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Opinião
Ciência: beleza, gratuidade
e segurança (V)
Newton
Freire-Maia
Referimo-nos,
em um dos artigos desta série, à geometria de Euclides e
às geometrias não-euclidianas. Aqui estão mais umas
informações curiosas. Se você desenhar um triângulo
sobre uma mesa, a sua geometria será a de Euclides; se desenhá-lo
sobre uma sela, a geometria será a de Lobatchevsky; se, porém,
o fizer sobre uma bola, a geometria que aí se aplica é a
de Riemann. Como vivemos sobre uma bola e só vemos bolas quando
olhamos o firmamento, o nosso Universo rege-se pela geometria de Riemann,
e não, pela de Euclides.
Um fato interessantíssimo neste contexto é que Einstein
descobriu que nosso Universo seria regido por uma geometria feita de curvaturas
positivas e, não, de planos, antes de saber que já existia
a geometria que ele procurava. Isto é: ele era um físico
genial, mas não dispunha dos conhecimentos mais sofisticados de
um matemático. Teve de procurar um seu amigo matemático,
que o informou sobre a geometria de Riemann. Não há vergonha,
pois, em se fazerem perguntas: uma boa maneira de se diminuir a ignorância
da gente consiste justamente em se perguntar sobre algo incluído
nela a algum amigo que saiba mais do assunto.
Finalmente, repetimos aqui o que já foi dito antes. Compete aos
governos colocar o mundo da Ciência ao alcance do povo, não
apenas através de escolas gratuitas mas também de museus,
centros científicos e programas de rádio e de televisão.
A Ciência é uma forma de diversão e todos devem poder
se divertir com ela.
Mais uma palavra sobre os tipos de segurança que a Ciência
pode nos oferecer. Chamam-se "protocolos" os cadernos que o
cientista mantém no laboratório e nos quais anota os resultados
de suas medições, pesagens, etc. e de suas experiências
mais simples. Cada um dos achados ali inscritos é uma "declaração
protocolar", que pode estar certa ou errada. Ele próprio corrige
as erradas, dizendo, por exemplo: "aquilo que escrevi na manhã
do dia tal está errado; hoje, fui mais cuidadoso e verifiquei que
etc..., etc..., etc.". Essas "declarações protocolares",
em geral simples e elementares, estão comumente certas. Isto significa
que as "declarações protocolares" que forem achadas
entre as riquezas deixadas por um cientista, e não foram corrigidas
por ele mesmo, devem estar certas - isto é, prepresentam a verdade
aristotólica. O que foi dito deve corresponder ao que é.
Um outro cientista poderá conferir e verificará a coisa.
Sim, está certo, dirá ele. Ou então: está
errado. E corrigirá o erro.
Infelizmente, isso só serve para as declarações ditas
protocolares. Para outros problemas, mesmo que sejam aparentemente simples,
não se pode fazer o mesmo. Se, por exemplo, analiso amostras de
uma dada população de um certo inseto, num certo lugar do
mundo, para que se verifique se estou certo ou errado será necessário
que se volte àquele lugar, na mesma época, e se estude do
mesmo jeito a mesma população de inseto... Isso é
impossível. Voltar lá - é possível. Estudar
a mesma espécie de inseto - é possível. Mas voltar
lá na mesma época em que lá estive - isso nunca será
possível. Aceite-se ou negue-se o que eu disse, mas ninguém
poderá dizer que minha declaração era falsa...
E sobre as teorias? Elas são o que de mais importante a Ciência
pode ter. E podem ser prováveis, mas nunca provadas! Por definição,
uma teoria nunca poderá ser provada. Vejamos uma modesta enunciação
de uma das mais importantes e aceitas teorias de toda a Ciência
- a teoria da evolução biológica: Todos os seres
vivos, atuais e do passado, derivam, por transformações
sucessivas, de seres vivos diferentes que viveram anteriormente. Em outros
termos: as espécies e raças atuais e do passado não
surgiram individualmente e já prontas, mas evoluíram de
outras espécies e raças. Esta é uma teoria altíssimamente
corroborada e perfeitamente integrada ao fabuloso edifício da Biologia
moderna, com a Genética Molecular e tudo o mais deste começo
de Terceiro Milênio.
Em resumo: as teorias, por definição, não podem ser
provadas. Por isto, quem estiver esperando que se prove a Teoria da Evolução
para vir a aceitá-la, procure uma confortável cadeira e
espere sentado.
Newton
Freire-Maia é doutor pela UFRJ, é diretor do Instituto Ciência
e Fé, professor titular emérito sênior da UFPR e presidente
de honra da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da CiÊncia).
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