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Alzeli Basseti é escritora, fundadora e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé.


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Opinião
Crueldades exemplares

Alzeli Bassetti

Apresentaram-se certa vez diante de Drácula dois emissários turcos que traziam a cabeça totalmente descoberta, alegando que assim exigiam os usos e costumes de seu país. Calejado por dissimulações as mais criativas, sempre estratégicas, o tirano não se deu por achado e retrucou: "Gostaria de reforçar vossos costumes". De pronto, expediu uma ordem para que os turbantes dos dois lhes fossem fixados na cabeça com reforçados pregos. Tiranos não buscam a verdade, antecipam-se a elas. A pretensa justificativa para suas crueldades é a necessidade de tomar medidas preventivas para evitar futuros dissabores. Os cítios chegavam a vazar os olhos dos escravos para impedir que se distraíssem ao bater o leite.

Tomados pela crueldade dos ataques terroristas do último 11 de setembro, pelo pânico de um segundo "round" e pela possibilidade do grupo Bin Laden ser capturado vivo e levado aos EUA para julgamento – com a viabilidade de tornar-se herói ou mito -, o Governo Bush houve por bem lavrar um decreto que cria tribunais militares especiais, em pontos estratégicos do mundo. Medida severa, questionável, grave pelo aspecto jurídico. Esses mecanismo de exceção irão catar, deter e julgar estrangeiros acusados de terrorismo, bem como aqueles que conscientemente vierem a dar-lhe apoio, ajuda ou abrigo. Bush regerá a ação dos tribunais. Soou estranha a isenção a terroristas nativos. E lá os há muitos!

Plenipotenciário, ignorando as conquistas de direitos obtidos pela humanidade e a soberania das demais nações, o decreto não permite sequer ao lesado o direito de recorrer à qualquer instância na Justiça regulamentar. Caso os EUA venham a considerar comprometedores à própria segurança alguns itens dos autos, os poderosos tribunais poderão omiti-los do acusado e respectivo advogado. Se dois terços dos jurados optarem pela culpa, o acusado estará praticamente sujeito à execução primária, mesmo sem prova cabal. "Pregos" na cabeça dos suspeitos, em nome da paz! Medida, aliás, que só fará recrudescer o terrorismo.

No pré 11 de setembro, os EUA discutiam a ética da tortura. No pós, já realçam a eficiência dela contra o terrorismo. Sentinela dos Direitos Humanos, a OAB foi convocada por uma congênere norte-americana para rubricar um manifesto de repúdio a alguns pontos do pacote antiterror. G.W. Bush vem cumprindo à risca várias promessas de campanha, como a de melhorar o faturamento financeiro da indústria bélica, ligada aos empresários do ramo petrolífero. Vários representantes dela ocupam postos chaves no atual governo. A própria NBC é controlada pela General Electric, que, além de lâmpadas, produz material bélico. Outra questão dizia respeito ao petróleo no Oriente Médio, já que, segundo depoimentos extra oficiais, os EUA possuem petróleo somente para mais sete anos.

A luta pelo controle do petróleo no Oriente Médio passa pela destruição do Regime Taliban, uma vez que o Afeganistão geopoliticamente é passagem para a Ásia Central. O Azerbaijão, Casaquistão, Irã, Rússia e Turcomenistão dispõem de cerca de 200 bilhões de barris petrolíferos e o equivalente em gás. As cinco maiores empresas petrolíferas – Chevron, Conoco, Texaco, Mobil Oil e Uncol – estão ultimando acordos com os países acima para exploração de reservas. Assim, os EUA passarão ao monopólio quase total do petróleo mundial, podendo impor o preço que bem entenderem ao chamado "ouro negro". Enquanto combatem o terrorismo, estendem o seu domínio. Dizem algumas línguas que já não lhes interessa tanto a captura de Osama bin Laden, a não ser por simbolismo.

A pedra do caminho, porém, é a nação afegã. Há resistência ao antiimperialismo mesmo por parte da Aliança do Norte, que não dá aval para a passagem dos dutos petrolíferos em seu território. O atentado de 11 de setembro não conseguiu lamentavelmente sensibilizar a elite político-econômica de Tio Sam para a premência em minorar a fome e a sede por justiça no Terceiro Mundo, caldos de cultura do terror. Em conseqüência, permanecerão como alvo primordial do terrorismo. Afinal, ninguém é dono do mundo. E todos, pobres e ricos, são filhos do dono. Com ou sem pregos nos turbantes.

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