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Ciência, beleza, gratuidade e segurança
Newton
Freire-Maia
A ciência
é um sistema dinâmico e exclusivista de saberes e crenças,
gerado por uma metodologia vasta, múltipla e heterogênea,
denominada "metodologia científica". Esse sistema inclui
definições, descrições, classificações,
interpretações, comparações, explicações,
conjecturas e previsões, que decorrem desde a mais estrita, minuciosa
e delimitada das análises até a mais ousada operação
imaginativa. Esse sistema é dinâmico porque se caracteriza
por um perene estado de ebulição intelectual, marcado por
constantes mudanças decorrentes de aquisições, eliminações,
correções e integrações. E é exclusivista,
isto é, só aceita que lhe parece de acordo com os seus cânones,
repelindo toda e qualquer tentativa de aproximação com algo
que se mostre fora deles.
Os seus praticantes formam uma confraria altamente democrática
(está aberta a todos), mas selecionadora (nem todos são
aceitos). Essa seleção baseia-se no mérito intelectual.
Muitos que se encontram fora dela falam como se a ela pertencessem; nem
sabem quais são os seus cânones mas, por isto mesmo, pensam
ser membros da irmandade quando, na realidade, estão, por definição,
fora dela.
Há uma ciência já feita que os livros-texto descrevem
e divulgam com perfeição e que é transmitida aos
interessados pelas escolas de todos os graus e pela mídia nos seus
múltiplos níveis. Ao lado dela e fornecendo-lhe, a cada
dia, algo que a amplia, corrige e aprimora, há a sua fonte primária
- a "ciência-pesquisa". A primeira acredita na verdade
de Aristóteles; a segunda só aceita a quase-verdade de da
Costa. A "ciência-disciplina" é dogmática,
ingênua e conservadora; a "ciência-processo" é
criada, proposta, discutida, negada e pode vir a ser aceita.
O professor e o estudante nem podem imaginar a intensa ebulição
que ocorre atrás de seus passos, sempre firmes e seguros. O cientista
renega à tarde o que aceitou pela manhã, muda hoje o ponto
de vista ardorosamente defendido ontem, nem pode imaginar o resultado
de uma pesquisa iniciada há um mês e talvez ache que só
terminará com sua morte a linha de pesquisa começada há
três decênios... A sua imaginação é viva
e borbulhante como a de um artista, mas o seu amor aos fatos força-o
a esmigalhá-los até seus componentes menores, assim aparentemente
destruindo a primitiva beleza do conjunto. Quando, porém, ele os
recompõe e os interpreta com a nova teoria, ressurge a antiga beleza
aparentemente morta. Ela agora, muitomais fulgurante, está melhor
compreendida.
O cientista é um esteta, mesmo quando não tem consciência
de sua admirável função artística. Ao pensar
que a arte é mais importante que a ciência, assim ressaltando
a mais alta significação da beleza na vida humana, Nietzsche
certamente não sabia aquilatar o altíssimo grau de beleza
que brota da investigação científica e das magníficas
conjecturas que explodem no cérebro de gênios como Galileu,
Newton, Darwin, Mendel e Einstein. E mais: em informações
aparentemente desordenadas e mesmo caóticas, o cientista pode descobrir
uma ordem esplendorosa em que impera a beleza sem par que o Universo mostra
escondendo. Foi preciso o gênio de Kepler para ver a beleza que
estava à vista de todos, mas que ninguém viu, e que se revelou
nas suas três leis astronômicas. Mendel também, do
absoluto ao caos, retirou a ordem e a simplicidade da Genética.
Uma das características mais marcantes da atividade científica
é a sua absoluta gratuidade. A descoberta pode gerar lucros, mas
nunca será o cientista beneficiário da operação.
Outros - os capitalistas, os industriais, os chefes de empresa, os acionistas
de companhias, etc. - é que, direta ou indiretamente, utilizam
o novo conhecimento científico para a geração de
riquezas. Pasteur nada ganhou com os seus soros. Mendel nunca se beneficiou
com as leis básicas da Genética. Fleming nenhum lucro tirou
da descoberta da penicilina. Einstein enriqueceu o mundo e morreu sem
riquezas; nenhum benefício tirou de suas teorias da relatividade.
Muitos cientistas, fundadores de ciências e solucionadores de mistérios,
viveram e morreram pobres. Alguns pensadores há que foram presos
ou morreram na fogueira porque suas idéias contrariavam as superstições
então em voga.
Não se confundam os cientistas com os inventores. Aqueles, em geral,
procuram o conhecimento pelo conhecimento, sem outras preocupações;
estes estão à cata de aplicações que possam
ser úteis e gerar lucros. Pasteur, Mendel, Fleming e Einstein foram
cientistas de primeira linha; Edison, Marconi e os irmãos Lumière
foram grandes e inesquecíveis inventores.
Newton
Freire-Maia. Diretor do Instituto Ciência e Fé, membro titular
da Academia Brasileira de Ciências, presidente de honra da SBPC,
atualmente professor emérito da Universidade Federal do Paraná.
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