
MÁRIO ANTÔNIO
SANCHES é doutorado
pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS) e Mestre
em Antropologia Social pela UFPR. É especialista em Bioética,
graduou-se em Teologia pelo Studium Theologicum de Curitiba e possui
licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Palmas (PR); leciona Teologia
Moral e Bioética no Bacharelado em Teologia da PUCPR e coordena
o Núcleo de Bioética
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ANO 9 - ED 99 - 2ª QUINZENA DE DEZEMBRO DE 2007
BIOÉTICA E AS MARCAS
SOCIAIS DA
GENÉTICA
Mário
Antônio Sanchez
O instigante texto aqui apresentado
aos leitores do jornal Universidade é parte da introdução
do livro “Brincando de Deus - Bioética e as marcas sociais
da genética”, que o professor Mário Antônio
Sanches está lançando pela Editora Vozes.

A biologia - e particularmente a genética - desenvolveu-se
de maneira expressiva nas últimas décadas. Ofuscados
por tal desenvolvimento, corremos o risco da parcialidade, ora ingressando
na orla dos seus admiradores incontestáveis, ora sendo admitidos
nos grupos de críticos ferrenhos que bradam que o cientista
não pode 'brincar de Deus'.
Não queremos nos colocar, ardilosamente, numa posição
e neutralidade, mas também não pretendemos engrossar
ingenuamente as filas dos entusiastas sem crítica, nem dos críticos
que se recusam a aprender com a novidade. Para isso, apresentamos argumentos
que raramente aparecem juntos num mesmo trabalho: análise histórica
da genética, mostrando como a genética marca e é marcada
pela sociedade onde se desenvolve, e uma rápida incursão
na teologia, insinuando que brincar de Deus talvez seja a mais empolgante
ventura do ser humano
na face da terra.
Falaremos bastante de biologia, um pouco de teologia, mas o propósito
teórico deste trabalho está inserido no contexto da bioética
que tem se tornado um espaço de diálogo interdisciplinar
e plural. Inserimos, portanto, nesta introdução, algumas
idéias básicas sobre a bioética e depois introduziremos
o debate a respeito da relação natureza e cultura, pois
sem estes dois elementos, boa parte do trabalho poderá não
ser devidamente apreciada.

Bioética Em alguns setores da sociedade, a bioética é vista
como uma área do conhecimento já bastante consolidada,
porém em outros ela é ainda uma novidade. Gostaríamos,
portanto, de fazer uma justificativa da bioética, apontando
para as causas de seu surgimento, para a sua complexidade e para a
necessidade de um aprofundamento de suas questões centrais.
Os profissionais da saúde por muito tempo têm se preocupado
com a ética no exercício de suas atividades. Tendo em
vista que a bioética teve seu início há menos
de meio século, ela não pode ser apontada como a responsável
pelo despertar da reflexão ética no mundo da saúde.
Na verdade, essa preocupação é bem mais antiga
e está presente em todas as sociedades, como na Índia,
no povo hebreu, na China antiga, na Grécia e em outras tradições
antigas.
A bioética, portanto, não rejeita a milenar reflexão
que os diferentes povos acumularam sobre ética, mas, paradoxalmente,
ela nasce exatamente da perplexidade frente à novidade e da
percepção de que problemas atuais trazem novos e estonteantes
desafios (1). O livro Upanishades,
na literatura Hindu na Idade Antiga, já apresentava a saúde como primeiro fruto da prática
religiosa (2), mas nem de longe poderia
prever que a empreitada humana em busca de saúde alcançaria
a complexidade atual, envolvendo uma grande gama de instituições
e grandiosa quantidade de recursos humanos e materiais. A tradição
hipocrática,
originária na Grécia e tão conhecida, já falava
da necessária responsabilidade do médico, mas nem de
longe imaginava o poder que a medicina atual teria. Os escritos de
Lao Tse, na China antiga, já falavam da importância das
ervas nos cuidados de saúde, mas nem de longe prenunciavam a
complexidade da farmacologia moderna nem a possibilidade de intervenção
da natureza (3), como na produção
de organismos geneticamente modificados em curso na biologia atual.
O livro de Eclesiástico (4),
na tradição bíblica,
exaltava o médico
sem prever a variada gama de profissionais que hoje estão envolvidos
na milenar arte de cuidar.
Foi o desenvolvimento das ciências biológicas (5) que
fez surgir a bioética como uma ponte que liga a reflexão
que se dá no complexo e plural universo da ética aos
avanços ocorridos nas biociências e no mundo da saúde.
A bioética é nova, como igualmente novos são inúmeros
procedimentos, tais como: transplante de órgãos, mutilação
de órgãos ou parte do corpo para fins terapêuticos,
inúmeras cirurgias, cultivo de células em laboratório,
monitoramento eletrônico de órgãos... Boa parte
dos procedimentos utilizados atualmente no universo da saúde
se originou nos últimos cinqüenta anos, sem falar nas inusitadas
conquistas no campo da reprodução assistida, com sua
conseqüente possibilidade de separação entre o ato
sexual e a reprodução humana.
A bioética, desse modo, o fruto do esforço de todos aqueles
que entendem que cada novo movimento das biociências precisa
ser acompanhado por um outro movimento: o da reflexão crítica
sobre tal novidade. Cada conquista inusitada precisa ser acompanhada
de uma reflexão sobre as suas conseqüências para
a sociedade. Cada novo procedimento precisa ser seguido de orientações
que possam garantir a continuidade e o aprimoramento do processo de
cuidar. Por isso, em alguns movimentos, a bioética aponta caminhos (6) e
em outros defende grupos vulneráveis (7),
num esforço
contínuo de extrair princípios (8) que
possam orientar a prática.
Frente às recentes tendências de comercialização,
cada vez mais presente nos diferentes setores da vida, em que as relações
humanas passam a ser crescentemente regidas por contratos formais,
a reflexão bioética precisa se fazer presente para proteger
o espaço do profissional de saúde e o respeito e a autonomia
dos pacientes, buscando a promoção e a defesa da dignidade
de ambos. É necessário afirmar que os profissionais de
saúde não podem se tornar marionetes das grandes empresas
de saúde que visam, acima de tudo, seu próprio lucro. É preciso
defender que a saúde não é um produto que pode
ser minimizado e que os usuários de saúde precisam ser
respeitados como cidadãos.
Por causa do grande desenvolvimento da pesquisa em nosso país,
a regulamentação sobre ética em pesquisa envolvendo
seres humanos e animais se torna cada vez mais relevante, para que
brasileiros não sejam cobaias de grandes empresas estrangeiras
que realizam pesquisas em diversos países. É urgente
nos alertarmos e nos posicionarmos contra as tentativas de países
ricos imporem um duplo padrão ético em pesquisa, como
se as pessoas de comunidades carentes pudessem ser sujeitos de pesquisas
jamais aprovadas e nem toleradas nas comunidades abastadas dos países
onde foram planejadas. A bioética promove a pesquisa e precisa
dela, mas insiste em declarar que ela não pode ser atropelada
pelos ditames do mercado (9).
A bioética está num processo de amadurecimento no Brasil,
e é preciso que profissionais de diferentes áreas - pois
a interdisciplinaridade é uma das suas marcas (10) -
se dediquem cada vez mais ao seu estudo e desenvolvimento, com pesquisas
e reflexões
verdadeiramente adaptadas à nossa realidade. Buscando respostas
para nossos problemas e com perspectivas e critérios nossos,
talvez possamos afirmar que estamos construindo de fato uma Bioética
latino-americana (11). É desejável
também que
ela adquira visibilidade social, que saia dos círculos de reflexões
das universidades para as ruas, pois as causas que ela defende são
cruciais para o bem de toda a sociedade. Ninguém pode ficar
indiferente, pois a bioética “envolve os profissionais
e todos aqueles que, com competência e responsabilidade, dispõem-se
a refletir eticamente sobre a melhor conduta a ser prestada à pessoa
humana, à sociedade, ao mundo animal e vegetal e à própria
natureza” (12).
Esse aprofundamento da bioética e seu engajamento político
têm sido defendidos ultimamente (13),
pois em saúde não
basta planejar. É necessário incluir todos no planejamento (14).
A denúncia precisa ser feita toda vez que as grandes conquistas
da ciência continuarem “reservadas para os ricos, prestando-se à formação
monopólios e latifúndios, onde a produção
agrícola e animal é controlada por quem está de
posse da tecnologia biológica” (15).
Gostaria de fechar essa breve reflexão sobre bioética
com uma citação de João Paulo II, na qual a bioética é apresentada
como um traço significativo dos nossos dias:
Particularmente significativo é o despertar da
reflexão ética
acerca da vida: a aparição e o desenvolvimento da bioética
favoreceu a reflexão e o diálogo entre crentes e não
crentes, como também entre crentes de diversas religiões
sobre problemas éticos, mesmo fundamentais, que dizem respeito à vida
do homem (16).
Relação entre natureza e cultura Visto
que este livro aborda as marcas sociais da genética, é necessário
termos em mente a complexidade das relações entre o biológico
e o social, por isso introduzimos o já tradicional debate entre
natureza e cultura. Não raramente natureza e cultura são
apresentadas como realidades excludentes, como se fosse possível
se falar de natureza humana e de cultura humana como realidades dissociadas.
Num outro trabalho (17), abordamos a relação
entre natureza e cultura, cujos pontos principais apresentamos a seguir.
Todo ser humano constrói sua identidade individual numa determinada
cultura, ou seja, não é possível negar a realidade
social como algo inerente ao humano, por isso “é preciso
identificar a cultura como um dos elementos da natureza humana” (18).
Nessa perspectiva é importante compreender que existe uma tensão
no ser humano quanto à sua natureza: “há algo físico
sobre o qual se constrói, há algo a ser construído
historicamente, tanto um quanto outro fazem parte da sua natureza” (19).
A natureza é apresentada como uma categoria que engloba a cultura.
Se por um lado a cultura é parte da natureza humana, por outro
lado o próprio conceito da natureza muda com o tempo e com a
diversidade cultural, ou seja, a natureza adquire sentido pela cultura.
A 'natureza humana' precisa ser compreendida dentro dessa complexidade,
na qual a cultura, sempre com sua marca histórica, é vista
com um dos seus elementos constituintes. A natureza pode também
ser vista como a 'criação'. A 'natureza' é apresentada
como um elemento válido para as ciências, pois ir contra
a natureza é ir contra as leis físicas que condicionam
a existência do universo. Nesse aspecto, está sendo destacado
que, apesar do reconhecimento de que a 'natureza' é interpretada
pela cultura, permanece sempre nela algo de objetivo. Sem essa base
objetiva da natureza, as ciências não seriam possíveis.
Parte desse debate se dá na relação entre genética
e ambiente, que ficou conhecido pelo debate nature-nurture. Nature de natureza e nurture de educação, formação
e cultura. “Em genética, a palavra natureza se refere
ao que é entendido como herança. Herança significa
diferenças no DNA transmitidas de geração em geração” (20),
ou seja, o termo 'natureza' aqui aponta para as diferenças geneticamente
provocadas entre os indivíduos de uma mesma espécie.
Esse debate oscilou, desde a sua origem, para os extremos, conforme
a época e a origem do pensador. Francis Galton, que cunhou a
expressão nature-nurture, afirmava que a natureza prevalecia
enquanto os behavioristas afirmavam o contrário. No entanto,
Plomin pergunta: “Existe hoje um único cientista que verdadeiramente
acredita num hereditarianismo ou ambientalismo extremo?” (21).
De modo que, nos últimos tempos, as pesquisas dos dados sobre
genética
e sobre ambiente começam a convergir. E o modelo que surge no
campo comum das duas pesquisas é o de uma ativa interação
do organismo com o ambiente, onde nature e nurture formam um dueto,
ao invés de uma dirigir o desempenho da outra (22).
Keller lembra que a realidade genética em si é apenas
parte da própria estrutura biológica dos organismos,
e, se o desenvolvimento de um organismo não pode seguir em frente
sem a memória da planta genética, também não
pode prosseguir sem toda a maquinaria incorporada na estrutura celular. “Certamente,
os elementos dessa estrutura são fixados pela memória
genética, mas sua montagem é ditada pela memória
da célula” (23). E a realidade
celular estará amplamente à mercê do
fator ambiental, basta pensar na questão da qualidade e da quantidade
de nutrientes disponíveis.
Desse modo, a relação entre genética e ambiente
passa a ser aquela de mútua dependência, pois, como afirma
Plomin, algumas das mais interessantes e fundamentais questões
a respeito de genética é que, mesmo se tratando de biologia
molecular do DNA, ela envolve o ambiente. E de maneira similar, algumas
das mais interessantes e fundamentais questões do ambiente envolvem
genética (24).
Posições extremas já são raras, mas ainda
existem, como na sociobiologia, que faz a balança pender para
o lado dos genes como determinantes do fenótipo, desvalorizando
os fatores ambientais. Os seguidores dessa tendência afirmam
que “a explicação para boa parte do comportamento
social e econômico deve ser buscada na genética”.
Para mudar a sociedade, afirmam que “devemos antes estar dispostos
a alterar os genes, pois, embora o meio ambiente seja um dos fatores,
os genes são, em última análise, os maiores responsáveis
pela definição do comportamento individual e grupal” (25).
Outros vão insistir que tendências radicais reduzem, muitas
vezes, a biologia à genética, pois falar de quantas calorias
alguém consome e qual a sua influência no ganho de peso,
embora seja um fator biológico, é na verdade um fator
do meio ambiente. Assim, “dizer que biologia é relevante
para um determinado traço do organismo não significa
que genética seja relevante. Há muito mais em biologia
do que genética” (26).
Outros insistem na importância dos fatores ambientais como resultado
de algumas experiências com gêmeos, que teriam demonstrado
que os “fatores ambientais como cigarros, poluição,
dieta, estilo de vida causam duas vezes mais câncer do que os
fatores hereditários” (27), de tal modo que onde um dos
gêmeos
idênticos desenvolve câncer, o outro permanece sem a doença
em 90% dos casos (28). Isso não
significa que o câncer
não
seja uma doença genética, apenas se está insistindo
que as predisposições hereditárias que o provocam
são menos relevantes do que as ambientais (29).
Existe um gene 'deletério' que causa câncer nos seios,
embora este gene esteja presente em apenas uma pequena percentagem
de mulheres que contraem câncer de seio, de modo que “o
gene não é uma
condição necessária para o câncer” (30).
Neste debate, o equilíbrio precisa ser recuperado, não
raramente chamando a atenção para o fator que esteja
sendo deixado de lado.
Dulbecco insiste que, “na época
atual, em que se atribui grande importância ao estudo dos genes
e de sua influência nos seres humanos e nas outras espécies,
não podemos subestimar o papel do ambiente” (31).
Isso não
significa uma posição simplista, pois “nos casos
em que um determinado fator ambiental parece exercer um papel exclusivo,
como no caso de doenças infecciosas, não devemos negligenciar
o fator gênico, que pode ser importante” (32).
Para se ter uma visão ampla da relação desses
dois fatores, poderíamos afirmar que os fatores genéticos
são vistos como capazes de possibilitar uma variada gama de
fenótipos possíveis, e “qual fenótipo se
concretizará vai depender do ambiente e de suas interações
com o genótipo” (33).
No caso dos seres humanos, é importante
perceber que as pessoas de algum modo escolhem seu ambiente, e os ambientes
escolhidos são influenciados, mas não determinados pelo
genótipo daqueles que escolhem. Entretanto, muitos ambientes
não são escolhidos, mas impostos. A imposição
de determinados ambientes sobre o indivíduo pode ocorrer por
razões extragenéticas, como as imposições
sociais, mas também poderiam ocorrer, de algum modo, na base
das características geneticamente influenciadas dos indivíduos
(34).
Uma imagem muito sugestiva que fala da importância dos fatores
genéticos e ambientais na construção do fenótipo é a
de dois pedreiros construindo um muro, quando um prepara a massa e
o outro assenta os tijolos (35). Depois
de o muro feito, é impossível
separar a ação de um pedreiro em relação
ao outro. Assim também, depois do organismo formado, é impossível
separar o papel do genótipo do papel do ambiente na sua construção.
Claro que reconhecer essa dupla influência não nega que
em alguns contextos são os genes que fazem a diferença
e noutros é o ambiente (36).
Pode-se perceber que o debate natureza-cultura não irá deixar
de existir em um futuro próximo, pois muito ainda precisa ser
esclarecido, mas se pode concluir que tanto os genes quanto o ambiente
têm importante papel na construção do fenótipo,
incluindo o comportamento humano.

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