
ANTONIO CARLOS COELHO, é diretor
do Instituto Ciência e Fé.
|

ANO 9 - ED 98 - DEZEMBRO DE 2007
EMERICH VIVEU
Aos domingos, no púlpito da pequena igreja da
Comendador, um homem claro, alto e magro, pregava com voz forte e cheia
de entusiasmo. Lembrava os pastores dos filmes de Hollywood. Havia
nele uma expressão de sincera fé. Não encenava
com falsa piedade para impressionar a platéia, ao contrário,
sua fisionomia traduzia tranqüilidade e convicção
naquilo que pregava. Ensinava com a autoridade dos que experimentam
cada palavra na própria vida.
Este pastor, nascido em Lavras, Minas Gerais, chegou em Curitiba em
1950. Já era pastor há dez anos. Estudou teologia em
Campinas e fez mestrado em Nova York, em 1957. Pai de quatro filhos,
dois homens, duas mulheres. Ao longo da vida perdeu três, Nilman,
Norman e Nísia. Perdeu também sua querida Mercedes, e
sua família se reduziu a uma filha, Nélia, e quatro netos
e três bisnetos.
Contava que era muito tímido e calado. Foi participando de uma
equipe de basquete que ganhou desenvoltura para falar e chegar a ser
um dos grandes oradores, o melhor dos oradores sacros que conheci.
Já tinha ouvido falar dele, mas só o conheci alguns anos
depois. Era o ano de 1976. Fui uma das tantas ovelhas de outros rebanhos
a procurá-lo para receber suas orientações de
vida. Seus conselhos eram fundados na Palavra - Palavra que viveu intensamente
em seu cotidiano. Não precisava citá-las de cor para
mostrar conhecimento e amparar seus argumentos, qualquer um poderia
identificar a autenticidade e a qualidade das suas palavras.
Reverendo Osvaldo Soeiro Emerich era um pastor no sentido exato da
palavra. Cuidava com carinho das suas ovelhas e daquelas de outros
rebanhos. Punha em prática o Evangelho da sua fé. Não
fazia proselitismo, tratava a todos como membros da grande Igreja de
Cristo.
Foi um dos pioneiros do movimento ecumênico de Curitiba. Na época,
1963, quando iniciava o Concílio Vaticano Segundo II - concílio
que abriu a Igreja Católica Romana para o diálogo inter-religioso
- o Reverendo, na solidão dos profetas, deixava sua igreja da
Comenador, descia a Presidente Taunay para se encontrar com irmãos
de outras denominações numa das salas do Colégio
Sion. O respeitado líder presbiteriano tomava para si uma missão
nem sempre bem vista, no entanto, para ele, mais valiam as palavras
de Jesus: “para que todos sejam um assim, como eu e o Pai somos
um” - Jo 17:21, do que a crítica fundada na estreiteza
dos “donos da verdade e da salvação”. Sabia
que, só na unidade e no respeito à diversidade, os cristãos
poderiam testemunhar verdadeiramente o Evangelho.
Lamentavelmente, os anos seguintes foram difíceis. Reuniões
não eram bem vistas pelo governo militar. Assim, como tantos
grupos culturais e religiosos, o grupo de pioneiros da fraternidade
cristã, se desfez. Certamente, ao desejo de unidade, restaram
as silenciosas orações dos irmãos.
Depois que o conheci fui algumas vezes aos cultos da Igreja Presbiteriana.
Gostava de ouví-lo falar. Quantos casamentos e batizados eu
o vi fazer? Suas palavras eram oportunas, com argumenação
clara e precisa, sem exageros, na medida certa.
As últimas vezes que eu o encontrei já estava bastante
enfraquecido pela doença. Mesmo assim, falou com entusiasmo
e, principalmente com autoridade de quem já tinha experimentado
todas as provações da vida. E, ainda, na metade deste
ano, Reverendo Emerich recebeu a justa homenagem da Sociedade Evangélica
Beneficente de Curitiba. Dela foi capelão, atuando no Hospital
Universitário Evangélico de Curitiba. Aliás, um
dos batalhadores para construção do Hospital, buscando
recursos e mobilizando sua comunidade para fazer o mesmo.
Reverendo Emerich viveu oitenta e nove anos. Dedicou 68 anos ao ministério.
No dia 2 de novembro deixou os carinhosos braços da família
e foi para os braços do Pai. Levou consigo uma vida plena, levou
o amor e caridade que dedicou a tantos e o amor que recebeu de tantos.
< retorna ao
sumário |

|