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ANO 9 - ED 97 - NOVEMBRO DE 2007
PE. PIUS SIDEGUM:
O TERAPEUTA ESPIRITUAL
reportagem
de Rafael Riva Finatti

Do encontro, que teve
por tema “O Senhor é meu
Pastor”,
participaram cerca de vinte pessoas, entre leigos
de diversas atividades
profissionais e religiosos. Foto: Divulgação
No final de semana dos dias 26, 27 e 28 de outubro,
o Instituto Ciência
e Fé promoveu o tradicional retiro anual orientado pelo padre
jesuíta Pius Sidegum, na Casa Padre Reus, em Piraquara. Do encontro,
que teve por tema “O Senhor é meu Pastor”, participaram
cerca de vinte pessoas, entre leigos de diversas atividades profissionais
e religiosos. Para todos os participantes, um retiro como esse pode
ser - e foi - uma oportunidade rara de por algumas horas desvencilhar-se
dos afazeres que a rotina lhes implica, aproveitando para refletir
sobre temas da espiritualidade cristã e interiorizá-los,
repensar atitudes e, quiçá, definir novos rumos por onde
seguir dali por diante.
No caso de “O Senhor é meu Pastor”, a idéia
era melhor acolher o que Deus deseja revelar a todas as pessoas, tendo
como fio condutor a figura de Cristo enquanto “o bom Pastor”,
tão presente na Bíblia. No Antigo Testamento, o pastor é tido
como o Deus-Pai, que conduz o rebanho à certeza do abrigo seguro,
ao seu próprio coração; no Novo, o bom Pastor
que protege e apresenta o caminho para o Reino de Deus é o próprio
Cristo que assume a missão de ir ao encontro de suas ovelhas
perdidas. Mirando-se no exemplo do filho de Deus, também os
retirantes foram convidados a cultivar o coração generoso,
manso e humilde do bom Pastor, em prol da construção
do Reino.
Afinal, não é fácil agir em nosso dia-a-dia
como o pastor que foi Jesus Cristo. A renovação e a perseverança
na fé são fundamentais nesse sentido; daí a importância
de encontros como esse, promovidos pelo ICFÉ e de existirem
pessoas como o padre Pius Sidegum, dispostos a aquecer e animar os
corações daqueles que optam por seguir a espiritualidade
cristã. Desde o final de 2003, este gaúcho de Santa Maria
do Erval está “totalmente liberado para a orientação
de retiros espirituais”: viaja pelo Brasil a convite de congregações
e centro de estudos aplicando um pouco do que aprendeu ao longo de
mais de 45 anos dentro da Companhia de Jesus.
O estudante Pius Sidegum
nasceu em 15 de agosto de 1946 numa família
de agricultores. Ainda criança, mudou-se com eles do Rio Grande
do Sul para São João de Oeste, em Santa Catarina, onde
viveu uma infância muito alegre: “Acho bonito quando olho
pra trás”, diz ele. Terminada a 4ª série do
Ensino Fundamental, Pius deixou a escola para ajudar o pai no roçado.
Trabalhou por dois anos e aos 13 decidiu que queria ir para um seminário.
A vocação surgiu aos poucos, mas ele mesmo nem se lembra
exatamente o porquê. “Na família nem se falava dessas
coisas. Tinha um seminário jesuíta próximo e eu
quis virar padre. Quando manifestei essa vontade, meu pai só disse
uma coisa: 'ser padre é como trabalhar na roça, filho:
tem que perseverar. Não é só trabalhar no que é bom;
a perseverança também se dá nos momentos difíceis'”,
recorda-se ele.
Pius perseverou. Em 1960, iniciou o pré-seminário
ali perto mesmo, em Santa Catarina. Concluiu o ginásio em 1964
no Colégio Santo Inácio, em Salvador do Sul-RS; e cursou
o colegial entre 1966 e 1968, no Colégio Catarinense, em Florianópolis.
Findado o seminário, já estava certo de que era a vida
religiosa mesmo o que queria para si, o que o motivou a seguir para
o noviciado em Porto Alegre (1969/70) e dali para o curso de Filosofia
da Faculdade Anchieta, em São Paulo.
Com a formatura em Filosofia,
em 1975 Pius voltou à Florianópolis
para um estágio de dois anos no Colégio Catarinense,
onde atendeu seminaristas e lecionou cultura religiosa. De 1976 a 1979,
cursou sua segunda faculdade o curso de Teologia do Colégio
Cristo Rei, em São Leopoldo. Ao final, embarcou para Roma para
encarar três anos de uma espécie de mestrado em Psicologia
na Pontifícia Universidade Gregoriana, uma das mais importantes
Universidades Católicas do mundo, fundada por Santo Inácio
de Loyola e pertencente à Companhia de Jesus.
Dali em diante,
alternou suas atividades entre os atendimentos clínicos
e orientações espirituais e as responsabilidades administrativas
como diretor do CECREI, em São Leopoldo na década de
90, e reitor da Igreja do Rosário, em Curitiba, entre 1999 e
2003. Além disso, padre Pius Sidegum é também
mentor do grupo Fonte, que prepara materiais e roteiros de seguimento
para retiros inacianos. Por isso, praticamente não pára.
Orienta retiros de finais de semana e de oito dias praticamente todos
os meses, além dos retiros de 30 dias em média, são
três por ano.
“Por hora está difícil encontrar uma brecha para
descansar. Mas é um investimento bom, apesar de cansativo”,
admite ele. Nos retiros de 30 dias, os atendimentos personalizados
a cada um dos participantes grupos entre 20 e 25 pessoas são
diários e duram aproximadamente de 15 a 20 minutos. Dá para
imaginar o quão puxado isso deve ser.
O terapeuta A experiência
em Roma foi muito importante para Pius. A idéia era que aquele
conhecimento científico na área
da psicologia o ajudasse a preparar-se ainda mais para a missão
de atuar com a formação dos noviços. De fato,
ao voltar para o Brasil, ele passaria de 1983 a 1989 trabalhando com
atendimentos clínicos baseados na Psicologia do Profundo e na
teoria da Autotranscendência na Consistência. Esta teoria,
introduzida pelo padre Luigi Rulla, permite ter presente os valores
transcendentais dentro dos atendimentos clínicos psicológicos,
contrariando um pouco a psicologia acadêmica, em que muitas vezes
a fé é deixada de lado: “Se a pessoa tem fé e
se o que eu quero é ajudá-la com o atendimento, porque
não ajudar na dimensão espiritual?”, justifica
Sidegum. “O Evangelho é profundamente terapêutico
quando conseguimos assimilá-lo”.
Pe. Pius Sidegum
Foto:
Divulgação
Desta maneira, é possível
estabelecer um elo entre um atendimento clínico da psicologia
e um atendimento espiritual, ou até mesmo uma confissão
até porque, uma confissão
não se limita à acusação de más
atitudes, mas sim, abre-se a um diálogo sobre certos atos e
esta partilha permite que a pessoa se reconheça, tal como acaba
acontecendo numa sessão terapêutica. “As experiências
mais libertadoras acontecem justamente na conversa em que a pessoa
passa a limpo sua vida, com sinceridade e arrependimento”, explica
Pius. “Nessa conversa, na qual os dinamismos internos vêm à luz,
o sacramento de reconciliação desempenha também
um valor terapêutico”, completa.
Por esses motivos, a formação
que o padre Pius Sidegum tem na área da psicologia acaba sendo
um facilitador na ajuda às
pessoas. “Se os padres tivessem uma formação científica
do saber psicológico, certamente poderiam prestar um serviço
ainda mais significativo. Afinal, são os problemas humanos os
principais entraves ao crescimento da espiritualidade”, acredita
ele. Por outro lado, até como dizia Santo Inácio, “não é o
muito saber que satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas
intensamente”. Por isso, Pius tem buscado privilegiar o estudo
da espiritualidade bíblica, “mas sem nunca perder o foco
na pessoa, o ser humano olhado a partir da Escritura”, de forma
a poder realizar sempre a integração entre o humano e
o espiritual.
PERSPECTIVAS DA IGREJA O padre Pius Sidegum
trabalha tanto que pouco tem tempo de pensar em diminuir o ritmo de
atividades. Para isso, precisaria contar com padres mais jovens, que
assumissem as responsabilidades que ele assume. Todavia, as novas vocações
estão
cada dia mais escassas. “Nossa ala jovem está diminuindo,
por isso a nossa demanda por trabalho só aumenta”, lamenta
ele.
Essa situação é preocupante para o futuro da Igreja.
No entanto, Pius acredita que, como o interesse é dar continuidade às
obras em andamento, a Igreja saberá se organizar de modo a otimizar
recursos humanos. “O problema é encontrar pessoas preparadas”,
diz ele, sem eximir nem mesmo os leigos desta responsabilidade: “Vejo
a atuação do leigo como muito positiva, afinal todos
somos Igreja. Santo Inácio mesmo atuou muito tempo como leigo;
hoje existem leigos orientando retiros”, explica. “Mas é preciso
um planejamento maior dos religiosos para sua relação
com os leigos engajados”, finaliza.
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