|
|

ANO 8 - ED 94 - AGOSTO DE 2007
MUDANÇAS E MUTAÇÕES
O FUTURO DAS CIDADES
Da equipe de redação do jornal Universidade e com reportagem de Rafael Riva Finatti

A parceria entre o Instituto Ciência e Fé e a Fundação Salette
reuniu cerca de noventa convidados ávidos por discutir
as principais transformações que a sociedade brasileira
enfrenta e enfrentará. Na primeira fila aparecem o presidente
do Instituto Ciência e Fé Aroldo Murá Gomes Haygert
e o presidente da Fundação Salette Pe. Adilson Schio, MS, à direita.
No dia último dia 28 de julho, o Instituto Ciência e Fé e a Fundação Salette promoveram a primeira parte da jornada de debates sob o tema “Mudanças e Mutações”. O evento reuniu cerca de noventa convidados ávidos por discutir as principais transformações que o mundo enfrenta e enfrentará, na sede da fundação, em Curitiba. O saldo foi dos melhores - graças às explanações de dois estudiosos das mudanças globais: pela manhã, a palavra coube ao ex-presidente da Fundação Pedroso Horta de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais, além de ex-vice-governador do Rio Grande do Sul, João Gilberto Lucas Coelho Neto; na parte da tarde, o ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, urbanista com ação e projeção internacionais, foi o conferencista.
A apresentação da jornada foi feita pelo presidente do Instituto Ciência e Fé, Aroldo Murá G. Haygert, e pelo presidente da Fundação Salette, padre Adilson Schio, missionário saletino. A mediação em ambos os períodos, ficou por conta do ex-ministro Euclides Scalco, a quem coube ainda, no final, conduzir uma pequena avaliação do evento através da qual se pôde registrar a satisfação dos convidados para com os temas debatidos, além de sugestões para futuros encontros.
Nessa nova parceria, tanto o Instituto Ciência e Fé, quanto a Fundação Salette querem contribuir para que se pense num futuro menos difícil do que aquele que se tem prognosticado. Para tanto, reunir diferentes credos e pontos de vista faz-se absolutamente necessário.
Os trabalhos foram filmados profissionalmente com vista à edição de DVD para venda aos sócios, dos promotores do simpósio e demais interessados.
O encontro do dia 28 foi exclusivamente para convidados previamente confirmados e reuniu os sócios do Ciência e Fé e Salette, psicólogos, professores universitários, cientistas sociais, pastores evangélicos, padres católicos, arquitetos, urbanistas, administradores públicos, estudantes universitários, jornalistas, dirigentes universitários, médicos...

Euclides Scalco à esquerda e o político gaúcho
João Gilberto Lucas Coelho Neto,
um dos maiores especialistas na Constituição de 1988
O ABRANGENTE “Espero que todos nós tenhamos ainda mais ânimo para fazer o que tem de ser feito em tempos tão difíceis”. Foi com essas palavras que o advogado e professor João Gilberto Lucas Coelho Neto encerrou sua participação no evento daquele sábado ensolarado do inverno curitibano na Fundação Salette. Após versar sobre os mais conflituosos e complexos temas, o “gaúcho da fronteira” (já que nasceu na cidade de Quaraí, no Rio Grande do Sul, quase divisa com o Uruguai), fundador do PSDB, fez com que os participantes do evento saíssem até um pouco confusos do auditório em que foi realizada sua conferência, tamanha a diversidade de assuntos de que tratou. “Esses temas, tão importantes, pedem tratamento mais aprofundado, de forma mais específica”, analisou Jonas Pinheiro, conselheiro do ICFÉ.
Na verdade, todos, ao que pareceu, ficaram com uma sensação de “quero mais”. Político vanguardista, João Gilberto é um dos maiores especialistas do país sobre o processo que culminou na elaboração da Constituição Federal de 1988. Coube a ele, pois, abordar de forma ampla, muitas questões que permeiam qualquer colóquio sobre o futuro de nossa sociedade. Nesse sentido, falou desde a globalização econômica, até questões como o papel da mulher na sociedade e o problema do meio ambiente: “O capitalismo extremo, com os mercados acima de qualquer controle, é algo que deve mudar. O mundo caminha para um momento em que haja algum controle sobre todo esse processo”, afirmou. “Precisamos tomar medidas duras”, salientou ele, sobre a questão ambiental.
João Gilberto tratou também da questão energética, para ele um dos maiores desafios do país. “Há os que pensam que o Brasil, com os biocombustíveis, se tornará rico”. Segundo Gilberto, o problema é encontrar o equilíbrio, uma matriz energética diversificada e com espaços para fontes alternativas de energia.
Questionado sobre como ele via a situação dos jovens diante de todas as transformações pelas quais o mundo vem passando, João Gilberto não poupou toda a sociedade de responsabilidade: “Hoje, o jovem é agente, mas também vítima da violência. Acho que nós temos que fazer um grande esforço. Se ficar como está, cada vez mais os jovens serão presas fáceis”.
Segundo João Gilberto, a pobreza não é a causa do crime, apesar de potencializá-lo. Porém, haveria muitas outras causas; entre elas, a falta de referências do povo brasileiro, principalmente diante dos últimos escândalos de corrupção. “Não sei se ela (a corrupção) é maior hoje do que já era. Mas, de 1988 para agora, em 20 anos, nós temos quase vinte deputados cassados - vinte vezes mais do que em toda a história da república”. Para ele, apesar de crimes públicos existirem em todo o mundo, a “cultura de corrupção” que foi criada no Brasil traz efeitos terríveis para a sociedade. “Corremos o risco de o brasileiro pensar que o caminho é a corrupção. O cara que fura a fila, se o colocarem para fazer uma licitação, ele vai se beneficiar. Se eu passo a perna nas coisas pequenas, por que eu não vou passar nas grandes?” refletiu Gilberto.
Todo esse discurso fez com que, no final, o tucano fosse perguntado sobre o atual governo, ao qual ele, naturalmente, se declara de oposição. “Eu acho que o governo tem muitos erros, alguns acertos. Mas sou completamente contra essas coisas de 'tira Lula', 'fora Lula'. A democracia é pedagógica. O eleitorado vota e tem que sofrer as conseqüências. Por isso, acho que meu trabalho é desgastar o Lula, questionar suas posições, mas não torço por um desastre total”. A análise de João Gilberto é lógica: segundo ele, os governos Lula e FHC são muito parecidos: “estamos caminhando pelo quarto período de uma experiência sócio-democrática”, acredita JG. Assim, decretar o fracasso desse tipo de experiência seria abrir portas para a eleição de uma figura da direita brasileira ao final desses 16 anos, um desastre tanto para PT, quanto para o PSDB.

Para o ex-governador, a condição fundamental
da sustentabilidade é de jamais disputar o mesmo espaço
O ESPECÍFICO Após o almoço, servido no refeitório da fundação, a apresentação de Jaime Lerner foi nos mesmos moldes das conferências para as quais ele tem sido convidado a participar em diversas cidades do mundo, como na Europa, Estados Unidos, México, Jordânia (na semana seguinte Lerner faria conferência num dos principados árabes).
Urbanista bastante respeitado pela revolução urbana que promoveu na cidade de Curitiba, a partir dos anos 70, tem aproveitado tais palestras para disseminar a idéia das cidades enquanto espaços de convivência. Em meio aos diversos problemas sociais, econômicos e ambientais, e à preocupação cada vez maior de se ter um desenvolvimento sustentável, seu lema é: “city is not a problem; city is the solution” (cidade não é um problema; cidade é a solução). De acordo com ele, a preocupação não deve ser apenas com a sustentabilidade, mas também com a melhor convivência entre as pessoas, a coexistência. Para tanto, a idéia é que as cidades possam contribuir, através de soluções simples, mas viáveis, inclusive no curto prazo.
“Depois de trabalhar quarenta anos com cidades, posso dizer que qualquer cidade do mundo pode melhorar sua qualidade de vida em três anos. Não importa o tamanho e os problemas, basta formular uma boa equação de co-responsabilidade”, afirmou. O ex-governador baseia-se num estudo que fez por ocasião das últimas eleições presidenciais: dos 5.500 municípios brasileiros, só cem têm mais de 200 mil habitantes; “e não é difícil encaminhar bem uma cidade de 200 mil”. Entre 200 e 500 mil habitantes, são mais setenta cidades: “também não é tão complicado assim”. No fim, segundo o estudo, problemas mesmo só em sete regiões metropolitanas. “Começamos a ver que o problema não era tão grande assim. Com investimentos pequenos, menos do que se perde num dia para o outro no mercado financeiro, por exemplo, poderíamos melhorar a qualidade de vida de todas as cidades brasileiras”, admitiu. Simples assim.
Jaime Lerner realmente acredita em soluções simples. “As pessoas ficam às vezes muito angustiadas porque não sabem o que fazer”, diagnostica. Segundo ele, se cada um se comprometesse com uma parte, poderiam ajudar a tornar as cidades mais sustentáveis. Basicamente, seriam cinco compromissos: usar menos o automóvel; separar o lixo; morar mais perto do trabalho, “se é possível, claro”; e entender que a sustentabilidade é uma equação entre o que a gente poupa e o que a gente desperdiça. Um quinto compromisso deveria ser adotado com a ajuda dos governos municipais, que é o que Lerner chama de “espaços multi-uso”: “Não dá mais para termos os centros da cidade vazios. Eu acho que nós temos que trazer universidades para o centro. Revitalizar é voltar a viver. Um ginásio pode ser um belíssimo mercado durante a manhã; à tarde, uma faculdade; à noite, eventos esportivos e culturais. Não existe sapo que não possa ser transformado em príncipe, ou rã que não possa ser transformada em princesa; depende do beijo”, professa o ex-governador.
A questão dos sistemas públicos de transporte não poderia ficar de fora. Em meio ao debate que sempre se deu em Curitiba com relação ao metrô, Lerner ponderou que este exige grandes investimentos e também subsídios, o que retiraria investimentos dos programas sociais. “A cidade de Nova Iorque está implementando a linha de metrô da Segunda Avenida. Começaram a discutir essa linha há 50 anos e vão demorar mais 20 anos para construir. Ou seja, 70 anos; custará 4 bilhões de dólares e não vai transportar mais passageiros do que o biarticulado que passa ali perto de minha casa”, analisou.
Não fossem os custos, Lerner alerta também para a questão da mobilidade: “o metrô é rápido, mas o que não é rápido é você”. Segundo ele, mesmo em Paris, considerado o melhor metrô do mundo, as pessoas têm que se deslocar de 15 a 20 minutos para fazer as conexões, o que não é muito prático, principalmente para os idosos. “Além disso, nem todo lugar é como o Japão, que tem escada rolante”, lembra ele. “E tem ainda a questão da freqüência: soltar trens não é a mesma coisa que soltar ônibus minuto a minuto, que era a idéia inicial dos biarticulados em Curitiba”. De qualquer maneira, segundo o urbanista, combinar metrô, táxi, ônibus, bicicleta, desde que eles não disputem o mesmo espaço, é o segredo para as grandes cidades. Para finalizar, Jaime Lerner enfatizou que todos precisam participar e tentar tornar efetiva a transformação das cidades. “Inovar é começar”, sentenciou.
< retorna ao
sumário
|

|