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M A R Ç O   D E   2 0 0 2

Ciência: beleza, gratuidade e segurança
(III)

Newton Freire-Maia

O progresso da Ciência não imita o massacrante andar de um trator, que esmaga indiferentemente tudo o que encontra pelo caminho. É, pelo contrário, um processo de cuidadoso exame, que elimina mas também aprimora e integra. Assim, a teoria de Mendel (1865) foi integrada à teoria cromossômica no início do século XX. O resultado disso (a Genética) foi integrado à teoria darwiniana da seleção natural, desabrochando assim na chamada "teoria sintética da evolução". Hoje, somos mendelianos e darwinianos, mas nossas teorias não são exatamente as de Mendel e de Darwin. Isto não significa que, em relação às duas linhas, tenhamos alcançado a Verdade. Nós somos apenas possuidores de quase-verdades ajustadas à nossa época, enquanto os dois luminares da Ciência possuíam quase-verdades próprias ao seu tempo.

Isto não significa que uma teoria possa ser verdadeira numa época e falsa em outra. Cada teoria quase-verdadeira que muda com o passar do tempo é e será sempre quase-verdadeira, mesmo quando cede seu lugar a uma que seja mais quase-verdadeira. Seu grau de cientificidade não se altera com o tempo. Uma teoria posta de lado (por exemplo, a lamarckista da herança dos caracteres adquiridos) não passa a ser menos científica por isto. Serviu durante certo tempo (no século XIX, os biólogos, em geral, eram lamarckistas), mas não serve mais hoje.

Os livros científicos (didáticos ou não) refletem sempre a Ciência das épocas em que foram editados. Por isto, com exceção dos clássicos (por exemplo, "A Origem das Espécies" de Darwin), esses livros, quando de edições antigas, pouco ou nada valem. Pior: chegam a representar um perigo para os jovens estudantes que ali encontrarão quase-verdades já superadas e que eles passam a aceitar como quase-verdades atuais.

Quando Newton criou a sua Mecânica com base em uma força capaz de agir à distância - a gravidade, nem poderia imaginar que sua belíssima elaboração teórico- matemática seria substituída, dois a três séculos depois, pela visão relativista de Einstein. A gravidade, para nós, não é mais uma força misteriosa que mantém nos espaços sem fim a multidão incalculável de corpos celestes. Ela, agora, é mera resultante da curvatura do espaço, decorrente da presença ubíqua da matéria-energia. E essa curvatura não é a da geometria euclidiana que dominou o mundo durante dois milênios como se fosse a geometria verdadeira e, como tal, insubstituível. A euclidiana é apenas a geometria mais prática, de mais fácil manejo, que usamos sobre nossas escrivaninhas e na construção de nossas casas. Fazemos nossos jardins com ela, e ainda com ela, erigimos nossos prédios altíssimos. As ditas paralelas verticais irão se encontrar, todas elas, no centro da Terra, o que significa que elas nos parecem paralelas apenas pela incapacidade dos nossos sentidos e dos nossos aparelhos. Paralelas que se encontram, uma heresia na geometria euclidiana, estavam pedindo uma nova geometria e foi assim que Einstein descobriu que o Universo deveria ser visto na base dos conceitos de uma outra geometria (que já existia no seu tempo) - a de Riemann. Einstein nos deu uma visão de mundo diferente mas muito mais bela. As aparências euclidianas foram substituídas pela realidade de algo que só um artista poderia conceber. E mais: sendo curvo o espaço pela presença nele da matéria-energia, os raios de luz, quando penetram num campo gravitacional, se encurvam também. Sofrem o efeito da curvatura espacial. O raio de luz se inclina diante da majestade da matéria-energia em cujos domínios penetra. Einstein disse isso em 1915 e avisou que, no próximo eclipse do Sol, em 1919, poder-se-ia constatar a curvatura prevista. Não foram os fatos que geraram a teoria, mas a teoria que revelou os fatos. E assim se fez: em 1919, pôde-se ver que os raios de luz, vindos de estrelas distantes, curvaram-se ao atravessar o domínio do Sol. Em suma: o campo gravitacional do Sol funciona como uma lente que muda a direção da luz que vem das estrelas.

Sendo curva a superfície da nossa Terra, será um contra-senso o uso de uma geometria plana como a de Euclides. Vamos reexaminar os nossos triângulos? Não, obviamente, os pequeninos triângulos que fazemos sobre nossas escrivaninhas, que construímos na estrutura dos nossos arranha-céus ou desenhamos nos quarteirões de nossas cidades. Façamos um triângulo sobre a superfície da Terra, colocando um ângulo num dos pólos e ou outros dois contíguos ao Equador. Calculemos o tamanho de seus ângulos e vejamos se sua soma respeita um dos cânones da geometria que aprendemos no ginásio: a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a dois retos, isto é, 180º. Que decepção teremos ao ver que nossa soma sai maior do que 180º. Aliás, a soma dos dois contíguos ao Equador já vale dois retos. A geometria euclidiana está certa; nós é que a empregamos numa situação em que ela não serve. No caso, impera a geometria riemanniana segundo a qual a soma dos ângulos de um triângulo é sempre maior que dois retos (180º). Há várias geometrias que se contradizem. E todas elas estão certas! (continua)

Newton Freire-Maia. Diretor do Instituto Ciência e Fé, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e presidente de honra da SBPC

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Ciência: beleza, gratuidade e segurança
(I)

Ciência: beleza, gratuidade e segurança
(II)

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