
EVARISTO E. DE MIRANDA, autor do livro “Quando o Amazonas corria para o Pacífico - Uma história desconhecida da Amazônia”, pela Ed. Vozes e diretor do Instituto Ciência e Fé
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ANO 8 - ED 89 - MARÇO DE 2007
NO DESERTO
EVARISTO EDUARDO DE MIRANDA
Águas e deserto. Uma palavra e um lugar, oposto e antagônico ao das águas, é o deserto. Em toda a Bíblia, a palavra deserto evoca realidades históricas, experiências divinas, campos de revelação e uma grande densidade espiritual. Em hebraico, o deserto, midbar, significa textualmente “da Palavra”, mi-Davar, proveniência e origem da palavra, da Torá, da Revelação. Ao ler a palavra de Deus em hebraico, um israelita sempre estabelece esse vínculo entre deserto e palavra.
O próprio livro dos Números, em hebraico, é chamado No Deserto, ba-Midbar. Esse título não foi tirado da primeira palavra do volume, como ocorre nos outros quatro livros do Pentateuco. Ele foi tirado da segunda parte do seu primeiro versículo: “Deus fala a Moisés no deserto do Sinai”.
O deserto é um lugar de retiro. Quem se retira deixa espaço e lugar aos outros. Saber retirar-se para que os outros possam crescer. Não tomar todo o lugar. Diz a mística judaica que até Deus, que era tudo e ocupava tudo, teve de retirar-se, de contrair-se (tzimtzum) para dar lugar à Criação.
O deserto é um lugar de silêncio. Os padres da Igreja, monges, místicos e santos sempre buscaram a clausura do deserto, do silêncio. Colocar-se diante de si. Silenciar a mente, para colocar-se diante de Deus. Muitos ficam horas em silêncio diante da televisão. Não conseguem ficar cinco minutos em silêncio diante de si e de Deus.
O deserto é um lugar de busca e de peregrinação. Era a casa dos Pacômios, Antãos, Hilariões, Crisóstomos, Foucaulds, Bentos, Cassianos e Damascenos. É o lugar onde o pastor encontra a ovelha perdida, na parábola de Jesus. Diz Leloup: “No deserto, cada um encontra o seu segredo... envolvido por um segredo maior”.
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