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de Fevereiro de 2002


F E V E R E I R O   D E   2 0 0 2

Opinião
Ciência: beleza, gratuidade e segurança
(II)

Newton Freire-Maia

O edifício da ciência construída - isto é, daquela que está feita, encontra-se resumida nos livros e os professores passam a seus alunos - pode parecer um sistema harmônico e belo, forte e verdadeiro. Tem a força do equilíbrio e carrega a beleza da verdade. Mas isto é mera ilusão de quem pensa que está diante de um monumento realmente já pronto e que se expõe aos nossos olhos com a perfeição de suas linhas. A ciência que se faz dia a dia ("ciência-processo") é muito mais bela e atraente do que o artifício da obra aparentemente acabada ("ciência-disciplina"). Esta, se sondada em suas estruturas, pode parecer um monstrengo: é algo ainda sendo feito, com falhas e imprecisões simulando detalhes, com quase-verdades (com erros clamorosos) ainda longe das quase-verdades do futuro (com erros menos clamorosos). Seus andaimes se confundem com suas estruturas. Mas belo do que ver tudo de longe é subir nesses andaimes e ajudar a completar a obra, mesmo sabendo-se que isso é impossível. No início do século XX, um grande luminar da Ciência - Joseph John Thomson - criou o seu modelo de átomo que foi apelidado de "pudim de ameixas". Na mesma época, outro grande físico - Sir Ernest Rutherford - afirmou que o átomo de hidrogênio deveria ter pelo menos mil elétrons. Hoje, acreditamos em outro modelo atômico (tipo "sistema solar"), de Niels Hendrik David Bohr (outro gênio!) e acreditamos que o átomo de hidrogênio só tem um elétron! É preciso muito cuidado quando transmitimos esses fatos (?) aos estudantes. Eles podem acabar achando que a Ciência não merece confiança e que ela apenas vive substituindo velhos erros por erros novos. Que garantias ela nos dará quando encontrar a Verdade (com inicial maiúscula) absoluta e eterna, se os seus erros passados foram aceitos como verdades?

A verdade não é um conceito científico, mas filosófico. E mesmo aceitando-se que a Ciência persegue a verdade, de que elementos dispomos para identificá-la se porventura for achada? Se nos referimos à Verdade-verdadeira, absoluta e eterna, não temos critério algum para identificá-la.

A verdade científica é a quase-verdade, isto é, a explicação que funciona bem e que, pragmaticamente, pode e deve ser usada como se fosse a Verdade inatingível. Ela funciona como se fosse essa verdade e, assim, salva as aparências. Essa é a verdade da Ciência, "a verdade da explicação científica" do Padre Lima-Vaz, a "quase-verdade" de N. C. A. da Costa.

A teoria da evolução biológica que, com Charles Robert Darwin, no século XIX, e com a nova síntese de 1920-1950, pelo trabalho principalmente de Tchetve-ricoff, Fisher, Haldane, Wright, Dobzhansky, Mayr, Stebbins e outros, atingiu um altíssimo grau de corroboração e de coerência, é uma quase-verdade geralmente aceita no mundo científico. É a melhor interpretação disponível de todas as comparações que se possam fazer entre todas as ciências biológicas; por isto, não há rival que ameace sua posição de relevo.

Pela sua grandeza, sua beleza, seu poder explica-tivo e sua integral corroboração, representa uma das mais soberbas realizações das Ciências Biológica nos dois últimos séculos. Mas não é um fato; é uma teoria e, por definição, não pode ser provada; só pode ser corroborada. É talvez a nossa quase-verdade maior dentro da Biologia.

A quase-verdade científica garante nossas convicções, mas devemos estar sempre dispostos a mudá-las se quase-verdades melhores aparecerem para substituir as antigas. A Ciência não é dogmática. O dogma, por definição, é anticientífico.

A história da Ciência é a história das realizações da nossa sagacidade maior aliada à história das nossas maiores pretensões intelectuais. Tudo isto temperado por um ceticismo permanente e por um profundo senso de humildade. Na obra dos maiores gênios da humanidade, encontramos sempre erros calamitosos que eles às vezes defenderam como se fossem verdades intocáveis. E que eram esses erros calamitosos? Eram simplesmente quase-verdades aceitáveis em sua época. Darwin é, sem dúvida, um dos maiores gênios de todos os tempos. No entanto, aceitava a tese lamarckista da herança dos caracteres adquiridos e adotava, como explicação da herança biológica, um modelo criado por ele mesmo (a pangênese), que Mendel, seu contemporâneo e modesto padre de um mosteiro, já havia substituído por outro modelo que vige até hoje, aperfeiçoado pela Genética Molecular que nasceu em 1953: a teoria do gene. Redescobertas em 1900 - isto é, há 101 anos -, depois de 35 anos de completo olvido, as leis de Mendel (de 1865) vêm sendo básicas no estudo da Genética.

Newton Freire-Maia. Diretor do Instituto Ciência e Fé, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, presidente de honra da SBPC, atualmente professor emérito da Universidade Federal do Paraná.

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