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de Fevereiro de 2002

 


F E V E R E I R O   D E   2 0 0 2

Para pensar
Clonagem humana ou ciência ética

Antônio Celso Mendes

A humanidade tem sido, periodicamente, sacudida pelas conquistas da ciência, colocando em xeque os valores estabelecidos, ou melhor, as maneiras tradicionais pelas quais justifica as suas diversas opções. Estou me referindo especificamente aos problemas éticos referentes à clonagem humana.

O pressuposto inicial para tratar do problema refere-se ao que podemos entender por ética. Ora, esta existe para o bem do ser humano. Não obstante, o que podemos entender por bem do ser humano? No correr da história, diversos paradigmas têm sido utilizados para expressar o que seja o bem: a natureza, a felicidade, o amor, o prazer, o dever, a fé, etc, que, em si mesmos, não são necessariamente excludentes.

A história da ética é também a história da emancipação do ser humano, pari passu com o surgimento dos problemas advindos com as suas transformações culturais, seu progresso e, a cada passo, podemos verificar que, no geral, o mundo tem ficado melhor.

Sem dúvida, o respeito à natureza tem sido um para-digma ético respeitável para condicionar o que é melhor para o ser humano, mas, hoje, os procedimentos artificiais, pelas conveniências que traz, acabam por se impor às pretensas obrigações naturais.

O segundo pressuposto referido ao tema é saber se a pesquisa científica está ou não livre de preconceitos éticos. Ora, se a conquista do conhecimento tem sido o maior galardão da espécie humana, que lhe tem permitido igualar-se ao Criador, estando, portanto, desde o início, referida a uma transgressão (Gênesis, 3), torna-se evidente que não pode haver ciência descomprometida com os seus métodos e os seus resultados.

Dessa forma, no caso específico da clonagem humana, os métodos estão sendo considerados reprováveis. Por quê? Resposta: pela manipulação abusiva de embriões, considerados seres humanos desde o seu começo (há aqui a clara interferência de uma concepção metafísica, não verificável na prática).

Contudo, pelos seus resultados, diz-se que o processo destina-se apenas à produção de células-mães, que, por sua vez, propiciarão a obtenção de curas de diversas doenças, o que será sem dúvida uma grande conquista. Em acréscimo, a produção de clones humanos estaria descartada.

Como se vê, não se pode tratar de problemas éticos aprovando ou condenando de maneira genérica, mas cada situação representa por si só uma constelação de vantagens e desvantagens, riscos e crimes, que seria bom que fossem regulados por leis jurídicas.

Queiramos ou não, a engenharia genética não deixa de representar uma nova etapa na evolução da espécie humana e já que estamos no início da era espacial, torna-se necessário preparar o corpo humano para que possa enfrentar condições extremamente adversas de longas viagens e ambientes inóspitos.

Em conclusão, não existem pré-condições éticas que possam conter ou impedir que diversos tipos de clonagens não sejam procedidos pelos cientistas, mais cedo ou mais tarde. Elas ficarão apenas à mercê da consciência de cada um, ou, então, a questão deva se tornar um caso de polícia.

Antônio Celso Mendes é professor da Pontifí-cia Universidade Cató-lica do Paraná e inte-grante da Academia Paranaense de Letras.

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