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ANO 7 - ED 80 - MAIO DE 2006
Vida, razões e desrazões
por Ana Luzia Palka

Euclides Scalco, Marcella Guimarães, Alzelli Bassetti, padre Ricardo Hoepers e Cícero Urban: na abertura dos trabalhos, na Casa Padre Reus, do Instituto Ciencia e Fé.
Um dos temas mais complexos de todos os campos do conhecimento foi colocado em discussão no primeiro debate do ano realizado pelo Instituto Ciência e Fé
Qual é o sentido da vida? Esse questionamento que acompanha o homem desde o princípio da existência foi o tema do debate realizado no dia 29 de abril na sede do Instituto Ciência e Fé, em Piraquara. Diante da sua complexidade, o tema foi desenvolvido a partir de três abordagens distintas, embora convergentes em muitos aspectos. As razões e desrazões de viver apareceram em reflexões do campo filosófico, artístico e científico, formuladas por representantes das três áreas: o padre e teólogo Ricardo Hoepers, a professora de Literatura e doutora em História, Marcella Lopes Guimarães, e o médico oncologista e bioeticista Cícero Andrade Urban. Baseando-se no pensamento do filósofo português Desidério Murcho, que segue a linha da filosofia analítica, o padre Ricardo Hoepers afirma que, de fato, nunca teremos condições plenas de dizer que a vida tem um sentido ou não, porque sempre vamos abordar o tema de um ângulo limitado - do ponto de vista da história, de algum autor ou de alguma linha filosófica. Para Hoepers, a filosofia analítica é um bom caminho e deve ser considerada. Ela vai um pouco mais longe e ainda questiona se "faz sentido perguntar qual é o sentido da vida?".
Hoepers explica que o valor e o sentido da vida estão na tensão contínua entre duas questões: a certeza que nós construímos dentro do nosso interior subjetivo e as verdades que se impõem na realidade. O teísmo vai dizer que a vida tem um sentido porque tem uma finalidade última dada por Deus. O naturalismo vai dizer que tudo acaba aqui. Porém existem valores que mesmo sendo subjetivos podem se tornar objetivos. Para analisar tudo isso, é preciso ter como pano de fundo a dificuldade de compreendermos a objetividade da vida, hoje dominada pela ciência e pelos métodos de experimentação, e a subjetividade da vida, com seus valores intrínsecos que podem ser universais ou não. "Esse continua sendo o grande dilema da filosofia e o grande ponto de interrogação, o que ainda vai nos custar muita reflexão", diz. A professora Marcella Lopes Guimarães declamou poemas e citou vários autores para mostrar como a arte pode ser a fonte das razões e das verdades que a filosofia e a ciência tanto procuram e tentam explicar. Camões, Rosalía de Castro, Drummond, Saramago, Cecília Meireles, Otto Lara Resende, Sérgio Caparelli... Num passeio pela literatura de língua portuguesa, Marcella Guimarães usou trechos de obras para comprovar que os escritores e poetas dão voz ao passado e revelam as verdades. "A literatura inventa as verdades, nos devolve humanidade, e nos apresenta tantas razões e desrazões. A leitura de uma grande obra é uma experiência íntima e avassaladora".
Ela cita uma afirmação de Jean Cocteau, que diz: "A poesia é indispensável. Se ao menos eu soubesse para quê?". Marcella transfere o sentido dessa frase para toda a arte. "Se somos seres descontínuos e carentes de um sentido para a nossa existência, a arte nos leva para a eternidade e para a continuidade. Que a gente nunca descubra para que ela serve. Que a gente sempre procure outras razões e não tenha medo de ser arrastado para a vida que se abre e se fecha ao sabor de um gesto tão sutil ao alcance das nossas mãos", propõe.
O médico Cícero Urban adotou o caminho da bioética para explicar como a ciência reflete a questão da vida. "A bioética não discute exatamente as razões e desrazões de viver, mas na prática ela vai nos dar os instrumentos para tomada de decisões em situações onde as razões e desrazões nos faltam. Quem trabalha com o início ou a terminalidade da vida, sempre tem a bioética inserida nas suas discussões", afirma. Urban destaca, entretanto, que a bioética não veio substituir a ética profissional. Ela é filha da ética - esta, uma ciência normativa que estuda os atos humanos à luz da razão. A bioética, portanto, utiliza uma série de metodologias éticas aplicadas às ciências biológicas e à área da saúde, e tem características próprias: a relação entre a ordem e a desordem na sobrevivência humana, o compromisso com o futuro, o controle da tecnologia e a necessidade de um esforço interdisciplinar.
O debate contou com intervenções da geneticista Eleidi Freire-Maia, do pesquisador Yasuyoshi Hayashi e do reverendo Jean Carlo Selleti. Contou também com a participação de diretores e conselheiros do Instituto Ciência e Fé, entre eles, Alzeli Bassetti, Euclides Scalco, Antonio Carlos Coelho, José Felipe Engler, Otto Winck, Aroldo Murá Haygert e ainda Samuel Meira, padre Bolívar Hauck, Pretextato Taborda Ribas, Maria do Rocio e Ariel Oliveira de Araújo.
A seguir, os principais trechos das exposições feitas pelo padre Ricardo Hoepers, pela professora Marcella Guimarães e pelo médico Cícero Urban.

Ricardo Hoepers
O tema é escorregadio, generalista e obscuro, mas vamos canalizar para a idéia de sentido da vida. Dois aspectos são relevantes quando nos dirigimos a esse aspecto: a vida tem sentido porque tem um fim, ou a vida tem sentido porque tem valores importantes? Quando pergunto "por que viver?" abro uma série de proposições e tenho dificuldades de chegar ao seu "fim". O "fim" de viver pode ser abordado sob o ponto de vista teleológico ou deontológico, ou seja, a vida tem sentido porque as coisas que faço têm conseqüências que eu desejo ou a vida tem um sentido em si mesmo, independente das conseqüências ou do fim que eu quero atingir.
A filosofia analítica coloca duas proposições: uma teísta e outra naturalista. A teísta vai dizer que a vida tem sentido porque Deus a criou e estamos aqui para realizar esse desejo de Deus. Entra aí a teologia com todas as suas argumentações. Mas a visão naturalista poderia gerar a seguinte pergunta: é possível pensar numa vida com sentido sem Deus? Se a vida tem um sentido somente do ponto de vista teísta, como ficam as pessoas que não têm, não procuram ou não desejam essa perspectiva? Portanto, falar que a vida somente tem sentido a partir de Deus não dá conta da necessidade humana sobre esse questionamento, porque muitas pessoas não vão ter essa perspectiva. Então, vamos falar que a vida tem um sentido a partir da nossa própria realidade, a partir do que a natureza construiu nesses bilhões e bilhões de anos. É possível, por outro lado, que somente isso dê conta do sentido da nossa vida? A filosofia analítica diz que não. No fundo, a grande pergunta é: porque a vida só tem um sentido com Deus e porque a vida tem um sentido a partir da própria construção da natureza?
Toda filosofia trabalha com duas fontes: as certezas e as verdades. A certeza é aquilo que nós entendemos sobre o mundo, a verdade é como o mundo realmente se mostra a nós. A filosofia contemporânea diz que há uma relação mediata entre certeza e verdade. Para eu chegar a conhecer o mundo, preciso de mediações. Hoje a ciência se torna essa mediação. Só vou conhecer o mundo a partir da metodologia, da experimentação, do empirismo, que se tornam o elo entre o que eu sou e o mundo que se apresenta. O problema do sentido da vida consiste em descobrir a finalidade última da vida humana. Mas a vida humana tem finalidade última?, pergunta o naturalista. O fim último para os teístas é Deus e por aí tudo se explica. Mas isso não satisfaz. Muitas vezes as pessoas nos procuram para conversar sobre os seus problemas, mas 80% dos casos não se configuram problemas de fé, e sim de resolução da própria vida, dos seus sentimentos, dos seus afetos, das suas dúvidas. A fé é algo dado, concreto.
Mesmo o próprio cristianismo nasceu a partir da experiência concreta de uma comunidade. Hoje se tenta resgatar cada vez mais a idéia da fé como uma experiência profunda do ser humano. Não como uma razão intelectualista. Seguir o Cristo não é seguir uma idéia, é seguir uma pessoa.
A finalidade última tem que ser adequada à pessoa. Entra aí a questão do valor, algo também bastante complexo no ser humano. O filósofo analítico diz que não é verdade que a existência de uma finalidade última seja uma garantia para o sentido da nossa vida. Se essa finalidade não tiver valor, o fato de ser finalidade última não é o suficiente para dar sentido à vida. De modo que para responder ao problema do sentido da vida é preciso não apenas dizer quais são as nossas finalidades últimas, quer sejam muitas ou apenas uma, mas mostrar que essa ou essas finalidades últimas têm intrinsecamente valor.
Se Deus é a finalidade única, qual a diferença de alcançar Deus e as várias finalidades que posso ter ao longo da minha vida? Se, para mim, ter uma família é um valor intrínseco, esse valor pode tornar o mundo melhor. É possível chegarmos a valores universais em que todas as pessoas tenham uma aceitação sobre esses valores? A ética pode ser subjetiva e também objetiva. Ela pode se tornar essa ponte. Posso dizer que fiz algo de bom, porque esse valor é intrinsecamente significativo para mim e traz benefícios ao mundo onde vivo. Então não se trata de ter uma finalidade última, trata-se de saber se as finalidades últimas que queremos adotar têm valor objetivo ou não.
A ciência é muito severa quando diz que a verdade só pode ser obtida através da experimentação. Isso não dá conta de toda a realidade. Existem teorias que não podem ser experimentadas e têm um valor significativo. O Big Bang, o evolucionismo, são exemplos. Nem toda teoria que pode ser experimentada dá conta de toda a realidade. Nem tudo aquilo que não pode ser experimentado está num segundo plano. Ao contrário. Pode ser um valor objetivo também.
O padre Ricardo Hoepers é formado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná e em Teologia pelo Studium Theologicum. Tem especialização em Bioética pela Faculdade São Camilo, de São Paulo. É mestre em Educação pela Universidade Católica do Paraná e capelão do Hospital São Vicente. Há 10 anos trabalha com pessoas portadoras de deficiência.

Marcella Lopes Guimarães
“Vida: razões e desrazões". Imediatamente me vem à mente um poema de Sérgio Caparelli, "O anjo pálido": Quando nasci, um anjo pálido, claustrófobo e fotofóbico, disse: Vai Sérgio, vai ser guache na vida. Desde então dou cor às sombras. O autor foi capaz de reinventar o batismo do "Poema de sete faces", de Drummond: Quando nasci, um anjo torto, desses que vive na sombra, disse: Vai Carlos, ser gauche na vida..."
Estamos assim diante de dois destinos poéticos. Isso é uma coisa maravilhosa da literatura.
Elliot diz que a poesia é viva porque dentro dela existe a voz do passado. No Romanceiro da Inconfidência, a poesia dá voz a Marília de Dirceu. Sabemos que Tomás Antonio Gonzaga, exilado, encontrou uma viúva endinheirada e esqueceu Marília, mas no Romanceiro, Marília fala. A poesia atribui voz a quem foi calado. E quando lemos ou ouvimos o poema, sentimos alguma justiça. Porque nenhum documento histórico colheu a voz de quem sofre por ter sido esquecida pelo seu amor. É a poesia que faz justiça. A história deu voz ao Tiradentes. Está lá nos autos do processo. Mas a poesia atribuiu voz a quem foi calado.
É na voz de Camões, por exemplo, que a triste sina de Jacó fica tão mais bonita. O Soneto Canoniano é infinitamente mais bonito. Ao maior poeta do Renascimento português ou maior poeta da nossa língua só interessou uma coisa: a vassalagem amorosa. Camões transformou Jacó, um personagem bíblico, num vassalo de amor, num trovador. A literatura reinventou o personagem. As narrativas, os poemas, as peças teatrais, elas podem escolher a sua verdade. E as verdades escolhidas pela literatura podem fazer mais sentido do que a verdade. Quem leu o Memorial do Convento, romance de Saramago, sabe que é inventando os nomes e as trajetórias individuais que o narrador faz justiça aos verdadeiros construtores do convento de Mafra - o maior convento português. Em pelo menos cinco páginas do romance o narrador empresta a voz aos construtores de Mafra. O convento foi construído por D. João V, que ficou na história como o magnânimo, o construtor. Que mentira! Quem construiu o convento foi o povo. 45 mil pessoas. Quem foi que transportou a pedra de Pedro Pinheiro? Foi um transporte horroroso, muitas pessoas foram mutiladas durante o trajeto. O narrador de Memorial conta como foi. Isso não está em nenhum registro histórico. É a literatura que diz, inventando a verdade. A ficção, mesmo inventando nomes, é mais fiel à história. Assim, é possível constatar que a literatura expõe tristezas e escolhe as suas verdades. É o primeiro passo para entendermos como a literatura questiona a vida, suas razões e desrazões. Se é certo que vivemos a civilização do espetáculo, cotidianamente bombardeados por uma profusão acelerada de imagens, que por exaustão mais nos cegam do que revelam, torna-se amplamente necessário o aprendizado do olhar voltado para a experiência estética. A experiência estética promove um novo olhar sobre esse mundo. Nesse sentido, a leitura nos lança em busca dos significados extraídos dos múltiplos olhares dirigidos para um mesmo objeto. Ora, se é possível ensinar a olhar (os bons professores fazem isso, mudam nossa maneira de ver), também é possível reaprender a ver, sensibilizando os sentidos, percebendo que a nossa visão está impregnada das experiências retidas na nossa memória, comprometidas tanto com o passado quanto com os referenciais do presente. A literatura rema contra corrente e devolve a nós o quinhão da nossa humanidade. Marcella Lopes Guimarães integra o Departamento de Letras da Universidade Católica do Paraná. É mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná. É escritora e colaboradora do jornal O Rascunho.
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