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ANO 8 - ED 94 - AGOSTO DE 2007
MÉDICO CRISTÃO
reportagem de Rafael Finatti
Cheguei à casa do médico cardiologista Ary de Christan num dia chuvoso do mês de julho. Ele mesmo abriu o portão de ferro e me recebeu com um largo sorriso no rosto: “Rafael?”. Entramos. No caminho pelo florido jardim, cujas flores, em especial as belas e coloridas orquídeas, ele mesmo parece cuidar como se fosse um paciente, tivemos que tomar cuidado para não escorregar pelo chão de pedra molhado pela chuva. “Vê aquele acidente de avião em São Paulo. Tenho que providenciar umas ranhuras aqui no meu chão também”.
Fundador da Academia Paranaense de Medicina (e primeiro Acadêmico Emérito da Instituição), o Dr. Ary de Christan é daquelas pessoas que gostam de contar histórias. A começar pela origem do seu nome, “Christian, como o dessa rede, Christian Dior”. Cidadão Benemérito do Estado do Paraná, aos 80 anos mantém uma memória excelente de fatos e nomes importantes da sociedade paranaense que fizeram parte de sua vida. Ávido por conhecê-lo melhor, perguntei-lhe sobre sua infância. A partir dali, não precisaria de qualquer cerimônia para dar início à entrevista.
“Meus pais vieram nessa imigração que houve para substituir os escravos, que, ao ficarem libertos, perderam tudo. Já os italianos vieram com uma posição privilegiada...”. A televisão estava ligada num canal de notícias. Impossível me concentrar no que o Dr. Ary falava. Pedi-lhe para que desligássemos. “Tem razão. Essa coisa aí atrapalha muito a gente”.
Na seqüência, ele contou sobre sua infância difícil, tendo que trabalhar logo aos 14 anos até entrar no curso de medicina da Universidade Federal do Paraná, em 1955. Falou dos anos de estudo muito bem aproveitados até se formar, em 1960, e também do grande respeito que havia para com os professores. “Acho uma lástima o que está acontecendo hoje”.

O benemérito doutor Ary:
a medicina e o sacerdócio assemelham-se.
UCF - O senhor estudou na UFPR e depois foi diretor do Centro de Ciências Biológicas de outra importante instituição de ensino superior do Paraná, a PUC. Qual a diferença para o ensino de medicina naquela época para o de hoje?
Do primeiro ao sexto ano era um curso curricular. No primeiro ano, onze disciplinas. Não havia nem residência médica, nem estágio. Mas os professores eram tão respeitados... Nós íamos para a universidade de terno. Esse respeito aos professores era observado religiosamente. Todos ficavam de pé e só sentavam quando o professor sentava. E a Universidade Católica tinha uma proposta diferente, de dar formação profissional com o enriquecimento espiritual.
UCF - Isso tem sido mantido?
Embora com a mudança dos tempos, as coisas tiveram tanta revolução no ensino de modo geral, que isso é bastante delicado. Acho que é preservado sim. Mas veja, eu acho que apesar das modificações decorrentes da evolução de caráter social e político, a PUC mantém esse enriquecimento através dos cursos de religião e de teologia especialmente. As salas onde o Monsenhor Ivo Zanlorenzi, um grande orador sacro, ministrava aulas eram pequenas para atender o número de estudantes. Ele tinha frases lapidares: “não se pode ensinar espiritualidade a quem está de estômago vazio”. Primeiro dá o peixe; e concomitantemente dá a vara para ensinar a pescar. O peixe é a comida; a vara é todo o resto: higiene pessoal, uma vestimenta, um teto, educação e trabalho.
UCF - Esse pensamento se assemelha à proposta atual do governo federal...
Só que eles fazem disso uma demagogia. Desde 1999 eu venho insistindo junto à CNBB para que se promova uma mobilização nacional. De que forma: são quase trezentas dioceses no Brasil. Se a CNBB coordenar a mobilização das dioceses e se as dioceses promoverem a mobilização de suas paróquias... Curitiba na época que comecei esse trabalho já tinha 156 paróquias; hoje deve ter mais. Imagine as grandes metrópoles. E cada paróquia mobilizando suas associações de leigos. Não dá mais de duas horas pra cada um, por mês. Se houvesse essa adesão, nós teríamos um trabalho de ponta nos mais distantes rincões desse país.
UCF - E como se daria essa adesão?
Primeiro, acolhimento, que não precisa ser feito pelo bispo ou pelo padre, mas por qualquer pessoa que possa ouvir o que se tem a dizer. Isso é importante. Eu comparo o sacerdócio com o exercício da medicina: a medicina bem desempenhada é um sacerdócio; o sacerdócio bem desempenhado é muito mais do que um médico. Cristo deu o exemplo disso ao curar os enfermos. Em segundo, a questão da alimentação. O que está sobrando para nós não é nosso; é deles. Depois, o atendimento das necessidades corporais, fazer com que se sinta útil. Aquele velho preceito de que “ninguém é tão rico que não precise de nada e que ninguém é tão pobre que não tenha nada pra dar” é uma grande verdade. A reciprocidade é muito importante. A Campanha da Fraternidade, feita todos os anos, é muito expressiva e importante, mas termina no domingo da Páscoa. Essa mobilização que eu defendo seria uma Campanha da Fraternidade em caráter permanente.
UCF - Dividir com o próximo, em tese, é princípio da espiritualidade cristã. O Brasil é o maior país católico do mundo. Por que aqui as coisas não funcionam assim?
Infelizmente, nós somos muito egoístas. Lembramo-nos mais de Deus quando aperta o calo. Há os de menor percepção que chegam a dizer que Deus é ingrato. Se a gente raciocinar com espírito acolhedor, receptivo, nós só teríamos a agradecer.
UCF - Falta fé então?
Claro. Falta formação adequada e falta fé, principalmente. Deus dá o frio conforme o cobertor. Os tempos mudaram muito. Não sei nem se o Monsenhor Ivo conseguiria manter, como mantinha naquela época, uma turma de hoje. Não é fácil, não.
UCF - Qual a sua opinião com relação ao atual papa?
Estava torcendo para que ele fosse eleito. O cardeal Ratzinger era o responsável pela preservação da fé. Lembro-me de quando o frade franciscano Leonardo Boff foi submetido ao silêncio obsequioso, que ele não cumpriu; vejo nele uma ambição muito grande: queria aparecer mais do que o próprio cardeal Ratzinger e o papa João Paulo II. E olha que o frei Boff é um homem educado, de diálogo, afável e cordial. Dom Pedro Fedalto me disse que o cardeal Ratzinger é uma doçura de pessoa; e deu pra ver isso agora que ele esteve aqui. Mostrou que é um homem sensível aos problemas sociais. A minha esperança é de que haja um incentivo de ação para uma conciliação do sagrado pelo social.
UCF - Como o senhor acha que deve ser a relação da CNBB com o governo?
O importante é a independência. Cada um em seu papel. A Igreja tem a missão primordial de anunciar o Evangelho e denunciar quando as coisas não vão bem. O Brasil está precisando de uma união das Igrejas Católicas, sob a coordenação da CNBB. As Igrejas deveriam selecionar grandes oradores e colocar as coisas às claras. O problema da corrupção no país é gravíssimo. O corporativismo dos políticos é uma chaga que precisa ser retirada. Não é fácil fazer isso, pois a preocupação maior deles é com o interesse pessoal. O Lula é um líder sindical, com um quebra-corpo da melhor categoria. Porém, “dize-me com quem andas e eu te direi quem és”. No fim, quem é prejudicado é a massa do povo, principalmente a classe média. Sou francamente favorável a uma revolução de transformação. Falta no país o que tinha no tempo do império, a possibilidade de dissolver o Congresso. Por que esperar? Quatro anos dá para destruir o país!
Mas vamos fazer uma síntese do jornal: Ciência e Fé. O casamento das duas coisas é possível. Ao mesmo tempo em que se ampliam os horizontes, ampliam-se as dúvidas e as incertezas. A fé é a expressão máxima das religiões para nós cristãos, principalmente. Deus deu a vida pela humanidade. É importante que se faça a união da fé com a ciência. O grande milagre é a existência de tudo o que está aí.
UCF - Para um médico, esse pensamento ajuda, não?
Nós recebemos dons divinos, uns mais, outros menos. Cristo deu os talentos e mandou que fossem aplicados, para se multiplicar. Cada qual retribui de acordo com os talentos recebidos. Quem tem condições de fazer e não faz, tem que justificar porque não faz.
UCF - Nesse sentido, é impossível não perguntar sua opinião de médico com relação ao aborto e às células-tronco...
Não me faço de rogado, pois tenho uma opinião formada há muito tempo sobre o aborto. Sou quase radicalmente contra o aborto. Mesmo num estupro, o bebê que nasce pode vir a ser o sustentáculo da mãe. Por que tolher o direito à vida daquele concepto que não tem culpa do que aconteceu? Eu acho que o aborto só se justificaria em extremos, no caso de oferecer risco à vida da mãe e mesmo assim com a aquiescência dela, de que ela prefere realmente se ver livre da gravidez porque ela quer preservar sua vida, porque tem outros filhos pra criar, por exemplo. Ou ela diz: eu prefiro correr o risco, mas quero que o direito à vida de meu filho seja preservado. Aí vem o inverso: as feministas, que são mulheres mal amadas, que só querem competir com os homens, dizem que as mulheres têm direito e são donas de seu corpo. Em termos: a decisão é lá de cima. Então de modo geral não se justifica o aborto. Quanto às células-tronco, vejo que não há necessidade de apelar para a criação de embriões. Há outros meios. Mas acho que é uma grande conquista científica. Quem sabe, eu, com tantas pontes de safena, não possa resolver meus problemas de coração com células-tronco?
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