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ANO 9 - ED 97 - NOVEMBRO DE 2007

COSTA OESTE:
MODELO DE RECUPERAÇÃO AMBIENTAL

por Romeu de Bruns


Readequação das estradas. Foto: Divulgação.

Região é cenário de mais de 70 projetos voltados ao meio ambiente que vão da limpeza de microbacias à agricultura orgânica

O agricultor Luiz Antonio Arruda, de São Miguel do Iguaçu, já não agüentava mais mexer com herbicidas. Chegou a ser internado para tratar de intoxicação por agroquímicos. Fez a conversão de sua propriedade para a agricultura orgânica e, hoje, produz com a orientação de técnicos da Itaipu Binacional e de parceiros do programa ambiental da hidrelétrica, o Cultivando Água Boa.

Além da questão de saúde, Arruda enfrentava dificuldades para se manter com a agricultura convencional, principalmente pela dependência de insumos. Agora, Arruda trabalha com pepino, café, acerola, goiaba, abacaxi entre outros produtos que são certificados pela Rede Ecovida. A renda praticamente triplicou e ele recebe mensalmente entre R$ 1.200 e R$ 1.500, com a comercialização em feiras e para o governo, por meio do programa Fome Zero. E o conceito de propriedade ecológica lhe permitiu abrir uma nova frente de negócios: o turismo rural. Ele chega a receber grupos da Europa, que vêm conhecer a forma de produção orgânica. “A qualidade de vida que a gente tem hoje em dia eu não troco por nada”, garante.

Ao todo, o programa Agricultura Orgânica do Cultivando Água Boa conta com 26 técnicos atuando nos 29 municípios que fazem parte da Bacia do Paraná 3. O apoio desses profissionais é resultado de convênios da Itaipu com diversas instituições ligadas ao campo, como a Emater, por exemplo.

Com essa ação, a hidrelétrica evita a contaminação dos rios por agrotóxicos, um dos principais poluentes do reservatório da hidrelétrica. Porém, o Cultivando Água Boa vai muito além da promoção de técnicas de cultivo sem agrotóxicos. O programa, reconhecido como a iniciativa ambiental mais completa do setor elétrico brasileiro e premiado na Holanda com a Carta da Terra, é composto de 70 projetos e 96 ações que abrangem desde a recuperação de todas as 29 microbacias do entorno do reservatório da usina (a chamada Bacia do Paraná 3), passando pela proteção das matas e da biodiversidade, pela atenção a segmentos econômicos críticos (agricultura orgânica, plantas medicinais, catadores de papel, pesca em tanques-redes e outros) e pela promoção da educação ambiental nas comunidades do entorno, ação que visa a assegurar o futuro de todo o programa, de forma independente da hidrelétrica.

Um dos pontos fortes do Cultivando Água Boa é a ampla e diversificada participação comunitária: ao todo, são mais de 1.700 instituições parceiras, entre universidades, órgãos governamentais, ONGs e associações. “O diferencial da Itaipu está na abrangência e interconexão das ações do programa, e no fato de que não há uma distinção entre o discurso e a prática”, afirma o diretor de Coordenação da Itaipu, Nelton Friedrich.

Um dos projetos se converteu em referência para a construção de hidrelétricas no Brasil. É o Canal da Piracema, que têm 10 quilômetros de extensão e liga a parte do Rio Paraná localizada abaixo da barragem com o reservatório da usina. A obra permite que peixes migratórios vençam o desnível de 120 metros entre as duas partes do rio, contribuindo para a diversidade e melhoria genética da ictiofauna.

Outro destaque está no campo da recuperação florestal. Ao longo de sua história, a Itaipu plantou 44 milhões de árvores nas margens brasileira e paraguaia. Os viveiros da binacional respondem pela produção anual de cerca de um milhão de mudas que são plantadas nos corredores de biodiversidade (matas que interligam áreas de proteção ambiental) e nas matas ciliares das microbacias da região. Ao todo, a binacional preserva 108 mil hectares de florestas em sua área de influência, divididos em Reservas, Refúgios Biológicos e Faixa de Proteção do Reservatório.

Redução do passivo ambiental é o maior desafio do programa A Itaipu está localizada junto a uma das principais regiões do agronegócio paranaense. Próximo ao reservatório, concentra-se boa parte da produção leiteira e da suinocultura do estado. Por isso, apenas o incentivo à agricultura orgânica não é suficiente para a redução do passivo ambiental das propriedades rurais e para a limpeza dos rios que abastecem o lago. A atenção a produtores que preferem permanecer no cultivo convencional também está entre os principais objetivos do programa.

Para produtor rural Rogério Leonel Ampessan, de Céu Azul, a diferença entre o antes e o depois do Cultivando Água Boa está na cor da água do rio. Em sua propriedade, localizada às margens do Rio das Pedras (microbacia do Xaxim), foram adotadas técnicas de conservação de solo e readequação de estradas. “Agora, quando chove, não fica mais aquela água barrenta. O rio está limpo”, afirma.

Essa readequação de estradas não significa apenas tornar a via mais transitável. A instalação de passadores (uma espécie de quebra-molas ampliado) evita que a água da chuva corra no sentido da estrada. E o caimento nas laterais faz com que toda a água vá para a lavoura. Quando as estradas não estão adequadas e chove, além da erosão do solo, os rios ficam cheios de terra e defensivos agrícolas. Ao todo, entre 2003 e 2006, a Itaipu readequou 273 quilômetros de estradas rurais e a perspectiva para o biênio 2007-2008 é readequar outros 232 quilômetros nos 29 municípios da Bacia do Paraná 3.

Ampessan também viu melhoras em sua propriedade com a adoção de técnicas de conservação de solo e do plantio direto (modalidade em que a palha e os restos vegetais são deixados sobre a superfície e depois revolvidos com o solo para o plantio). “A erosão diminuiu e aumentou a produtividade da soja e do milho”, diz Ampessan, que também tem uma pequena produção de leite em sua propriedade de 14 hectares.

Ainda sob a tutela do Cultivando Água Boa está em desenvolvimento o projeto de geração de energia a partir da biomassa, pelo qual a Itaipu vai ajudar produtores rurais a adquirirem independência energética. A eletricidade será produzida a partir de dejetos da atividade agropecuária, evitando a contaminação dos rios.

Cultivo de peixes incrementa a renda de pescadores Olmiro Vogel vive exclusivamente da pesca há 22 anos. Inicialmente trabalhava com anzol e rede, mas hoje cultiva peixes em 23 tanques-redes, junto com a esposa e o filho. A técnica, segundo ele, melhorou muito a renda da família.

Somente com o que comercializou em feiras da região, ele ganhou R$ 8 mil que lhe possibilitaram a construção de uma nova casa.

Agora, ele quer incrementar a produção para atender a escolas de Santa Terezinha de Itaipu. Ele assinou contrato com a prefeitura para fornecer 300 quilos de peixe a cada 15 dias, que serão utilizados na merenda escolar. Além de aumentar o número de tanques, ele quer se associar a outros produtores para dar conta dessa demanda. “Hoje, quem ainda pesca da maneira tradicional não consegue mais viver só com isso. Tem que se virar com algum outro bico”, afirmou.


Henrique Vilhalba é o responsável
pela alimentação dos peixes nos
40 tanques-redes colocados no rio Ocoí,
que passa ao lado da comunidade Avá-Guarani

Foto: Divulgação.

Para produzir peixes dessa maneira, Vogel conta com o apoio da Itaipu, através do projeto Mais Peixes em Nossas Águas. A iniciativa já instalou 573 tanques-redes na região do reservatório. Há outros 120 tanques que servem para pesquisas realizadas por técnicos da empresa.

Adílson Borges é presidente da Colônia de Pescadores de São Miguel do Iguaçu (que reúne 150 famílias) e faz uma avaliação positiva do projeto. Tanto que, entre 15 e 19 de outubro passado, a colônia fez sua primeira feira para comercializar exclusivamente a produção própria. A colônia é responsável pelo primeiro Parque Aqüícola do Brasil, licenciado pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, do Governo Federal, em 2005. “Essa técnica de criação de peixe é muito produtiva”, assegura.

A Itaipu apoia os pescadores com assistência técnica e com o fornecimento de juvenis (peixes) e de tanques-redes. Mas antes do estágio de juvenil, a Itaipu adquire pós-larvas através de um convênio com o Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Porém, essa sistemática está mudando. “Queremos que o convênio passe a ser entre o IAP e as colônias, para que o processo ocorra de maneira independente da Itaipu, que passa a se concentrar mais na assistência técnica”, explica o gestor do projeto, Pedro Tonelli.

Sidney Santana, que mora com a família (esposa e dois filhos) na zona rural de São Miguel do Iguaçu, vive há 33 anos na região e trabalha principalmente com gado de leite. Nos últimos anos, passou a complementar sua renda com a produção de juvenis em cinco tanques-terra (uma espécie de açude). Em três anos, ele calcula já ter fornecido cerca de 150 mil peixes para a Itaipu, o que lhe rendeu cerca de R$ 350 reais por mês. Agora, vai fornecer diretamente para a colônia de São Miguel. “Para mim, foi um excelente negócio, porque estava com os tanques parados, sem produzir nada”, comemora.

Um dos aspectos importantes da assistência técnica prestada pela Itaipu é a biometria. Técnicos da empresa avaliam o consumo de ração e a produção de carne, para estabelecer critérios mais vantajosos para os pescadores. São critérios que o índio Henrique Vilhalba segue a risca. Ele é o responsável pela alimentação dos peixes nos 40 tanques-redes colocados no rio Ocoí, que passa ao lado da comunidade Avá-Guarani.

Diariamente, ele percorre os tanques de manhã e a tarde, distribuindo a ração. Os peixes (pacus) levam de três a quatro meses para atingirem o peso ideal para a repesca (entre 1,3 e 1,5 quilo). Se o peixe passa disso e engorda demais, há perdas para o produtor. “Quando a gente só pescava, tinha dias que voltava de mãos vazias. Com os tanques, o resultado é muito melhor”, diz Henrique. A tribo começou com 10 tanques-redes, em 2004. Hoje são 40, que respondem pela produção de 8 mil peixes.

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