
OTTO LEOPOLDO WINCK é escritor, autor do romance Jaboc, lançado recentemete pela Garamond.
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ANO 8 - ED 90 - ABRIL DE 2007
DE RESPOSTAS E PERGUNTAS
OTTO LEOPOLDO WINCK
O homo sapiens não é necessariamente um animal que sabe, mas antes um animal que quer saber. Desde que passamos a usar nossas patas dianteiras para algo mais que colher frutas ou segurar nossas presas, tornamo-nos seres totalmente diferenciados por conta do uso singular que fazemos de nossas cabeças (não, não me refiro ao uso do boné de beisebol, leitor desatento). Olhe para o seu corpo, para os seus membros: sem roupas, você se sente completamente desprotegido (ainda mais que não existem praias naturistas no litoral paranaense). Qualquer espinho fura o seu pé, arranha a sua pele. Olhe para as suas unhas: que serventia elas teriam os fosse preciso estraçalhar uma presa? De volta às savanas africanas, você estaria perdido, se não fossem por alguns utensílios fabricados por nossas mãos ou por máquinas feitas por nossas mãos: rifle, isqueiro, barraca, canivete, celular (este, indispensável para as horas de tédio). Com efeito, é a nossa cabeça o nosso principal diferencial competitivo no reino animal. Graças a ela, em pouco mais de dez mil anos, povoamos a terra, submetemos os animais que antes nos caçavam, extinguimos muitos deles e corremos o risco de morrermos cozidos no aquecimento global que se aproxima. (Bom, deixemos esses detalhes desagradáveis para outra hora).
No entanto, é este diferencial evolutivo o nosso grande problema. Quando não estamos ocupados em caçar nosso alimento ou fugir de nossos predadores (hoje não mais o urso ou o leão, mas o imposto de renda ou o punguista), esta maravilhosa máquina de pensar passa a se ocupar de coisas consideradas supérfluas: não é por acaso que a filosofia nasceu do ócio dos homens livres gregos. Afinal, fazemos perguntas que nunca passaram pela cabeça dos outros animais: acaso o seu cãozinho de estimação já se questionou sobre a imortalidade ou não da alma? Houve épocas em que essas perguntas já vinham com respostas prontas, conforme a tradição a que se pertencesse. Para as crianças falecidas antes do batismo havia o limbo, para o infiel o inferno, e para aqueles que se esforçassem sublimando os seus instintos havia as virgens do paraíso ou os emocionantes coros dos anjos. Todavia, mais recentemente, este ser perguntão passou a não se satisfazer mais com essas respostas - e dá-lhe novas perguntas! Daí o problema. As respostas não estão dadas, ou se estão, nem sempre são satisfatórias - e o ser humano continua perguntando, perguntando, perguntando...
Algumas dessas respostas são esboçadas pelas ciências: o diâmetro da Terra, a velocidade da luz, as pulsões da mente. Às perguntas sem respostas ou com respostas insatisfatórias, as grandes e pequenas religiões continuam oferecendo velhas e novas respostas. Estas são basicamente as perguntas que o seu cãozinho nunca irá fazer. Só que essas respostas não apresentam provas documentais. Exigem algo de outra natureza: fé. Fé que por sua vez não é de todo estranha à ciência: ora, o cientista não tem como comprovar empiricamente todas as descobertas científicas que vieram antes dele, precisa "acreditar" nelas. Antigamente, se pensou que a ciência fosse acabar com a religião - ao ponto de alguns, sinceramente imbuídos da convicção de que as crenças são um entrave para o progresso da humanidade, agirem com tal denodo que fariam inveja aos mais encarniçados cruzados e inquisidores. Mas recentemente, se teme que a religião acabe com a ciência, pelo menos em alguns estados norte-americanos, onde Darwin é pintado como um perigoso corruptor de menores. De todo modo, as duas hoje até que convivem bem, não raro ignorando-se, ainda que eventualmente, quando se encontram em alguma festa, entabulam uma interessante conversação. O certo é que ambas atuam em âmbitos diferentes, não obstante suas perguntas às vezes se cruzarem. E o certo, também, é que o ser humano, ora como cientista, ora como crente, não cessa de fazer perguntas. Esta é a nossa grandeza, este é o nosso fascínio, este é o nosso mal. Ainda que não tenhamos esperança de respostas planamente satisfatórias (salvo os fundamentalistas da ciência ou da religião, mas estes são uns chatos, não queira topar com eles numa festa), continuamos indagando, indagando, indagando.
Aí é que entra a arte. Ao contrário da ciência e da religião, a arte não tem a pretensão de oferecer respostas - e quando o faz, ela deixa de ser arte e se transforma em outra coisa: panfleto, catequese, auto-ajuda. Fazemos e curtimos arte muitas vezes porque as respostas apresentadas pala ciência e pelas religiões ou são muito complexas (isto é, muito técnicas, abstratas, e não atingem a "alma") ou são muito simples (ou seja, simplistas, esquemáticas, e não nos satisfazem). Então, uma fuga de Bach ou um solo de trompete de Miles Davis parecem dizer mais sem dizer nada. E dentro das artes, há uma que em vez de respostas oferece ainda mais perguntas. Aliás, articula de maneira densa, vital, as perguntas que desde sempre balbuciamos: a literatura. Afinal, é na literatura, a arte das palavras e das idéias, que nossas perguntas e tentativas de respostas encontram seu mais fecundo campo de expressão. Talvez seja sintomático de nossa época - uma época de planuras mentais - o desprestígio atual da literatura: de fato, vivemos em um tempo onde esse animal outrora tão perguntador, o homo sapiens, está se cansando de perguntas, ora aderindo com facilidade ao manual de respostas de um pregoeiro qualquer de verdades, ora, o que é mais comum, abrindo mão das indagações, enquanto junta dinheiro para a compra do próximo carro ou penteia o cabelo para agitá-lo na próxima balada.
Realmente, é muito chato fazer perguntas.
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