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M
A R Ç O
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Globalização:
Babel ou Pentecostes?
Evaristo
Eduardo de Miranda
A
terra inteira utilizava a mesma língua e as mesmas palavras
(Gênesis 11,1)
Cada
um os ouvia falar em sua própria língua
(Atos dos Apóstolos 2,6-7)
Globalização
é hoje uma das palavras mais presentes nas análises sociais,
econômicas e políticas. Ela urge como a explicação
dos problemas, mudanças e conquistas atuais da humanidade. Sob
o tema globalização encontra-se toda sorte de considerações
e posições: desde os mais fortes defensores até os
mais obstinados oponentes. Mas esta novidade é mais antiga do que
se imagina.
Há milênios, a tradição judaica e cristã
debate a globalização e posiciona-se em bases muito radicais.
Nem os críticos, nem os defensores do processo atual ainda não
se deram conta dessa contribuição da tradição
judaica-cristã. Os cristãos tendem a adotar um posicionamento
tendencioso e político, ao invés de trazer sua contribuição,
sua alteridade, seu sal, independentemente de sua opção
partidária. O desafio é transformar Babel em Pentecostes.
O dicionário considera a globalização como um fenômeno
que tem por base a economia: processo típico da segunda metade
do século XX que conduz a crescente integração das
economias e sociedades dos vários países, especialmente
no que toca à produção de mercadorias e serviços,
aos mercados financeiros, e à difusão de informações.
Alguns, com razão, discordam dessa definição, no
mínimo com relação à data. Esse processo de
globalização já começou com os portugueses,
no século XVI.
De fato, o processo de globalização nos remete - com razão
- às caravelas e aos descobrimentos lusitanos. Foram os portugueses
que acabaram com a "insularidade" da Europa, Ásia, Polinésia,
África e América. A partir do gigantesco feito de Vasco
da Gama, os portugueses colocaram em diálogo econômico e
cultural, progressivamente, civilizações e continentes(1).
Foram os portugueses que apresentaram ao "nosso mundo" as Molucas,
a Índia, a China e o Japão. Na magistral obra "Os Lusíadas",
Luís de Camões eleva aos patamares do universo mítico
os feitos lusitanos, cingindo-se das regras aristotélicas, tomando
por modelo Virgílio e Homero e comparando Vasco da Gama a Ulisses
e Enéias. No paradoxo do relato mítico é como se
portugueses se dispersassem pela terra, deslocando-se para o Oriente,
para poder descobrir e unir os povos.
Os relatos míticos do início do livro do Gênese, concluem-se
com a parábola da torre de Babel. O episódio começa
evocando uma humanidade uniforme e não unificada, idêntica
mas sem identidade, sem alteridade. "A terra inteira utilizava a
mesma língua e as mesmas palavras. Ora, deslocando-se para o Oriente,
os homens descobriram..." (Gn 11,1-2). Parece que as descobertas
estão mesmo no Oriente, de onde a velha asserção:
Ab Oriente lux ou a luz vem do Oriente. Orientar-se. À qual agregou-se
um corolário desastrado: Ab Occidente progressus, ou seja, o progresso
vem do Ocidente.
Babel é um episódio conhecido, mas se o leitor esqueceu,
vale reler e meditar. É uma daquelas raras e estranhas situações
em que Deus aparece falando no plural. Diante de um mundo singular, uniforme,
Deus se apresenta plural(2): "Vamos,
desçamos e confundamos a língua deles, que não se
entendam mais entre si! Dali o Senhor os dispersou sobre toda a superfície
da terra e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi dado a ela
o nome de Babel, pois foi ali que o Senhor confundiu a língua de
toda a terra e foi dali que o Senhor dispersou os homens sobre toda a
terra". (Gn 11, 7-9)
Esse episódio tem uma enorme riqueza de significados, quando penetra-se
na raiz hebraica das palavras: tijolo, palha, argamassa, pedra e betume.
Mas, aqui e agora, importa destacar um significado político: esta
parábola traduz a tentação que o homem experimenta
de garantir a unidade da humanidade por um imperialismo político
religioso(3). Ele é exemplificado
aqui pela Babilônia, fruto do anacronismo imposto a um texto antigo,
sistematizado após a experiência do exílio judeu na
Mesopotâmia. Poderia ser aplicado a muitas cidades, ao longo da
história da humanidade, de Roma a Nova Iorque, passando por Pequim.
A globalização, como dominação universal,
deve ser rejeitada. Ela anula identidades, escraviza mentes e corpos e
leva à fusão e à confusão. É também
praticada, em outra escala, por seitas e pretensas igrejas. Nisso reside
uma das maiores idolatrias de nossos dias: as seitas que vendem - pela
televisão - uma torre para conquistar Deus, os céus e a
riqueza material. Elas constróem e vendem esse ídolo: a
imagem mecanicista de um Deus comerciante. Apresentam o sacrifício
a Deus como sinônimo da entrega de dinheiro para os cofres da seita.
São pastores que vivem da gordura de suas magras ovelhas. "Ai
dos pastores que apascentam a si mesmos! Não é o rebanho
que eles devem apascentar? Comeis as partes gordas, vos vestis com lã,
sacrificando os animais cevados, mas o rabanho, não o apascentais!"
(Ez 34,2-3).
Cabe
também como perene exortação aos donos do poder,
dirigentes de organismos internacionais, do FMI à ONU, e a qualquer
autoridade.
Essas divisões, como a Babel dos Fóruns Internacionais -
recente e simetricamente celebrados em Nova Iorque e Porto Alegre - não
podem ser superadas pela uniformidade nem pela força. Um modelo
de superação está no livro dos Atos dos Apóstolos,
principalmente em sua primeira parte (do capítulo 1 ao 12). Norma
de verdade de fé, desde o ano 200 os Atos já eram uma obra
apostólica por excelência. Em sua primeira parte, os elementos
são justapostos, quase sem cronologia, numa língua de tendência
semitizante e com cores míticas: "Ora, em Jerusalém,
residiam judeus piedosos, vindos de todas as nações que
existem sob o céu. Ao rumor que se propagava, a multidão
se reuniu e ficou toda confusa, pois cada um os ouvia falar em sua própria
língua. Perplexos e maravilhados, eles diziam: Todos esses que
falam não são galileus? Como é que cada um de nós
os ouve em sua língua materna?" (At 2,5-8).
Foi no dia da Quinqua-gésima, de Pentecostes, da festa judaica
de Shavuot (semanas), no início do verão, face ao dom das
colheitas. Quarenta e nove dias após a Páscoa (7x7)(4),
num sinal de plenitude, jubileu e de outro mundo. O dom de Deus, do Espírito
Santo, se exprime como uma explosão de linguagem!
O dom do Espírito restabelece a unidade lingüística
e não sua uniformidade, todos se entendiam, cada um em sua própria
língua! Verdadeira humanidade, verdadeira fraternidade. Esta globalização,
este universalismo, esta catolicidade, preserva e exalta a identidade,
a separação, a diferenciação e a alteridade.
Num todo (holos), num catolicismo (katholikós = universal) que
é mais que a soma das partes e a transcende. A Igreja Católica
deve prefigurar essa unidade na diversidade(5).
Essa é a dimensão universal da inculturação
e da missão apostólica dos cristãos, bem além
de qualquer proselitismo. Esse é o espírito da globalização
que precisamos, queremos e defendemos.
1
A navegação de alto-mar possibilitou o contato
direto e cada vez mais amplo entre a civilização européia
- com uma capacidade inédita de acumulação - e civilizações
e povos distantes, sem a intermediação (filtro cultural)
de uma sucessão de povos vizinhos.
2 Como na expressão:
"Façamos o homem a nossa imagem, segundo a nossa semelhança"
(Gn 1,26). Muitos autores cristãos viram nessas expressões
a tradução de Deus uno e plural, trinitário, onde
o Pai dialogo com o Filho e o Santo Espírito. Outros autores vêem
nessas expressões uma presença sutil do ambiente politeísta
onde edificou-se a crença monoteísta, já que Deus
mesmo é apresentado como Elohim, uma palavra que evoca deuses,
no plural. Outros, e entre eles muitos judeus, vêem somente nessas
expressões um recurso literário: o uso do plural majestático,
como faz o Papa, os reis, monarcas e chefes de governo, ao falar na primeira
pessoa do plural ou, ainda, simplesmente um Deus antropomórfico
falando com seus anjos.
3 Tradução Ecumênica
da Bíblia - TEB. Ed. Loyola. São Paulo, 1994.
4 O número 7, sheva,
equivale no alfabeto hebraico à letra zayin, que significa arma.
A arma do lembrar-se. A arma da consciência, do recordar-se, da
teshuva (retorno e conversão). Lembra-te do repouso sabático
(Ex 20,8), do sétimo dia. Lembra-te começa com um zayin
em hebraico. A simbologia do 7 por excelência é a do shabat,
sétimo dia. A palavra shabat também significa retorno -
shav e está relacionada com satisfação - saba. O
sétimo dia é satisfação, pois retorna-se ao
Uno e santifica-se o tempo.
5 Como no pioneirismo extraordinário
dos jesuístas na China e seus esforços de inculturação,
através do Confucionismo, no século XVI, ou ainda em suas
experiências catequéticas com os guaranis.
Evaristo
Eduardo de Miranda. Diretor do Instituto Ciência e Fé, Doutor
em Ecologia, pesquisador da Embrapa, autor do livro "Sábios
Fariseus"
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