Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Creche Ana Proveller Paslestras e Conferências Contato LInks
 


M A R Ç O   D E   2 0 0 2

Globalização: Babel ou Pentecostes?

Evaristo Eduardo de Miranda

A terra inteira utilizava a mesma língua e as mesmas palavras
(Gênesis 11,1)

Cada um os ouvia falar em sua própria língua
(Atos dos Apóstolos 2,6-7)

Globalização é hoje uma das palavras mais presentes nas análises sociais, econômicas e políticas. Ela urge como a explicação dos problemas, mudanças e conquistas atuais da humanidade. Sob o tema globalização encontra-se toda sorte de considerações e posições: desde os mais fortes defensores até os mais obstinados oponentes. Mas esta novidade é mais antiga do que se imagina.

Há milênios, a tradição judaica e cristã debate a globalização e posiciona-se em bases muito radicais. Nem os críticos, nem os defensores do processo atual ainda não se deram conta dessa contribuição da tradição judaica-cristã. Os cristãos tendem a adotar um posicionamento tendencioso e político, ao invés de trazer sua contribuição, sua alteridade, seu sal, independentemente de sua opção partidária. O desafio é transformar Babel em Pentecostes.

O dicionário considera a globalização como um fenômeno que tem por base a economia: processo típico da segunda metade do século XX que conduz a crescente integração das economias e sociedades dos vários países, especialmente no que toca à produção de mercadorias e serviços, aos mercados financeiros, e à difusão de informações. Alguns, com razão, discordam dessa definição, no mínimo com relação à data. Esse processo de globalização já começou com os portugueses, no século XVI.

De fato, o processo de globalização nos remete - com razão - às caravelas e aos descobrimentos lusitanos. Foram os portugueses que acabaram com a "insularidade" da Europa, Ásia, Polinésia, África e América. A partir do gigantesco feito de Vasco da Gama, os portugueses colocaram em diálogo econômico e cultural, progressivamente, civilizações e continentes(1). Foram os portugueses que apresentaram ao "nosso mundo" as Molucas, a Índia, a China e o Japão. Na magistral obra "Os Lusíadas", Luís de Camões eleva aos patamares do universo mítico os feitos lusitanos, cingindo-se das regras aristotélicas, tomando por modelo Virgílio e Homero e comparando Vasco da Gama a Ulisses e Enéias. No paradoxo do relato mítico é como se portugueses se dispersassem pela terra, deslocando-se para o Oriente, para poder descobrir e unir os povos.

Os relatos míticos do início do livro do Gênese, concluem-se com a parábola da torre de Babel. O episódio começa evocando uma humanidade uniforme e não unificada, idêntica mas sem identidade, sem alteridade. "A terra inteira utilizava a mesma língua e as mesmas palavras. Ora, deslocando-se para o Oriente, os homens descobriram..." (Gn 11,1-2). Parece que as descobertas estão mesmo no Oriente, de onde a velha asserção: Ab Oriente lux ou a luz vem do Oriente. Orientar-se. À qual agregou-se um corolário desastrado: Ab Occidente progressus, ou seja, o progresso vem do Ocidente.

Babel é um episódio conhecido, mas se o leitor esqueceu, vale reler e meditar. É uma daquelas raras e estranhas situações em que Deus aparece falando no plural. Diante de um mundo singular, uniforme, Deus se apresenta plural(2): "Vamos, desçamos e confundamos a língua deles, que não se entendam mais entre si! Dali o Senhor os dispersou sobre toda a superfície da terra e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi dado a ela o nome de Babel, pois foi ali que o Senhor confundiu a língua de toda a terra e foi dali que o Senhor dispersou os homens sobre toda a terra". (Gn 11, 7-9)

Esse episódio tem uma enorme riqueza de significados, quando penetra-se na raiz hebraica das palavras: tijolo, palha, argamassa, pedra e betume. Mas, aqui e agora, importa destacar um significado político: esta parábola traduz a tentação que o homem experimenta de garantir a unidade da humanidade por um imperialismo político religioso(3). Ele é exemplificado aqui pela Babilônia, fruto do anacronismo imposto a um texto antigo, sistematizado após a experiência do exílio judeu na Mesopotâmia. Poderia ser aplicado a muitas cidades, ao longo da história da humanidade, de Roma a Nova Iorque, passando por Pequim.

A globalização, como dominação universal, deve ser rejeitada. Ela anula identidades, escraviza mentes e corpos e leva à fusão e à confusão. É também praticada, em outra escala, por seitas e pretensas igrejas. Nisso reside uma das maiores idolatrias de nossos dias: as seitas que vendem - pela televisão - uma torre para conquistar Deus, os céus e a riqueza material. Elas constróem e vendem esse ídolo: a imagem mecanicista de um Deus comerciante. Apresentam o sacrifício a Deus como sinônimo da entrega de dinheiro para os cofres da seita. São pastores que vivem da gordura de suas magras ovelhas. "Ai dos pastores que apascentam a si mesmos! Não é o rebanho que eles devem apascentar? Comeis as partes gordas, vos vestis com lã, sacrificando os animais cevados, mas o rabanho, não o apascentais!" (Ez 34,2-3).

Cabe também como perene exortação aos donos do poder, dirigentes de organismos internacionais, do FMI à ONU, e a qualquer autoridade.

Essas divisões, como a Babel dos Fóruns Internacionais - recente e simetricamente celebrados em Nova Iorque e Porto Alegre - não podem ser superadas pela uniformidade nem pela força. Um modelo de superação está no livro dos Atos dos Apóstolos, principalmente em sua primeira parte (do capítulo 1 ao 12). Norma de verdade de fé, desde o ano 200 os Atos já eram uma obra apostólica por excelência. Em sua primeira parte, os elementos são justapostos, quase sem cronologia, numa língua de tendência semitizante e com cores míticas: "Ora, em Jerusalém, residiam judeus piedosos, vindos de todas as nações que existem sob o céu. Ao rumor que se propagava, a multidão se reuniu e ficou toda confusa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Perplexos e maravilhados, eles diziam: Todos esses que falam não são galileus? Como é que cada um de nós os ouve em sua língua materna?" (At 2,5-8).

Foi no dia da Quinqua-gésima, de Pentecostes, da festa judaica de Shavuot (semanas), no início do verão, face ao dom das colheitas. Quarenta e nove dias após a Páscoa (7x7)(4), num sinal de plenitude, jubileu e de outro mundo. O dom de Deus, do Espírito Santo, se exprime como uma explosão de linguagem!

O dom do Espírito restabelece a unidade lingüística e não sua uniformidade, todos se entendiam, cada um em sua própria língua! Verdadeira humanidade, verdadeira fraternidade. Esta globalização, este universalismo, esta catolicidade, preserva e exalta a identidade, a separação, a diferenciação e a alteridade. Num todo (holos), num catolicismo (katholikós = universal) que é mais que a soma das partes e a transcende. A Igreja Católica deve prefigurar essa unidade na diversidade(5). Essa é a dimensão universal da inculturação e da missão apostólica dos cristãos, bem além de qualquer proselitismo. Esse é o espírito da globalização que precisamos, queremos e defendemos.

1 A navegação de alto-mar possibilitou o contato direto e cada vez mais amplo entre a civilização européia - com uma capacidade inédita de acumulação - e civilizações e povos distantes, sem a intermediação (filtro cultural) de uma sucessão de povos vizinhos.

2 Como na expressão: "Façamos o homem a nossa imagem, segundo a nossa semelhança" (Gn 1,26). Muitos autores cristãos viram nessas expressões a tradução de Deus uno e plural, trinitário, onde o Pai dialogo com o Filho e o Santo Espírito. Outros autores vêem nessas expressões uma presença sutil do ambiente politeísta onde edificou-se a crença monoteísta, já que Deus mesmo é apresentado como Elohim, uma palavra que evoca deuses, no plural. Outros, e entre eles muitos judeus, vêem somente nessas expressões um recurso literário: o uso do plural majestático, como faz o Papa, os reis, monarcas e chefes de governo, ao falar na primeira pessoa do plural ou, ainda, simplesmente um Deus antropomórfico falando com seus anjos.

3 Tradução Ecumênica da Bíblia - TEB. Ed. Loyola. São Paulo, 1994.

4 O número 7, sheva, equivale no alfabeto hebraico à letra zayin, que significa arma. A arma do lembrar-se. A arma da consciência, do recordar-se, da teshuva (retorno e conversão). Lembra-te do repouso sabático (Ex 20,8), do sétimo dia. Lembra-te começa com um zayin em hebraico. A simbologia do 7 por excelência é a do shabat, sétimo dia. A palavra shabat também significa retorno - shav e está relacionada com satisfação - saba. O sétimo dia é satisfação, pois retorna-se ao Uno e santifica-se o tempo.

5 Como no pioneirismo extraordinário dos jesuístas na China e seus esforços de inculturação, através do Confucionismo, no século XVI, ou ainda em suas experiências catequéticas com os guaranis.

Evaristo Eduardo de Miranda. Diretor do Instituto Ciência e Fé, Doutor em Ecologia, pesquisador da Embrapa, autor do livro "Sábios Fariseus"

< retorna ao sumário

 

Página Inicial