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ANO 8 - ED 92 - JUNHO DE 2007
SOLIDARIEDADE E VIVÊNCIA
PRÁTICA DA TEORIA UNIVERSITÁRIA
Reportagem de RAFAEL FINATTI

Festa de Páscoa na Associação Serpiá. Foto: Divulgação
O designer Cezar Faria de Lemos, 30 anos, começou a fazer trabalho voluntário quando ainda era estudante de graduação. Tinha tempo disponível e, através do “namorado da filha da cunhada de sua madrasta”, que também era voluntário, começou a trabalhar junto com ele. Para começar, ia trabalhar uma vez por semana; como gostou, aumentou a freqüência; quando percebeu, já estava trabalhando todo dia, até ser contratado. Hoje, depois de formado pela PUC-PR, Cezar faz pós-graduação e é figura carismática do quadro de funcionários da Associação Serpiá (Serviços e Programas para a Infância e Adolescência). Por lá, ministra duas oficinas para adolescentes: uma de papel reciclado e outra de fotografia, através das quais transformou um hobby e uma atividade acadêmica “sem muita importância”, segundo ele próprio, em uma forma de conquistar um diferencial profissional e de educar para a cidadania. “Quando comecei, considerava o meu trabalho supérfluo. Com o passar do tempo, algumas tarefas me ajudaram a abrir minha visão sobre o trabalho de programador visual”, analisa o Lemos.
Situação semelhante a esta tem vivido a estudante de psicologia da UFPR Luciana Cassarino Perez, 21 anos. Interessada no trabalho social desenvolvido pela Associação Serpiá, ela começou como voluntária há dois anos e meio.
Atualmente, a estudante vai uma vez por semana para trabalhar na brinquedoteca e outra vez para a reunião de cotidiano e do grupo de estudos. Ela conta que só com a experiência prática pôde entender melhor a faculdade de psicologia: “O olhar e a escuta diferenciada que a psicologia proporciona contribuem bastante para o meu trabalho, principalmente quando eu entro em contato com os terapeutas das crianças para transmitir as coisas que percebi. Assim, a prática que eu considerava impossível até eu conhecer a Serpiá contribuiu muito para que o meu curso fizesse sentido”.
Para a estudante de pedagogia Isis Romankiu, 29 anos, o trabalho voluntário na Associação Serpiá serviu para mudar os rumos de sua vida. Formada em turismo pela UnicenP em 2002, Isis começou a atuar como voluntária da brinquedoteca e hoje recebe como estagiária de pedagogia (está no segundo ano da UFPR) trabalhando nas funções de educadora brinquedista e “oficineira” da oficina de educação e informática, destinada à inclusão de adolescentes abrigados. “É nas fragilidades que estão as nossas habilidades”, diz Isis. “Achei nesta abordagem uma chave para o meu trabalho”.
Todo esse trabalho de que falam Cezar, Luciana e Isis tem o suporte de um grupo de profissionais de alto nível, que costumam receber os universitários de braços abertos. “Os estudantes colaboram muito para o projeto da Serpiá, já que sua disposição para aprender nos provoca questões que fazem com que tenhamos de nos reciclar o tempo todo. Eles também nos ajudam a não perder o espírito da discussão da prática articulada à teoria, que é uma atividade muito valorizada na Associação”, afirma a coordenadora terapêutica Maria Augusta Guimarães.

Sob o olhar curioso dos pais, Ingrid brinca com as crianças. Foto: Divulgação
Em linhas gerais, a Associação Serpiá é uma entidade laica, apartidária e sem fins lucrativos que presta atendimento interdisciplinar a crianças e adolescentes que apresentam algum distúrbio psíquico. Através de uma metodologia baseada em três eixos terapêutico, cultural e de interlocução entre os educadores a Serpiá proporciona uma acolhida global a pacientes que nem sempre têm condições de pagar por um atendimento semelhante em outras instituições de saúde. São realizados mais de 400 atendimentos mensais por um grupo de profissionais das mais diferentes especialidades: fonoaudiologia, musicoterapia, enfermagem, nutrição, pedagogia, serviço social, fisioterapia, terapia ocupacional, zooterapia e, claro, psicologia. Em meio a estes, os universitários e voluntários, que agregam conhecimento advindo das mais diversas áreas e instituições de ensino.
Trabalho formativo Em geral, os estudantes começam atuando na Serpiá na parte da brinquedoteca. Para se capacitarem, fazem o curso de educador brinquedista, promovido anualmente pela própria Serpiá (veja Box). A maioria deles, ainda, aproveita ao máximo a oportunidade de estar em contato com os profissionais. Por isso, muitos participam das reuniões administrativas, das reuniões relacionadas ao cotidiano e também dos núcleos de estudo semanais e dos fóruns que acontecem quinzenalmente na Associação.
“Existem os funcionários e os voluntários e por causa disso o trabalho fica um pouco fragmentado, já que há pessoas diferentes trabalhando em cada expediente. As reuniões são uma forma de a gente saber o que acontece nos outros expedientes, trocar experiências, organizar os eventos”, explica a estudante Luciana Perez.
Nos núcleos de estudos, por sua vez, analisam-se textos relevantes à prática de cada especialidade no caso da psicologia, temas como a resiliência, a mediação e a transferência. A musicoterapeuta (formada pela FAP) e graduanda em pedagogia pela UFPR Camila Siqueira Gonçalves, 22 anos, já coordena um dos núcleos, o de Psicanálise e Educação. “Minha formação como musicoterapeuta me permite trabalhar na clínica e os estudos na Pedagogia me fazem perceber que as áreas da educação e da saúde devem dialogar, principalmente quando o assunto é inclusão”. Segundo Camila, a Serpiá faz parte de sua formação: “As discussões são profundas, os cursos completos e o trabalho é vivo e feito por profissionais muito acessíveis”.
Para quem se interessar, a coordenadora terapêutica Maria Augusta garante: há vagas para voluntários, “desde que tenham interesse em realizar o trabalho interdisciplinar proposto pela Serpiá, que abrange a importância do brincar, das comemorações e ritos e da escuta da criança e do adolescente”. Para Camila, o acolhimento no tratamento e o bom ambiente de trabalho são virtudes importantes: “Já estive em locais nos quais há um medo de trabalhar com estas crianças e jovens. Por isso, sei que estar presente com uma escuta peculiar, valorizando o dizer de si de cada paciente traz resultados”, garante.
A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
Um dos grandes diferenciais da Serpiá é a área específica que reserva em seu restrito espaço físico para que as crianças brinquem com um especialista pronto para incentivar e mediar o chamado “livre-brincar”. Trata-se da brinquedoteca, que tem como função principal interligar o brincar e o fazer criativo com as terapias. “A intenção é que a criança se expresse através da brincadeira. Para isso, ela pode escolher com o quê ela quer brincar entre as coisas que a gente disponibiliza e a gente faz a mediação. Os temas que as crianças trazem quando brincam são coisas muito presentes na vida e no cotidiano delas”, explica Luciana Perez, que é educadora brinquedista formada no curso de 2006.
Para a responsável pela brinquedoteca da Escola Anjo da Guarda, Maria Cristina Pires, o espaço é importante por preservar um local e um tempo para a criança poder brincar tranqüila. “O crescimento das cidades, a violência e a falta de tempo de pais e crianças reduziram o espaço do brincar”, reflete a educadora. Ela fará parte do corpo docente do IV Curso de Formação de Educadores Brinquedistas e Organização de Brinquedotecas, promovido pela Associação Serpiá e que acontecerá entre os dias 16 e 20 de julho.
“É um curso teórico-prático que possibilita uma fundamentação consistente sobre a importância do livre-brincar, sem o qual a criança tem perdas muito importantes como dificuldade de imaginar, aprender com as situações não-formais, elaborar sentimentos, descobrir do que gosta e o que lhe faz bem, aprender a viver em grupo, assimilando as regras e porque formou opinião sobre elas”, resume a coordenadora do curso e do núcleo e estudo sobre o brincar, Ingrid Cadore.
Segundo a coordenadora, todas as pessoas que realmente acreditam que brincar é importante e que consentem em resgatar o brincar dentro de si estão aptos a fazer o curso. “Costuma ser uma formação adicional à profissional”, explica Ingrid. “Por exemplo: um professor deseja otimizar seu desempenho adotando recursos lúdicos com suas crianças, tanto em situações de aprendizagem formal, de sala de aula, como no tempo livre, como uma forma de entender como esse aluno aprende e quais as emoções envolvidas no processo de aprendizagem. Este mesmo professor pode ser um Educador Brinquedista quando suas ações estiverem focadas na proposta bem mais ampla de uma brinquedoteca”, conta Ingrid. Por essa lógica, o mesmo se daria com outros profissionais de nível superior, principalmente da área de ciências humanas, que acrescentam à sua formação todo o conhecimento e manejo da experiência de brinquedotecas. |
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SERVIÇO:
Associação Serpiá (Serviços e Programas para a Infância e Adolescência)
Rua XV de Novembro 2030, Curitiba PR
Fone (41): 3015-2045
Fax (41): 3015-2066
www.serpia.org.br / serpia@serpia.org.br
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