulo, o aluno, o ouvinte, o cidadão são a segunda pessoa desse diálogo, aquele que escuta - o ouvinte. Em condições normais, o padrão de linguagem escrita ou falada do falante é superior ao do ouvinte, em qualidade de estilo e de densidade de conteúdo.

Na ânsia de fazer-se compreender pelo ouvinte, muitas vezes o falante expõe-se ao perigo de "piorar" sua linguagem, sem que o ouvinte "melhore" a sua. Tento esclarecer-me.

Ao falante compete "abaixar-se" até o nível do ouvinte, para tentar "erguê-lo" a seu nível. O pregador procura explicar sua doutrina em linguagem que o discípulo consiga entendê-la. O professor explica suas lições de tal maneira que o aluno compreenda o que quer ensinar-lhe. O comunicador usa um linguajar tal que o ouvinte "do outro lado" do rádio ou do televisor fique sabendo o que está sendo noticiado. O político "se aproxima" do povo, para fazer-lhe captar a mensagem de sua ideologia.

Os falantes partem em busca dos ouvintes, não "piorando" o que sabem, mas procurando "melhorar" o que o ouvinte ainda não sabe.

Assim sendo, todos ganham: o falante comunica, e o ouvinte compreende. O médico vai ao doente para curá-lo; todavia, em contato com o paciente, não se contagia do mal que buscar debelar.

O pastor, que vai à busca da ovelha tresmalhada, por certo não ficará também desgarrado no descaminho.

O missionário, ao difundir sua doutrina ao "pagão", por sem dúvida não se deixa "paganizar" também.

O bombeiro, que expõe sua vida para salvar o sinistrado, com certeza não se deixa "sinistrar" também.

O professor, ao "dar aula" àquele que sabe menos que ele, não se torna ignorante.

A ladainha poderia estender-se; a constatação é sempre a mesma: quem tem mais, ao dar de sua opulência, não se desfaz do que sabe; quem tem pouco, escutando a fala do que tem mais, enriquece seus conhecimentos e se aproxima do nível do falante. Esta parece-me ser a dinâmica do ensinar e do aprender: quem ensina transmite o que sabe sem comprometer seu "estoque" de ciência, e o que aprende abastece o "depósito" de novos conhecimentos.
Se o falante mantiver sua linguagem acima da do ouvinte, este fica "a ver navios", ou melhor, a "escutar trovões"; não há comunicação. Se o ouvinte usa sempre e apenas o padrão de linguagem que conhece, nunca subirá de nível; é preciso, pouco a pouco, imitar quem fala melhor, isto é, seu "mestre". O mestre vai à busca do discípulo para trazê-lo a seu patamar de cultura e de linguagem.
Assim eu entendo o processo da aquisição da ciência humana.

A propósito, me ocorre um episódio que testemunhei outrora. Um grande luminar da ciência humana, nas cátedras da universidade, foi levado ao interior para proferir uma conferência a um grupo de pais e de educadores dum estabelecimento de ensino. Sua conferência foi uma apoteose de conhecimentos e de fidelidade de exposição. Ao retornar ao local onde estava alojado, recebeu a visita de uma irmã sua, que morava nas redondezas. Ela era irmã dele apenas no sangue; na ciência humana e na competência, o irmão era-lhe semi-deus. No entanto, o festejado conferencista esqueceu os aplausos frenéticos da platéia de meia hora antes e passou a entreter-se com a irmã com a mesma simplicidade de fala e de maneira de ser de sua irmã, falando com ela até em dialeto italiano, comum a ambos. Eu, que testemunhara as duas circunstâncias, convenci-me de que quem tem mais pode o menos e que quem tem menos muito aprende com o sábio. O sábio soube ser sábio entre os letrados e simples com a simplicidade da irmã. Assim são os sábios.

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