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ANO 8 - ED 89 - MARÇO DE 2007

VERDADES HISTÓRICO-CIENTÍFICAS, MITOS E VERDADES SOBRE A AMAZÔNIA
MOSTRADOS POR EVARISTO MIRANDA
por RAFAEL FINATTI


Iniciando pela esquerda:
professor Dr. Evaristo Eduardo de Miranda,
professor Ir. Ivo Clemente Juliato,
arcebispo D. Moacyr José Vitti,
pe. José Aparecido,
prof. Carlos Mello Garcias

“Precisamos conhecer mais, estudar, investir lá”. Foi com essas palavras que o mestre e doutor em Ecologia Evaristo Eduardo de Miranda resumiu sua preocupação com a Amazônia. Chefe Geral da unidade de Monitoramento de Satélite da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Evaristo de Miranda lançou seu livro Quando o Amazonas corria para o Pacífico: Uma história desconhecida da Amazônia (ed. Vozes, 256 páginas) no último dia 7 de março no Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná. A conferência fez parte da programação da Campanha da Fraternidade 2007, Vida e Missão neste Chão - Fraternidade e Amazônia e reuniu professores, religiosos e estudantes, profissionais liberais, religiosos.

O evento, promovido pela PUCPR e Arquidiocese de Curitiba, teve o apoio do Instituto Ciência e Fé, de que Evaristo é um dos diretores.

A repercussão do livro de Evaristo de Miranda - mestre e doutor em ecologia em Montpellier (França) e que desenvolve pesquisas há 25 anos na região amazônica - tem sido muito positiva. Por isso, muitos são os convites para que ele ministre palestras, em diversas cidades do Brasil.

“Há muita novidade e informação interessante, de um tipo que a gente não está acostumado a ver”, explica o reitor da PUCPR o professor - doutor Ir. Clemente Ivo Juliato. “A finalidade da universidade é essa: debater temas atuais. Nós fomos muito felizes em trazer o Evaristo, pois a palestra de hoje aliou a Campanha da Fraternidade com conhecimentos científicos em uma instituição pontifícia e preocupada com a ciência”.

O diretor do Centro de Ciências Biológicas e de Saúde da PUC, Waldemiro Gremski, também Conselheiro do Instituto Ciência e Fé, concorda com o reitor: “O evento é importante em si. Hoje o tema da Amazônia está permeando os debates relacionados a essa questão ecológica, em especial nesse momento em que predomina a questão do aquecimento global e os riscos que o aquecimento está causando. O Evaristo desmistifica mitos”.

Realmente, a Amazônia e as questões ambientais estão em voga. Diante da necessidade de se preservar o meio ambiente e garantir um mundo habitável às próximas gerações, muitas são as formas de se tratar do tema: da minissérie da Rede Globo (“Amazônia”, no ar desde janeiro) ao documentário (e livro homólogo) “Uma Verdade Inconveniente”, do “quase-presidente” norte-americano Al Gore. “A palestra do Evaristo Miranda faz com que a gente possa refletir sobre a região amazônica, nesse momento em que discutir a destruição da natureza tornou-se um assunto fundamental à saúde humana”, afirma o ex-ministro Euclides Scalco, diretor de Cursos do ICFÉ.

No âmbito religioso, a escolha da Amazônia como tema da Campanha da Fraternidade 2007 faz parte de um processo longo de decisão por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Segundo o Padre Fascini, que trabalhou durante muitos anos na entidade, o fato de a questão ambiental estar tão presente no ano em que se escolheu a Amazônia como tema da Campanha não é uma coincidência, mas uma resposta da Igreja a um problema sério que a humanidade enfrenta. “Isso interessa à Igreja”, conta ele. “Porque a vida humana, quanto mais qualidade tiver, mais corresponde àquilo que Deus quer”.

De acordo com Mário Antônio Sanches, diretor do Curso de Teologia da PUC-PR, consultor do Instituto Ciência e Fé, se essa Campanha da Fraternidade mudar a visão que se tem da Amazônia para uma “mais coerente e menos catastrófica”, já terá atingido seus objetivos. Para o professor Rudi Rabuske, do Colégio Nossa Senhora Medianeira, a questão não é só a Campanha da Fraternidade, mas o problema ambiental. “Esse é justamente o nosso foco, nesse ano em que o Colégio Medianeira completa o seu cinqüentenário: a preocupação com a vida”. “Enquanto instituição católica, nós temos que estar profundamente preocupados com essa questão do meio ambiente, porque ela diz respeito ao futuro da humanidade”, reforça o orientador religioso e pedagógico Edilson Ribeiro, colega de trabalho de Rudi no Colégio Medianeira.

Por sua vez, o Arcebispo da Arquidiocese de Curitiba, Dom Moacyr José Vitti, lembrou a preocupação da Igreja com os povos que vivem na Amazônia. “A gente sabe que as pessoas que moram lá estão sofrendo com a destruição das florestas, dos rios; e também com a invasão que existe dos grandes proprietários que tomam as terras e os expulsam, causando sofrimento principalmente para os índios”. Tanto o livro de Evaristo de Miranda quanto a Campanha da Fraternidade 2007, segundo o Arcebispo, serviriam para chamar a atenção para os que vivem na Amazônia. “É trabalho da Igreja promover a vida; tentar fazer com que haja interesse das autoridades em proteger a Amazônia, que as riquezas não sejam exploradas e levadas para o exterior sem propiciar benefícios aos habitantes da região”, resume o Arcebispo.


Professor Dr. Evaristo Eduardo de Miranda

Milhões de anos em 50 minutos

O teatro da PUC encheu rapidamente. Em vinte minutos, setecentas pessoas, em sua maioria estudantes das áreas de biologia e serviço social, entraram e se acomodaram nas cadeiras do TUCA. Após a apresentação de um grupo de dança, foram chamados ao palco os integrantes da mesa naquela noite: o Arcebispo de Curitiba e Grão-Chanceler da PUCPR Dom Moacyr José Vitti; prof. Dr. Ir. Clemente Ivo Juliato, reitor da PUCPR; Padre José Aparecido - Coordenador da Comissão Permanente da Campanha da Fraternidade, da Arquidiocese Metropolitana de Curitiba; prof. Carlos Mello Garcias - Diretor do Curso de Engenharia Ambiental da PUCPR; e o palestrante da noite, o prof. Dr. Evaristo Eduardo de Miranda.

Protocolo obedecido - “Podemos refletir e pensar como a nossa vida está relacionada à Amazônia; que essa noite nos ajude a elementos para crescer dentro da nossa história”, proclamou o Pe. José Aparecido - Evaristo de Miranda começou a apresentação de seu livro com a pergunta: “O que é a Amazônia?”. Segundo ele, é tão difícil estabelecer isso que há um trabalho de pesquisa na Europa especialmente dedicado a definir os limites geográficos da região. Tamanha dificuldade tem explicações históricas, que começam justamente nos tempos em que o Amazonas corria para o Pacífico, desaguando no Golfo de Guayaquil, litoral equatoriano.

No âmbito de sua História Natural, a Amazônia é um ecossistema absolutamente singular, único, bem diferente da fauna e da flora dos continentes africano e asiático, por exemplo, que sempre se misturaram muito. Por ocasião da separação da Pangéia - o continente que, segundo a teoria da Deriva Continental, existiu há 200 milhões de anos e que reunia todos os continentes da Terra - a Amazônia, na América do Sul, permaneceu isolada geograficamente por muito tempo, até a formação do istmo do Panamá, há 3 milhões de anos. O istmo possibilitou a migração de espécies das Américas Central e do Norte para a região - o que ficou conhecido como a “Primeira Invasão Norte-Americana” na Amazônia. Pumas, tigres, capivaras, cavalos e porcos “fizeram a festa” em uma floresta em que predominavam os marsupiais.

A “Segunda Invasão Norte-Americana” se deu há cerca de 12 mil anos e é representada pela História Humana da Amazônia a qual Miranda se refere em seu livro. Segundo ele, desde essa época há homens na região, transformando a flora nativa por todos esses anos. “A vegetação é tão natural quanto cultural”, afirma o cientista. Ao mesmo tempo em que se desmatava para que se pudessem plantar gêneros alimentícios como a mandioca - o que possibilitou a sedentarização e posteriormente a expansão demográfica na região - o homem também contribuiu com a vegetação. As castanheiras, por exemplo, hoje abundantes na Amazônia, só cresceram em quantidade e em importância com a interação entre homem e natureza.

Por fim, Evaristo de Miranda apresentou a História Política da Amazônia que ele conta em seu livro. Todos esses aspectos - História Natural, Humana e Política - culminam nos problemas atuais de que sofre a Amazônia. Mas não se pode negar que a história das disputas entre portugueses, espanhóis e franceses pelo território amazonense constitui a parte mais interessante do livro - e também da explanação de Miranda.
Portugal é o grande responsável por a maior parte de a Amazônia ser brasileira. Quando chegaram no Brasil, no século XVI, encontraram uma terra devastada pelas disputas entre os índios. Pelo Tratado de Tordesilhas, a maior parte da Amazônia pertencia à Espanha, mas Portugal tanto fez que conseguiu demarcar território naquela região aparentemente sem grandes riquezas. No começo do século XVII, porém, foi preciso disputar com a França, em episódios curiosíssimos (como um “ataque” de cinco portugueses a um quartel francês) a soberania na região. Somente com o Tratado de Madrid, em 1750, é que a Amazônia passou para o lado português, por vontade do então rei de Portugal, Dom João V., que em troca cedeu o Uruguai e as Filipinas.

Dificuldades atuais

A Amazônia tem hoje 25 milhões de habitantes e cresce a um ritmo de quase um milhão de pessoas por ano. Diferente do que muita gente imagina, 70% dos habitantes da Amazônia vivem em cidades, e não na mata - apesar de ainda haver população indígena, quilombolas e muita gente vivendo nas margens ao longo dos vários rios que cortam a região. A História Política do Amazonas está estabilizada desde 1903 com o Tratado de Petrópolis, que deu ao Brasil a posse definitiva da região onde hoje é o estado do Acre. Já a História Natural e Humana, porém, segue sendo modificada diariamente. “Ninguém entende da Amazônia por completo. É uma região muito dinâmica”, explica Evaristo de Miranda.

Os problemas atuais pelos quais passa a Amazônia podem ser entendidos, pois, como uma nova fase da história complicada da região. “O que muda é que hoje há interesses econômicos. Há 12 mil anos, o homem não tinha noção do que estava fazendo. Mas agora tem a obrigação de preservar”, ressalta o cientista. A expansão das grandes cidades, por exemplo, segundo Miranda, não são um problema, mas sim uma realidade, já que comparativamente as oportunidades urbanas são melhores do que na mata. Há cada vez menos violência e tem diminuído muito o problema da ilegalidade. Além disso, “não há desmatamento em Manaus”, ironiza ele.

Sobre o desmatamento, inclusive, o cientista é enfático: deve ser feito um reordenamento territorial, como ocorre nas grandes cidades em que são separadas as regiões industriais dos bairros residenciais, já que há lugares na Amazônia em que se pode e lugares em que é impensável desmatar. “Tem que ter zoneamento, planejamento. Quando um grupo tenta impor ao outro a sua lei, aí não funciona”. A questão do desmatamento envolve tanto as grandes empresas quanto os pequenos agricultores, que desde criança sobrevivem com o que plantam. “Esse pessoal por acaso é bandido? Não tem direito de viver?”, questiona Miranda. “A Europa desmatou 99,7% de suas florestas. A África e a Ásia mais de 90%. A gente é o país que mais manteve as florestas. Isso não significa que nós vamos poder sair desmatando agora. Mas não dá pra aceitar que ponham o dedo na nossa cara. Eu gostaria de ver essas ONG's internacionais que defendem tanto a Amazônia proporem reflorestar metade da Holanda, ou 60% da França. Porque eles não fazem essa campanha lá? Aí eles teriam autoridade pra falar aqui também”, desafia.

Desinformação

Quando o Amazonas corria para o Pacífico é um livro feito para provocar. “Por que não há campanhas para implantação de um sistema de tratamento de esgoto em Belém? Enquanto isso, para garantir a exportação do Açaí, as multinacionais fazem o que podem. Uma coisa não nega a outra, mas a parcialidade com que se trata da Amazônia complica às vezes”, reflete o reitor Juliato. “O livro nos trás alguns fatos que nos fazem pensar. Há muito desconhecimento”, conclui ele.

Foi buscando exatamente conhecer mais da região que os seminaristas Valdecir Moreira e Cleverson Pesuba foram à Conferência de lançamento do livro. “Pretendemos seguir missão aonde precisarem de nós, como é o caso da Amazônia”, admite Cleverson. No geral, contudo, os brasileiros não conhecem a realidade dos processos que estão acontecendo lá, muito menos a história de como foi trazer a Amazônia para o Brasil.

Evaristo de Miranda lamenta: “Os brasileiros acham que a Amazônia caiu do céu. Têm uma visão mítica de que aquilo é uma grande floresta, ficam com aquela imagem de que é uma espécie de paraíso selvagem, quando na verdade lá tem indústria, zona franca, 25 milhões de habitantes, cidades. Acho que a melhor solução hoje é se informar. Com isenção”.


Ir. Benê de Oliveira

“Estamos todos instados a volver atenção, olhar e cuidado com a Amazônia; e a espalhar uma consciência cada vez mais aprofundada sobre a potencialidade e a complexa e desafiadora problemática dessa região. Mudanças estão ocorrendo muito rapidamente no clima mundial e com efeitos devastadores.
Todos os dias, acompanhamos pela TV, rádio, Internet, jornais e revistas as catástrofes e os debates permanentes em torno do Protocolo de Quioto, do desenvolvimento sustentável, da emissão de gases poluentes e isolantes, do aquecimento global, do efeito estufa, da camada de ozônio, do ciclo do carbono, dos invernos mais quentes, da quebra da produção agrícola, do degelo das calotas polares, dos furacões, dos ciclones, dos desmatamentos, das queimadas, da chuva ácida, do aumento do nível do mar, da extinção de espécies da flora e fauna, e de muitos outros fenômenos.
Face a essa problemática grave e atual de apocalipse climático-ambiental estamos todos interpelados a nos imbuir de uma formação e de uma educação verdadeiramente integral, bem como de nos engajar em empreendimentos e parcerias de programas, projetos e ações de preservação ambiental em vista do futuro da civilização.
Que Maria de Nazaré, padroeira da Amazônia, torne fecunda essa conferência da noite do dia 7 de março de 2007 em nossas vidas e formação e proteja de maneira especial todo o esforço de evangelização da Igreja do Brasil com a Campanha da Fraternidade desse ano.”

Ir. Benê de Oliveira,
Pró-Reitoria Comunitária e de Extensão da PUCPR.

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