
EVARISTO EDUARDO
DE MIRANDA, doutor em ecologia, autor do livro “Guia de curiosidades
católicas”, recém editado pela Ed. Vozes e diretor
do Instituto Ciência e Fé. Dirige a EMBRAPA Monitoramento
Ambiental por Satélite, Campinas/SP.
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ANO 9 - ED 97 - NOVEMBRO DE 2007
LIXO NÃO SE DESMANCHA NO AR
Evaristo
Eduardo de Miranda

Foto: Reprodução
Cena comum em cidades brasileiras: pessoas lançam
lixo da janela de seus carros, em pleno movimento. É como se
tudo que passasse pela janela de um carro fosse capaz de desaparecer:
bituca e maços
de cigarro, sacos plásticos, papéis, cascas de frutas,
latas de cerveja. O comportamento de desrespeito com o meio ambiente
e a falta de urbanidade leva ao entupimento de bueiros e bocas-de-lobo; à proliferação
de pragas e doenças; ao assoreamento dos córregos e sistemas
de drenagem, e às inundações, e vitimam os habitantes
e a sustentabilidade das cidades.
O mesmo pode ser observado nos cursos d'água. Eles são
o destino final de pneus velhos, sofás, restos de mobília,
lixo doméstico. É como se, por um milagre, as águas
pudessem fazer tudo sumir. Indústrias e até países
fazem o mesmo ao enterrar seus resíduos sólidos e o lixo
atômico. É como se ao “esconder” o lixo, as
sucatas e os resíduos, com uma camada de terra ou na profundidade
de minas abandonadas, tudo desaparecesse ou fosse digerido pelas entranhas
da Terra.
Pior ainda são as administrações municipais e
estaduais. Elas coletam o esgoto das casas e indústrias e, depois,
em muitos casos, o lançam nos rios e oceanos sem tratamento.
Os cursos d'água são considerados um enorme depósito,
um digestor natural de matérias cloacais. O mesmo ocorre com
os poluentes gasosos.
A fumaça das chaminés das fábricas, das queimadas
agrícolas, dos carros, ônibus e caminhões é lançada
aos céus, com uma espécie de crença: um pouco
de vento e tudo vai se diluindo e se dispersando. Fala-se em “condições
favoráveis ou desfavoráveis à dispersão
dos poluentes”, mas não em seu desaparecimento. Poluentes
dispersam-se para onde?
“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Essa
frase ainda é pouco conhecida no Brasil. Ela poderia e deveria
ser a base de todos os cursos de educação ambiental.
Ela resume, filosoficamente, a chamada Lei da Conservação
de Massas, enunciada por volta de 1.774 pelo químico francês
Antoine Lavoisier, hoje mundialmente conhecida como Lei ou Princípio
de Lavoisier. Ele foi um dos pais da química moderna e muito
contribuiu para afastar essa nova ciência das crenças
sem fundamento da alquimia. Preocupado em utilizar métodos quantitativos,
Lavoisier usava balanças de grande precisão em suas atividades
experimentais. Diz-se que “com três balanças, ele
separou a química da alquimia”. Conforme ele demonstrou,
durante o processo químico há somente a transformação
das substâncias reagentes em outras substâncias, sem que
haja perda nem ganho de matéria. Os átomos das substâncias
reagentes são encontrados, embora combinados de outra forma,
nas moléculas dos produtos.

Foto: Davide Guglielmo
O oxigênio, do qual se sente falta no ar poluído das cidades,
foi descoberto por Lavoisier ao estudar reações ácidas.
Foi ele quem lhe deu esse nome, que significa gerador de ácidos.
O químico francês realizava experiências sobre a
combustão e a calcinação de substâncias.
Observou que o peso dos óxidos resultantes dessas reações
era sempre maior que o das substâncias originalmente usadas.
Então demonstrou a presença do gás oxigênio
no ar e sua participação nos processos de respiração,
combustão, oxidações e diversas reações
químicas. Ele também descobriu, nomeou e descreveu as
características do nitrogênio, do hidrogênio e do
gás carbônico.
A Lei de Lavoisier Governos, prefeituras,
ONGs e entidades ambientalistas recebem aplausos ao anunciar programas
e financiamentos para a limpeza de um rio, uma lagoa, um parque,
um porto ou até uma baía.
Mas cabe sempre a pergunta: onde vão colocar o lixo retirado?
Ele não vai desaparecer. Para muitos, o importante é que
a cidade pareça limpa e o meio ambiente, sem resíduos.
Sem se preocupar com as conseqüências de resíduos
acumulados e “escondidos” em algum lugar. Poucos se interrogam
sobre a real necessidade de gerar tantos resíduos e sobre o
destino final do lixo e efluentes. A dona de casa usa os mais diversos
produtos químicos para que a sua residência e as roupas
estejam limpas, sem questionar o destino final desses efluentes domésticos.
O lixo deve ser coletado das ruas, mas onde vai parar? Desaparece ao
ser tragado na caçamba do caminhão de lixo? Ensinar o
Princípio ou a Lei de Lavoisier aos estudantes é dar-lhes
uma base sólida para progredir, com racionalidade, na busca
de um mundo mais sustentável. O princípio aplica-se à nossa
vida, aos nossos corpos e a todos os ecossistemas. Constantemente renova-se
a matéria de que somos constituídos, pela troca de átomos,
por meio dos nutrientes que ingerimos. As plantas retiraram esses nutrientes
dos solos. Nossos antepassados aprenderam a fertilizar os solos agrícolas
com os resíduos de suas casas e de seus animais, como num ciclo.
Em Ecologia é errado falar de fluxo de matéria e energia.
Fluxo de energia, sim, mas de matéria são ciclos (ciclos
biogeoquímicos). Por isso, também é errado, mesmo
se com boas intenções, fazer afirmações
alarmistas do tipo: a água do mundo está acabando! Não
somos capazes nem de criar quantidades significativas de água
nem de fazê-la desaparecer. A água torna-se escassa em
conseqüência do aumento da demanda ou do uso inadequado.
Ela fica imprópria ao consumo humano e animal devido à poluição,
mas é a mesma quantidade de água existente no planeta,
há milhões de anos.
Durante a barbárie da chamada Revolução Francesa,
Lavoisier foi acusado de “inimigo do povo”. O revolucionário
Marat, recusado por Lavoisier na eleição para a Academia
de Ciências, vingou-se dissolvendo as sociedades científicas.
Os cientistas de toda a Europa enviaram uma petição aos
juízes para que poupassem a vida de Lavoisier, em respeito a
seu valor científico. O sinistro Jean-Baptiste Coffinhal, servidor
do Tribunal Revolucionário e da Comuna de Paris, recusou o pedido
com a frase: “A França não precisa de cientistas”.
Lavoisier foi guilhotinado no dia 8 de maio de 1794. A Revolução
Francesa trouxe um período de obscurantismo, tirania e terror.
O matemático Lagrange sobreviveu a Lavoisier, e declarou: “Não
bastará um século para produzir uma cabeça igual à que
se fez cair num segundo”.
O Terror e a Revolução Francesa passaram e os ensinamentos
de Lavoisier não se perderam. Eles servem de base, até hoje,
aos princípios de sustentabilidade e das ciências modernas.
A Terra não é um reservatório inesgotável
nem um depósito capaz de receber infinitos resíduos.
Ela deve ser tratada como um organismo único e fechado em termos
de matéria, como na hipótese Gaia, mesmo que ela seja
um sistema aberto, em termos energéticos, alimentado pelo Sol.
A ciência e a razão devem combater os mitos e as mistificações,
mesmo quando são pretensamente ecológicos, revolucionários
ou a favor do meio ambiente. A sustentabilidade ambiental exige um
comportamento responsável dos cidadãos, comunidades,
empresas, governos e líderes: reduzir os desperdícios,
aprendendo sempre a reutilizar e reciclar. Esse sempre foi um dos segredos
do sucesso da manutenção da vida em nosso planeta.
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