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E V E R E I R O D E 2 0 0 2
Artigo
Nosso admirável mundo novo
João
Pedro Junqueira
Quando me
perguntam se sou a favor da clonagem, sempre respondo um sonoro sim! Ela
está aqui para ficar, assim como vários outros avanços.
A
medicina moderna é praticada há apenas 50 anos. Antes,
com raras exceções, vivíamos numa escuridão
científica. O que aprendemos nesses 50 ou 60 anos em termos
de medicina é mais do que em toda a nossa história,
ou seja, a pré-história da medicina só acabou
há algumas décadas. Quem hoje não se beneficia
dos antibióticos, da anestesia, dos ansiolíticos, das
técnicas cirúrgicas, dos transplantes, da terapia genética
e da fertilização "in vitro", entre outros?
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Grande
escarcéu ocorreu quando nasceu, em 1978, em Manchester (Reino Unido),
o primeiro bebê de proveta. Os médicos, cientistas e pacientes
foram duramente criticados; alguns centros de pesquisa na área
foram proibidos de continuar seus trabalhos; e instituições
como a Igreja Católica fizeram de tudo para proibir a realização,
até com ameaças de excomunhão aos seguidores que
realizavam a fertilização "in vitro".
Quando a possibilidade da clonagem surgiu, em 1997, alguns vislumbraram
a chance de eternidade; outros ficaram preocupados com a chance de clonar
Hitler, por exemplo; e outros, ainda, pensaram em perpetuar um filho morto
ou um outro ser querido. Pena que o debate sobre a clonagem tenha tomado
rumo tão emocional e que o homem não tenha enxergado os
benefícios de tal fantástico procedimento.
A ciência muitas vezes caminha mais rápido do que a sociedade,
talvez por fazer parte da personalidade do "cientista" vislumbrar
o futuro de forma menos preconceituosa. E é nesse ponto que é
preciso diferenciar a clonagem terapêutica da clonagem reprodutiva.
A clonagem reprodutiva objetiva criar uma cópia idêntica
de um ser humano. Seria um gêmeo idêntico, nascido anos ou
décadas depois. Um corpo igual em uma mente diferente, já
que o meio em que vivemos exerce influência importante, digamos
50%. Devemos nos lembrar que existe um grande fator negativo atuando contra
a clonagem repro-dutiva: a falta de diversidade genética. Precisamos
sempre de novos genes para que possamos sobreviver. Se repetirmos a reprodução
de um único conjunto de genes, corremos o risco de acumular uma
taxa inaceitável de mutações desfavoráveis,
levando clones reprodutivos a desenvolver várias doenças
incompatíveis com a vida.
Vale lembrar que a semiclonagem em bovinos foi abandonada por causa do
grande número de animais doentes produzidos; no caso da ovelha
Dolly, ela apresenta um envelhecimento precoce por causa de um defeito
de DNA.
A clonagem terapêutica tem como objetivo principal reorientar uma
célula a produzir um determinado conjunto de células ou
um tecido: é a chamada célula-tronco. Vamos imaginar o caso
de alguém com leucemia que necessite de um transplante de medula.
Ele seria o doador dele mesmo, sem incorrer no risco de uma rejeição.
Há um sem-número de situações a serem desenvolvidas
para o benefício do ser humano.
O medo é que tomemos medidas radicais para proibir o estudo da
clonagem, impossibilitando a aquisição de conhecimentos
que nos permitam um futuro mais digno. O medo é que cientistas
ou médicos inescrupulosos realizem experiências com seres
humanos sem saberem suas conseqüências. O medo é que
a sociedade não tenha discerni-mento para enxergar a possibilidade
e proíba a sua realização. O medo é que setores
específicos da sociedade só enxerguem seus interesses limitados
e preconceituosos. O medo é que o interesse econômico de
uma minoria prevaleça sobre a maioria. Só estamos começando.
Um longo caminho precisa ser trilhado.
No Brasil, o medo é ainda maior. E as conseqüências
podem ser piores. Enquanto a discussão mundial gira em torno da
clonagem, ainda estamos discutindo leis para reger a fertilização
"in vitro" e a manipulação de embriões.
A Lei de Biossegurança (lei nº 8.974) proíbe a utilização
de embriões para pesquisa, impossibilitando a utilização
de células-tronco para pesquisa da clonagem terapêutica.
O projeto de lei nº 90, de 1999, que está no Senado, é
ainda mais danoso e preocupante, pois proíbe a realização
de vários procedimentos de fertilização "in
vitro" que já são realizados no mundo e no Brasil de
forma segura e corriqueira, inclusive com o aval do Conselho Federal de
Medicina (resolução CFM nº 1.358/92).
Se tal projeto seguir, mesmo com o parecer contrário de toda comunidade
científica, não existirá mais discussão sobre
clonagem. Retornaremos à idade das trevas. O Brasil não
pode correr o risco de ficar fora do grupo de países que realiza
pesquisa de ponta nessa área. Temos pessoal qualificado, interesse,
disposição e condições materiais.
Infelizmente temos também pessoas que trabalham na contramão
da história e que querem manter o Brasil atrasado. Temos também
grupos religiosos que não só trabalham contra o direito
do indivíduo de recorrer a técnicas de fertilização
"in vitro" para alcançar uma gravidez, como proíbem
o uso de preservativos para evitar Aids ou o uso de métodos contra-ceptivos
modernos para evitar uma gestação indesejada.
Certamente não são só médicos e cientistas
que determinam o melhor caminho, mas sim um conjunto de setores representativos
da sociedade, após longa discussão. Se não formos
rápidos na discussão, estaremos fadados ao eterno subdesenvolvimento
científico-tecnológico, submissos e obrigados a comprar
tecnologia ultrapassada.
A ciência caminha lado a lado com o ser humano, e não distante
dele. Algumas vezes essa ciência atropela o pensamento humano e
o homem se esforça para compreendê-la melhor. Essa busca
por uma nova compreensão permite que a humanidade se desenvolva,
cresça e expanda os seus horizontes.
João
Pedro Junqueira é médico, doutor em Ginecologia pela UFMG.
(Extraído
da Folha de São Paulo)
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