AGOSTINHO BALDIN, doutor em Letras, autor
de “Anseios
do Coração”
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ANO 9 - ED 99 - 2ª QUINZENA DE DEZEMBRO DE 2007
AINDA EXISTE NATAL CRISTÃO?
Agostinho
Baldin

Estamos vivendo dias próximos
da festa do Natal de Cristo. É óbvio dizer que natal
quer dizer nascimento. A festa do Natal, na liturgia cristã, é a
celebração do dia do nascimento de Jesus Cristo, numa
gruta nas proximidades de Belém, na Judéia de outrora, “por
não haver lugar para eles na estalagem” (Lc 2, 7).
É igualmente sabido por muitos que nove meses antes desse dia
comemorativo, o Cristianismo celebra a festa da Anunciação
do anjo Gabriel à jovem Virgem Maria, quando lhe disse : “Eis
que conceberás em teu seio e darás à luz um filho
a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamado
Filho do Altíssimo” (Lc 1, 31-32). Depois do diálogo
com o mensageiro celeste, a jovem Virgem aceitou a divina missão
e disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo
a tua palavra” (Lc 1, 38).
Com a aquiescência de Maria às palavras de Gabriel, “o
Verbo se fez carne e habitou entre nós“ (Jo 1, 14). Foi
o momento da Encarnação do Filho do Altíssimo.
Esse dia, de fato, foi o verdadeiro marco divisório da história
do mundo ocidental em “antes de Cristo” e “depois
de Cristo”, pois a vida do ser humano tem início na concepção,
como sempre assim foi ensinado na tradição cristã.
Como, entretanto, a realização desse mistério
divino se passou no silêncio místico de Nazaré,
só ela, a jovem Virgem Maria, entre os mortais, soube do inenarrável
mistério que se realizara. O anjo Gabriel foi o testemunho fidedigno
desse mistério “e retirou-se dela o anjo” (Lc 1,
38).
Daí em diante, a jovem Virgem Maria passou alguns dias como “senhora
do silêncio”, partindo em seguida “com presteza” (Lc
1, 39) para a cidade de Judá, a fim de romper esse silêncio
e partilhar sua indizível nova com a prima Isabel, congratulando-se
com ela por sua gravidez devida à “grandeza da misericórdia
do Senhor” (Lc 1, 58). Essa inenarrável tertúlia
das duas mães prolongou-se por três meses até o
nascimento de João, e “Maria voltou para sua casa” (Lc
1, 56).
Três meses depois, “completaram-se os dias de seu parto
e ela deu à luz seu filho primogênito” (Lc 2, 6).
Nesse momento celebrou-se o primeiro Natal, sem fausto, sem luxo, sem
sinos, sem “noite feliz”; só a inequívoca
carência de tudo, na manjedoura de alimárias, ao som das
vozes inauditas do primeiro hino natalino da “multidão
do exército celestial” (Lc 2, 13), sob a batuta do anjo
(em grego, angelos = mensageiro).
Que singeleza na narrativa da grande data cristã, por parte
do evangelista São Lucas. A Encarnação do Verbo,
em Nazaré e não o nascimento do divino Menino, em Belém, é que
foi o verdadeiro dia da bipartição da história
do mundo ocidental, como se disse acima.
Que diferença com a parafernália dos dias que precedem
a celebração do Natal de nossos dias, com “pompa
e circunstância”, luzes mil, pinheirinhos, sinos, “autos”,
ceias com peru, pletora de presentes, roupas novas, congraçamento
de amigos e parentes, “papais noéis” barbudos com
bastão e sacolas de presentes, renas, trenós, sapatos à janela...
Como o Natal foi, aos poucos, perdendo sua sacralidade, sendo mundanizado
e futilizado pela ganância do cifronismo. Nas lojas de artigos
de Natal é difícil encontrar presépios da tradição
cristã desde o Poverello de Assis, durante séculos. Pouco
a pouco a festa cristã do Natal foi se descristianizando.
Não seria nada de estranhar se um dia algum anticristão
vier a propor a substituição do dia de Natal pelo dia
de Papai Noel. Não falta muito; muita gente já o fez,
e o mundanismo nem está se dando conta. O presépio foi
substituído pelo pinheirinho coberto de neve e por papai Noel
distribuindo presentes. Acho que de cada cem artigos de Natal, talvez
encontremos dois ou três presépios, bem michurucas, com
bois, burros e ovelhas, às vezes reis magos com “ouro,
incenso e mirra”... Que paganização de um dia tão
divino, tão sublime, tão querido!
Com tristeza o verdadeiro senso cristão se pergunta: ainda se
celebra a autêntica festa do Natal, com apelo à renovação
de vida? Muita, mas muita gente não se teria tornado súdita
ignara do velho “barbudo, com bastão e sacola de presentes”?
É de se perguntar mais uma vez: ainda existe Natal cristão?
Por quanto tempo ainda o teremos?
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