
SONIA REGINA LYRA, analista junguiana. Mestranda em Filosofia na PUCPR
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ANO 8 - ED 90 - ABRIL DE 2007
MORTE DE DEUS E SALVAÇÃO DA ALMA
Jung leitor de Nietzsche
SONIA REGINA LYRA
The Visage of War - Salvador Dali - 1940
Objetivo:
Nosso objetivo é apresentar a relação do tema "morte de Deus" a partir do Zaratustra de Nietzsche, com o tema amplamente abordado por Jung: "salvação da alma".
Método:
Entre 1934 e 1939, Jung faz uma análise psicológica do Zaratustra, nos seminários ministrados em Zürich, intitulados Nietzsche's Zarathustra. Ao longo destes seminários, Jung pressupõe que, em Zaratustra, falta a configuração da Ânima, como arquétipo do feminino presente na psique, razão pela qual, não pode haver uma integração dos opostos em Zaratustra e conseqüentemente em Nietzsche, uma coniunctio, porque para Jung, Nietzsche é Zaratustra. A ausência desta configuração da ânima revela-se em Zaratustra como a insaciável procura pela luz, a insaciável busca pela individuação não alcançada. Tal união, em Nietzsche/Zaratustra não ocorre, segundo Jung, porque para Nietzsche "Deus está morto", ou seja, o seu Deus morreu, e a conseqüência desta morte é a inflação (megalomania), e deve-se supor que esta megalomania aconteceu em Nietzsche, ele está identificado com o arquétipo... e isto é uma inflação. Segundo Jung, Nietzsche não está em condições de fazer a diferença entre ele mesmo e Zaratustra/super-homem (Übermensch, Superman). A ânsia pela procura da luz, por sua vez, está baseada no pressuposto junguiano do inconsciente como consciência múltipla. Jung traz esta hipótese da existência de múltiplas luminosidades, da alquimia antiga, então denominadas scintillae, centelhas. Estas centelhas eram emanações da Anima Catholica, da Alma Universal (alma do mundo) que é idêntica ao Espírito de Deus. As scintillae eram também, chamadas "sementeiras do futuro", em outras palavras, Formae Rerum essentiales (formas essenciais das coisas). Psicologicamente, a scintilla, deve ser considerada como um símbolo do Si-mesmo. Como exemplo deste símbolo, Jung cita Paracelso, para o qual as scintillae são luminosidades germinais que brilham de dentro da escuridão do inconsciente, assim como o sol, pois "O Sol é invisível no homem, mas visível para o mundo, embora os dois sejam um só e mesmo sol". Da mesma forma diz a Escritura em Mt, 5 - 14: "Vós sois a luz do mundo".
Luz do mundo e fidelidade à terra, afirmação da vida, por sua vez, é o que vem anunciado pela boca de Zaratustra. Zaratustra saúda o sol, e toda a sua trajetória é acompanhada pelo sol e seus contínuos ocasos e alvoradas. Para Jung, o sol é símbolo do Si-mesmo e, este Si-mesmo pode ser experienciado, também, à partir da "morte de Deus", sendo que, tanto para Jung quanto para Nietzsche, significa um processo de autoresponsabilização do homem.
Zaratustra, anuncia em Do homem superior (3), "Deus morreu; nós queremos, agora, que o super-homem viva". Para que o super-homem viva, o homem, assim como ele tem sido até agora, precisa ser superado. Zaratustra anuncia primeiro esta "morte de Deus" ao povo da praça do mercado, mais tarde a seus discípulos e finalmente a alguns poucos "homens superiores", que ainda "não acompanham o seu passo", ficando o anúncio a ser ouvido, quem sabe, pelos homens do futuro. Mas qual futuro, se, ao falar com os homens superiores em O sinal, em sua experiência relatada do tempo, diz: "Tudo isso durou muito tempo ou pouco; pois, a bem dizer, não há na terra nenhum tempo para tais coisas".
Esse tempo, que não é nenhum tempo da terra, e que transpõe uma infinidade de tempos nas dissertações de Zaratustra, é o tempo necessário para o anúncio da morte de Deus. Enquanto nas Escrituras, Deus morre para salvar o homem; em Zaratustra, o homem pode redimir-se a si mesmo, porque Deus está morto. Aqui, Zaratustra diz em Da ciência, "Essa coragem, finalmente afinada, espiritualizada, essa coragem humana com asas de águia e prudência de serpente, essa coragem, ao que me parece, chama-se hoje:... "Zaratustra!"...
Mas, esta coragem de salvar-se a si mesmo, tornar-se aquele que se é, isto o deixam, ambos, Jung e Nietzsche, como ensinamento real de suas obras. Porém, aqui ainda nos deparamos com a contradição: Jung sugere que o sol de Zaratustra, é identificação inconsciente do "eu" com a consciência, de tal forma que, o que "resta" por assim dizer, da obra de Nietzsche, em Zaratustra, é esta identidade inflacionada (megalômana), enquanto que o próprio Zaratustra, aponta esta não identidade, quando diz em A Saudação: "Para mim, ou seja, para o ser inexorável, que, em mim, guarda silêncio...". E diz mais: para Zaratustra, para quem "Deus está morto", "ainda poderão vir gente melhor, aqueles últimos restos de Deus, ou seja, todos os homens do grande anseio, que não querem viver sem que aprendam de novo a ter esperança, a grande esperança!".
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