VOLNEI GARRAFA, professor
titular e coordenador da Cátedra
Unesco de Bioética da Universidade de Brasília, editor-chefe
da "Revista Brasileira de Bioética", presidente da
Rede Latino-Americana e do Caribe de Bioética da Unesco, colaborador
do Instituto Ciência e Fé, para o qual já ministrou
conferências.
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ANO 9 - ED 97 - NOVEMBRO DE 2007
GENÉTICA, CONFIDENCIALIDADE E ÉTICA
Volnei
Garrafa
Ilustração: Linda Bucklin
O domínio de técnicas relacionadas com
o melhor conhecimento do DNA possibilitou o diagnóstico pré-natal
de problemas genéticos e a identificação dos portadores
de genes sadios que podem dar origem a crianças com doença
genética. Se, por um lado, esses testes antecipados permitem
o aconselhamento a casais que correm o risco de gerar um filho deficiente,
por outro, criam uma série de questionamentos éticos,
desde a indicação de um "aborto terapêutico" até a
limitação de um cidadão na sua atividade laboral.
Algumas doenças relacionadas com mutações genéticas,
como a betatalassemia (uma forma de anemia hereditária) ou a
anemia falciforme, são exemplos positivos de como testes confiáveis,
simples e baratos podem trazer bons resultados. O que não se
pode é generalizar, seja no que se refere a testes de aplicação
individual ou coletiva, seja no período pré-natal ou
na idade adulta.
O perigo está na transformação do risco genético
na própria doença. As chamadas "doenças genéticas",
em sua maioria, são conhecidas por terem parte de suas causas
ligadas ao ambiente, desde cânceres e diabetes até afecções
cardíacas e anemias.
De modo geral, o termo vem representando, nos meios médicos,
uma escolha que superestima o fator genético e subestima as
implicações externas. Mas são raras as doenças
em que o gene, isoladamente, desenvolve a patologia de modo implacável
(como a doença de Huntington, que ataca o sistema nervoso).
Trata-se, portanto, de uma decisão com relação
a "valores", além de uma análise adequada do
que é ou não "normalidade".
Um exemplo paradigmático é o uso de testes genéticos
no cotidiano. Questões como aborto passam a ser colocadas não
somente nos casos de malformações mas também de
anomalias cromossômicas.
Para os adultos, surge a questão da notificação
do defeito genético. Ela deve ser feita somente ao indivíduo
portador de genes "ruins" ou também a sua família?
Nos Estados Unidos, as conseqüências já ganharam
complexidade social: não só empregadores e seguradoras
mas também escolas e cortes de Justiça buscam respostas
eficazes, com custos mais baixos e menores riscos. Usam, cada vez mais,
a técnica dos testes.
Assim, os testes preditivos vão além dos procedimentos
médicos e criam verdadeiras categorias sociais, empurrando o
indivíduo para quadros estatísticos. Os problemas sociais
são reduzidos às dimensões biológicas.
As doenças mentais, a homossexualidade, o gênio violento
ou o próprio sucesso no trabalho são - de forma reducionista
- atribuídos à genética. As dificuldades escolares
- antes explicadas pelas desigualdades culturais ou nutricionais -
são imputadas a desordens psíquicas de origem genética.
Seguradoras ameaçam não cobrir as despesas médicas
de uma criança cuja mãe tenha sido alertada de que um
dia o filho seria vítima de problema genético. Entre
números, estatísticas e exames, os empregadores se valem
de testes para previsões orçamentárias de longo
prazo. O indivíduo-cidadão é desconsiderado em
detrimento dos pacientes coletivos da nova medicina.
Mesmo na ausência de sintomas, o risco é endeusado como
a própria doença. Já existem registros de recusas
para a concessão de empregos, para a obtenção
de carteira de motorista ou para a inscrição no seguro-saúde.
Apesar de toda a argumentação relacionada a abusos dos
testes preditivos, não é minha intenção
assumir posição fechada sobre o assunto -favorável
ou contrária-, mas alertar para os perigos da radicalização
irracional da técnica.
A força da ciência está em apresentar-se como uma
lógica utópica de libertação. Tudo isso
deveria desaconselhar tentativas de impor uma ética autoritária,
alheia ao progresso. Deveria induzir-nos a evitar formulações
de regras jurídicas estabelecidas sobre proibições. É preferível
que os vínculos sejam expressos positivamente e que seja estimulada
uma moral autógena.
Em outras palavras, é necessário que não se despreze
a contribuição dos que vivem a dinâmica da ciência
e da técnica, mas sem delegar a eles decisões que dizem
respeito a todos.
O controle sobre qualquer atividade de interesse público e coletivo
a ser desenvolvido deve ser social. No caso da bioética e da
genética, a pluriparticipação é indispensável
para a garantia do processo. O controle social deverá prevenir
o difícil problema de um progresso científico e tecnológico
que reduz cidadão a súdito, em vez de emancipá-lo.
A ética é um dos melhores antídotos contra qualquer
forma de autoritarismo e tentativa de manipulação.
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