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Aroldo Murá G. Haygert é jornalista e presidente do Instituto Ciência e Fé

 


 

 

 

 


ANO 8 - ED 93 - JULHO DE 2007

“ROAD TO CURITIBA”:
UM TESTEMUNHO

Aroldo Murá G. Haygert


Jardim Botãnico em Curitiba/PR, por Paola Sansão

Depois de ler a ampla reportagem sobre Curitiba - “Road to Curitiba” - que o jornalista Arthur Lubow publicou no New York Times do último 20 de maio, registro as observações, coisas que vi, e algumas das quais participei como jornalista, na revolução urbana que Jaime Lerner fez a partir de 1971. Respeito os discordantes; não escondo que me impressionei desde a primeira hora da escolha do prefeito que então tinha 35 anos. E comecei a conhecê-lo fundamente quando, com Gilberto Ricardo dos Santos e Luiz Carlos Cunha Zanoni, fui encarregado de escrever o texto básico, biográfico, descrevendo à cidade o prefeito escolhido pelo então governador Leon Peres e depois sacramentado pela Assembléia. Fizemos também o seu discurso de posse. O encontro foi no velho edifício Hauer, na Praça Osório, onde ele tinha escritório. Ele estava com Fany, tímida, bonita e radiosa, e a filha Ilana, uma criancinha.
Eu já sabia quem era Lerner. Era conhecido - não popular - naquela cidade de pouco mais de 600 mil habitantes. Em um programa de variedades na antiga TV Canal 6, dos Diários Associados - o “Dreher Convida”, de Dino Almeida, junto com Vinicius Coelho e Adalgiza Portugal -, foi o jornalista Aramis Millarch quem me introduziu Lerner. Millarch, com a persistência que o marcava, andava com Lerner a tiracolo. Decorreu daí a entrevista na tevê e, depois, a boa amizade com ele e família, o que não quer dizer que isso tenha limitado minha visão crítica sobre sua a obra. E que a tornou modelo para o mundo, de que são provas preocupações constantes da mídia mundial com o legado de Lerner na cidade, como agora o faz Lubow. Sem falar nas “peregrinações” de homens públicos do mundo todo que aqui vêm para conhecer a experiência urbana da cidade, especialmente em reciclagem de lixo e transporte.

Se para o norte-americano Lerner é uma mistura de vendedor de idéias e pragmático, eu vi desde o começo em Lerner um pregador com grande intuição. Numa época em que o país se abria para aceitar todo tipo de indústrias, poluentes sobretudo, ele falava e agia com mente de ecologista. Não há como negar: há 35 anos ele pregava o evangelho do meio ambiente e sua preservação com ações concretas: ônibus expressos em canaletas exclusivas, para impedir a proliferação do carro individual e abrigar o transporte de massa.

Meio ambiente era a chave da doutrina Lerner, que se ampliaria, em duas de suas administrações, com o plantio de um milhão de árvores, um recorde no país, marco não superado em nível mundial. Antevisão que o levou a criar a Cidade Industrial de Curitiba (CIC), a maior geradora de ICMS do Paraná, um reduto à prova de poluição. A gerência da implantação da CIC coube ao “catequista” Cássio Taniguchi, disciplinado técnico oriundo do ITA. Nada a ver “com um imenso campo de golfe”, como tentaram apelidar a CIC os seus opositores políticos.

Fui a Caxias do Sul, em 1972, com o grande apóstolo da revolução urbana de Curitiba, braço direito de Lerner, Rafael Dely, para a recepção à primeira unidade do ônibus expresso. Luiz Julio Zaruch, depois secretário de Imprensa de Curitiba, Almir Feijó, jornalista, e eu estávamos entre as testemunhas do ato histórico do “vermelhão” andando e chamando atenção nas ruas geladas de Caxias.

Lerner mudou a cidade visceralmente nas gestões 1971/75 e 1979/83. No terceiro mandato, fruto da histórica eleição dos “doze dias”, fez-se prefeito pelo voto consagrador, mandato de 1989 a 1992. Com Fany, bolou outra revolução, o “Vale-Creche”.

Inquieto, discurso não eloqüente, avesso às fofocas políticas, Lerner apostava no seu “feeling”: em 48 horas, abortando movimentos protelatórios do comércio, implantou, num fim de semana, o fechamento da Avenida João Pessoa e de parte da Rua XV, nascendo o calçadão, uma novidade no Brasil de então, saudada com manchetes de apoio e, de outro lado, esquartejada por críticos ferozes.

Nem tudo deu certo: se a grande intervenção viária fez a vital ligação Norte-Sul da cidade, com o sistema trinário (duas rápidas e uma rua com canaleta para o expresso cercada por duas vias de tráfego lento, com habitações e comércio farto), ele quis que o cidadão usufruísse do lúdico inovador. Assim, contratou Juarez Machado para fazer o xadrez gigante na Praça Generoso Marques, precocemente abandonado.

Mas o Teatro do Paiol, adequação para espaço cênico de um antigo paiol de pólvora, foi inaugurado com festa: Vinícius, seu uísque, e Toquinho, numa noite para sempre memorável, tendo Millarch como o grande “meteur-en-scène”. Com o Paiol se consolidaria outra ponta da obra, a Fundação Cultural de Curitiba, de cujo conselho da FCC nascente fazíamos parte Newton Freire-Maia, Eduardo Rocha Virmond, Edwald Labatut, Jaime Guelmann e eu.

Ainda motivado pela ampla reportagem de Athur Lubow, publicada em 20 de maio no New York Times, sobre o perfil inovador de desenvolvimento urbano implantado em Curitiba por Jaime Lerner, registro: a reciclagem do lixo veio em dias em que isso era “coisa de sonhador”.

Foi o primeiro passo nacional para prevenir o caos do aquecimento global hoje anunciado. Intuição aguçadíssima e bom senso administrativo ao implantar políticas públicas que, 36 anos depois, apenas se insinuam no resto do país.

Ao trabalho pedagógico (recolher lixo não dá dinheiro ao poder público) Lerner deu o nome “Lixo que não é Lixo”, com frota especial de caminhões e usina pioneira de reciclagem em Campo Magro; como conseqüência, surgiram os “carrinheiros”, vivendo de recolher o lixo limpo.
Com Lerner chegou-se a recolher 34% do lixo da cidade, hoje não passariam dos 22%, segundo o jornalista do New York Times. Depois veio o “Câmbio Verde”, garantindo gêneros alimentícios em troca de lixo em áreas periféricas.

Para Arthur Lubow, Lerner é “o arcanjo de Curitiba”. Para mim, foi aquele que abortou o Armagedon urbano, evitando-o entre nós, ao implantar doze parques urbanos, áreas verdes de lazer e preservação do ecossistema. Obra que se consolidaria com o Jardim Botânico, com seu “Palácio de Cristal”, a que deu o nome de Fanchette Rischbieter, a assessora, amiga e “alter ego” que ousava contrariá-lo e exerceu trabalho de olhos e ouvidos do “rei” na garantia da implantação do Plano Diretor, este concebido por Jorge Wilheim, de que Lerner foi o executor com amplas “licenças poéticas”. Com tais ações, a cidade soterrou a “aldeia sinistra”, um dos apelidos menos cáusticos que tinha até 1971. Foi trabalho assentado no tripé transporte de massa, preservação do meio ambiente e desenvolvimento industrial sustentável e gerador de emprego e renda (com a CIC).

“Capital Ecológica” é mote dos anos 80, fixou bandeira administrativa que se mostrou corretamente premonitória. Premonição que anda junto de tipos humanos especiais, visionários e estadistas, como Lerner.
Assim como de estadista deve ter sido sua decisão de montar o metrô de superfície, com os ônibus expressos andando em pista exclusiva, alternativa ao metrô tradicional para o qual não havia - e não há - dinheiro suficiente. Pelos cálculos de Lerner, o custo do metrô é cem vezes maior do que o de superfície para o atendimento do mesmo número de passageiros.

Da ampla visão ecológica há ainda, nos anos 70, a Universidade Livre do Meio Ambiente, um centro referencial de estudos ecológicos e fixador de mentalidade, disseminador de disciplina até então parecendo devaneios urbanísticos. Cleon Ricardo dos Santos foi seu primeiro reitor.

Da equipe de Lerner, além de Rafael Dely, há outros do mesmo padrão, como Lubomir Ficinski, Cássio Taniguchi, Angel Bernal, Carlos Eduardo Ceneviva, Erick Frick, Manoel Coelho (arquiteto de universidades e designer de grandes marcas), Abrão Assad com seu mobiliário urbano.
Foi com gente como essa que as idéias de Lerner ganharam o mundo e admiração, sendo expostas até em praça pública, como quando expressos e estações-tubo foram expostos em Nova York. Trabalho de uma equipe que, por exemplo, concebia moradias populares a baixo preço, de bom gosto, diferenciadas, fugindo à padronização de grandes conjuntos. Tudo acompanhado da montagem de estoques de terras para futuras obras.

Na área social, lato sensu, houve feitos ainda não igualados, como o Vale Creche e muitas dezenas e dezenas de creches pessoalmente atendidas por Fani Lerner e suas voluntárias, de todos estratos sociais, que iam à população periférica, preparando mão-de-obra para que creche não mais fosse um depósito de crianças carentes.

A usina de criatividade foi sempre identificada com o IPPUC, a “Sorbonne do Juvevê”, cognome em homenagem à França e Paris, onde o creme do creme dos urbanistas curitibanos foi formado, sob o mecenato de madame Hélène Garfunkel, mãe de Fanchette. Da Rua Bom Jesus e suas pranchetas saiam as novidades essenciais para a alma da cidade, todos os dias. Ora nasciam os ônibus biarticulados; ora ônibus “ligeirinhos”; depois, as gibitecas ou as reciclagens de prédios, como o da Confeitaria Schaffer, para ser um pólo cultural. Nessa área Lerner teve notáveis, como Maí Nascimento Mendonça (ninguém conhece Curitiba e sua história melhor do que ela), Aramis Millarch, Lúcia Camargo, Alfred Willer, Ernani Buchmann, Maria Elisa Paciornick, Lídia Dely, Guido Viaro, Nireu Teixeira.

Área que garantiu os objetivos do Centro de Criatividade, cujo nome dispensa adjetivos. Isto sem falar num gabinete prefeitural com nomes como Jaime Lechinski, Henrique Naigeboren (uma raridade de ser humano), Eduardo Virmond, Nestor Bueno, Gerson Guelmann, o fiel escudeiro, “fac totum” insubstituível, Duda Camargo, Jaira Barreto.

Mais importante de tudo: esses tempos imprimiram um orgulho, o de “ser curitibano”, que permanece. Orgulho que alavancou a valorização das raízes étnicas e suas expressões culturais, como o “leite quente”, valores expostos por um dos filhos mais representativos de Curitiba, nascido de dona Elza e seu Felix, poloneses fugidos do Holocausto que se avizinhava na Europa. E aqui geraram rebentos, dentre eles, Jaime, cidadão do mundo, cuja dimensão o fez compor recente exposição mundial em Chicago que o colocou entre os 20 replicantes modernos de Leonardo Da Vinci. Uma seleção mundial de inquietos e insuperáveis criadores, o que apenas fez justiça ao melhor identificador de Curitiba no mundo.

Publicado no jornal Gazeta do Povo nos dias 1º e 8 de njunho de 2007

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