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ANO 9 - ED 98 - DEZEMBRO DE 2007

TEÓLOGO LANÇA O LIVRO “BRINCANDO DE DEUS” E DÁ AO SER HUMANO A DIMENSÃO DA TRANSCENDÊNCIA

Lúcia Nórcio entrevista
o professor Mário Antônio Sanches

Pode o ser humano “brincar de Deus”? Seria essa uma missão? O professor Mário Antônio Sanches, diretor do curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, afirma que, na perspectiva da teologia cristã, a resposta é "sim". O ser humano, na interpretação do professor Sanches, é chamado a ser Deus, a tomar o Seu lugar na criação. “O sonho de Deus é que assumamos o Seu lugar, mas o grande conflito nesse processo é que o Homem quer brincar de Deus, porém sem Deus, negando ou se opondo a Deus". Para o teólogo, é preciso haver harmonia entre os nossos propósitos e os propósitos divinos.

Segundo Sanches, a teologia dá “sinal verde” à ciência, pois o ser humano foi criado e chamado a exercer seu poder de co-criador sobre o mundo, o que deve ser estendido à genética, porém com critérios. “Um cientista que manipula a matéria para conseguir novos remédios, novas terapias, está recriando o mundo para curar sua dor. Isso é brincar de ser Deus como Deus quer, promovendo a criação", diz.

Em sua mais recente obra, lançada pela editora Ave Maria - “Brincando de Deus - Bioética e as marcas sociais da genética” - o teólogo desmistifica o tom crítico que se dá a expressão "brincar de Deus". Sanches dá a ela um sentido mais amplo, semelhante à expressão inglesa “playind God”, que tem diferentes significados como brincar, tocar, desempenhar papel, atuar como, agir como. É preciso, em sua opinião, acabar com a conotação negativa, ter uma visão mais profunda do Deus que atrai o ser humano e compartilha com ele o poder de criar. O livro é resultado de dez anos de reflexão e estudos sobre o tema.

Mário Antônio Sanches é doutorado pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS) e Mestre em Antropologia Social pela UFPR. É especialista em Bioética, graduou-se em Teologia pelo Studium Theologicum de Curitiba e possui licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Palmas (PR). Professor de Teologia Moral e Bioética no Bacharelado em Teologia da PUC e coordenador do Núcleo de Bioética, define-se como um "apaixonado pela Teologia". Defende a necessidade do diálogo dessa ciência com outras áreas do conhecimento humano e aponta a Bioética como sendo esse espaço. “Minha tese de doutorado foi uma avaliação ética do Projeto Genoma Humano, que me levou a aprofundar o estudo da genética. Minha primeira constatação foi de que o leigo tem a visão distorcida de que a genética é perfeita, fechada, que o cientista tem muita certeza do que está falando. Na realidade, é uma ciência com ramificações, escolas antagônicas. A própria questão do evolucionismo, que pensávamos estar definida, ainda é muito debatida. A grande proposta no meu projeto de doutorado era questionar esse reducionismo, pois reduzir o ser humano à genética é muito desconfortável. Se afirmarmos que a genética define todo o ser humano, a teologia e a ética não terão espaço. Muitos geneticistas são contra esse reducionismo", assevera.

Sua tese de doutorado, na área de bioética, foi fruto de pesquisa no Instituto Kennedy de Ética na Universidade Georgetown, Washington, DC. Questiona o reducionismo genético com as armas da própria genética, com o apoio de geneticistas que não a defendem como única dimensão da realidade humana. “O ser humano tem a dimensão da transcendência. Ele não se acomoda, não é estático, nunca está contente com o que é. A grande dinâmica que a religião explora é o ser humano buscando algo mais. O homem brinca de Deus querendo ser mais, ser profundamente natureza, criatura, biologia. Por outro lado, uma teologia que não considere a dimensão genética desse humano está tratando de um ser inexistente. O humano existe como fruto da evolução, tem genoma humano, se define em seus 23 pares de cromossomos, mas é uma espécie entre outras”.

Teologia e genética, em sua opinião, confirmam o homem não sendo só genética, nem só transcendência, mas ambas as coisas. “No meu livro mostro essas duas faces. É com o genoma da espécie homo sapiens que o homem busca Deus. Deus que o faz capaz de entender a ciência e de Buscá-lo", insiste.

Sanches cita Alfred Whiteread para lembrar que quando religião e ciência brigam é porque uma das duas está sendo superficial ou talvez as duas. “É só manter o diálogo respeitoso que lá na frente se encontrarão, pode até ser um diálogo tenso em alguns momentos, devido à complexidade das duas, mas deve sempre ser respeitoso” afirma o teólogo.

Por que o senhor dedicou um capítulo do seu livro ao Projeto Genoma Humano? O projeto Genoma Humano foi o grande investimento em biologia nos últimos tempos, o maior projeto de pesquisa realizado nesse campo. No início se pensou que tudo seria desvendado, hoje já se admite que a vitória foi o acesso ao conhecimento. A partir de agora a questão é o que fazer com esse conhecimento. Pretendia-se construir, e de fato foram construídos, mapas genéticos referentes ao genoma humano, realizando o sequenciamento do DNA. Para alguns, o PGH está na mesma perspectiva da descoberta do DNA, quando teve início a terceira revolução industrial, a revolução biológica. O que vamos fazer com esse conhecimento é assunto para muitos anos ainda de estudos.

Podemos aceitar a supervalorização da genética? Corremos o risco do reducionismo quando situações muito complexas são apresentadas como fruto exclusivo da genética. Isso ocorre quando são anunciadas descobertas de genes específicos, por exemplo. Tratando-se de uma doença pode ser verdade, mas quando se trata de tipos de comportamento, inteligência, violência, homossexualismo, altruísmo, religião, espiritualidade, são fatores muito complexos para serem ditados só pela genética. Os próprios geneticistas admitem que essas realidades são fruto de múltiplos fatores. A soma desses fatores, a interação genótipo e mais o meio ambiente é que determina o resultado final, o fenótipo.

Fatores genéticos podem trazer a predisposição e o meio potencializa. Todas as vezes que uma nova área da ciência é descoberta acontece isso. Não foi diferente com a Sociologia, com a Psicologia. Com a Antropologia, o homem passou a ser visto apenas como fruto do meio, sem liberdade, condicionado. O biológico ainda é mais amplo do que o genético. O nosso grande desafio é valorizar a genética sem reduzir toda realidade a ela.

Porque um teólogo escreve sobre genética? Precisamos ter a compreensão do ser humano de forma integral. A teologia não pode abordar o ser humano como etéreo, negando o biológico. Somos criaturas entre outras. Dentro do ponto de vista do genoma se percebe que toda a criação de Deus é feita nas mesmas quatro bases bioquímicas, os CTAG do DNA, composição de toda a criação. Está em mim como no verme, no pinheiro... Somos criaturas de Deus e isso nos torna mais fraternos com a natureza. A teologia tem que valorizar isso sem fazer uma reflexão do ser humano como arrogante perante a criação. A genética nos coloca como parceiros da criação.

Um assunto abordado no livro é a eugenia. O senhor poderia explicar para os nossos leitores a relação entre a eugenia e a genética? A eugenia surge na Inglaterra, com Francis Galton, e cresce nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do Século XX, com o conceito de que as pessoas são superiores pela sua constituição genética. Defende uma sociedade melhor, alterando a genética. Nessa teoria, se quisermos uma sociedade sem ladrões, deve ser proibida a reprodução. Alcoólicos, assassinos não devem gerar filhos. Como o movimento nasce no território anglo-saxônico, defende como sendo casta pura as pessoas loiras, altas, de olhos azuis. A base do movimento eugênico aconteceu nos Estados Unidos nas primeiras três décadas do século XX. Anterior a Hitler, que apenas copiou e aplicou os manuais eugênicos, radicalizando as práticas.

Da esterilização passou para a eutanásia como forma de suprimir os considerados inaptos.

O que assusta é que até 1940 a eugenia era vista como ciência. É assustador quando a ciência corre o risco de ser manipulada por ideologias de época. A pesquisa em genética tem o fantasma da eugenia no armário. Toda vez que se destacar, numa reprodução assistida, o embrião por sua constituição genômica, é uma eugenia. Quando alguém diz que não implanta um feto com síndrome de Down, isso é eugenia. Isso permanece ainda como um problema atual.

Pode um teólogo aceitar o evolucionismo? A Igreja Católica já aceitou faz tempo. João Paulo II admitiu que a teoria evolucionista era defensável. A questão do evolucionismo é complexa. O conceito de criação é teológico, o de evolução é científico, mas os dois são perfeitamente compatíveis. No conceito da criação, Deus cria o mundo e nós somos criaturas Dele, somos dependentes, sustentados o tempo todo por Ele. É um conceito de fé, sem respaldo científico. A partir desse conceito de dependência surge a clássica pergunta: como essa criação se faz? A evolução aparece como resposta para explicar como cada espécie se tornou o que é atualmente. Para evoluir, o ser humano tem que existir. Não há evolução fora da criação. O conceito de criação é amplo, responde quem está por trás de tudo. Fato que exige fé. Foi Deus quem criou. Como as coisas acontecem? Isso fica por conta do evolucionismo. Não há contradição. Toda evolução se dá diante do Criador e permanece criação enquanto está evoluindo, permanece dependente. O que não é aceitável é usar o evolucionismo para negar Deus. É querer que a ciência prove o que não pode, a existência ou inexistência de Deus. Usar o evolucionismo como ferramenta filosófica é um equívoco. Aceitar o evolucionismo como teoria científica é interessante. O problema é que por um grande período esse conceito foi usado por teorias atéias, que negavam a dimensão bíblica da criação.

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