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M A R Ç O   D E   2 0 0 2

Outono romano

Luiz Paulo Horta

João Paulo II ser um Papa discutido não é novidade. Mesmo no que parece (pelas dimensões humanas) um final de pontificado, ele continua a produzir notícias. De um lado, o impressionante encontro ecumênico de Assis. De outro, uma abordagem que soa dura, quase desajeitada, sobre a questão do divórcio, pedindo a juízes e advogados católicos que boicotem processos de separação. "Interferência no Estado laico", berra uma descendente de Mussolini.

John Cornwell, autor de "Pio XII - o Papa de Hitler", vai além, em livro recém-lançado no Brasil. "Quebra da fé" é um requisitório que se pretende devastador sobre o período João Paulo II. Num tom quase amargo, ele alinha tudo o que enxerga de ruim nesse reinado de 24 anos (um dos mais longos da História).

Cornwell retoma algumas críticas já feitas - que o Papa é centralizador, que fez gato e sapato do princípio da colegialidade, que é um retrógrado em moral sexual e familiar, que não admite a ordenação de freiras - e vai acrescentando outras: que a Igreja de Roma perde terreno continuamente em sacerdotes e em fiéis; que os padres "gays" se multiplicam, bem como os casos de pedofilia; que a guerra entre "progressistas" e "conservadores" não acaba nunca; que o atual papado estimula o "culto à personalidade", que a Igreja não fala mais a língua do nosso tempo...

Não são opiniões só dele, claro. Insinua-se um clima de "fim de regime", à medida que diminui a energia do pontífice. A idade do enfraquecimento do corpo e da mente (que é inevitável), podem modificar comportamentos, empanar a agudeza do raciocínio. Por conta disso, já houve gente da Igreja pedindo que o Papa renunciasse. Chegou, mesmo, o fim?

E no entanto, como um clarão ao entardecer, o Papa ainda pode sacudir as multidões e as mentes - como fez no Rio de Janeiro, como fez em Assis. Continua a ser um ícone de primeira grandeza, uma figura de força moral incomparável.

O balanço de um pontificado tão longo não será concluído de um dia para o outro. E se fosse para fazer o "anti-Cornwell", o exercício seria tão fácil como o de colecionar problemas.

Há um jogo dialético na sucessão dos Papas. João Paulo II chegou a Roma num momento em que o impacto renovador do Concílio Vaticano II produzia perplexidades. Tudo parecia possível; podia-se falar, sem exagero, numa "crise de identidade" da Igreja.

Logo se percebeu que o Papa polonês vinha trazer e propor um "retorno às bases" - a uma experiência autêntica da religião; o que, na sua Polônia natal, sempre fora condição de sobrevivência nacional. Neste sentido, a sua aparição naquele ano já longínquo de 1978 foi providencial.

Depois disso, ele dedicou-se a fazer História em alto estilo. Mas, por trás do homem carismático, estava o homem de oração; e daí parece vir uma força imensa. Ele poderia dizer, como Gandhi: "Eu nunca fui outra coisa senão um homem de oração".

Se seu impacto foi grande no mundo tradicional católico, foi ainda maior no Leste da Europa (um dos sentidos mais claros deste pontificado não será a impressionante "incorporação" do mundo eslavo, da Igreja que ficara esquecida do outro lado da Cortina ideológica?). E sem muito esforço ele reuniu, ainda recentemente, um milhão de jovens em Paris.

É isso "culto da personalidade"? Não exatamente: uma figura religiosa só é grande se começa por despojar-se do ego de superfície em que nós investimos tanto. Por isso é que uma Teresa de Calcutá, para citar só um exemplo, consegue fazer coisas que a um comum mortal pareceriam impossíveis.

Poderá um Papa mais "moderno", mais jovem, mudar diretrizes do atual? É possível. A igreja romana certamente se "atualiza" (ou já estaria morta), ainda que não ao ritmo da História profana. Mas há uma diferença entre o pensamento de um Papa e o de um intelectual como Cornwell: é que o pensamento do Papa não é "dele"; é uma tomada de posição que repousa sobre outras bases.

Este é o mistério do papado, e do próprio catolicismo: não é o pensamento de JPII, ou de Pio XII, ou de João XXIII - a não ser nos aspectos acessórios. No núcleo, é algo muito diferente de uma posição pessoal.

É claro que os acessórios contam - e, neste sentido, há uma certa inquietação nas hostes católicas. Até que ponto o Papa envelheceu? Numa hora, ele toma uma posição da maior abertura - como no encontro de Assis. Em outra, avaliza um documento - o "Dominus Jesus" - em que parece negada toda significação ao ecumenismo.

A partir de uma determinada idade, o lado humano pode fraquejar; a retórica pode enrijecer, o acompanhamento da sociedade torna-se mais distante.

Para isso existe a sucessão dos Papas. Um está sempre "corrigindo" o outro, atualizando uma mensagem que vem do fundo dos tempos (assim a bonomia de João XXIII contrastava com a postura hierática de um Pio XII).

O importante, o espantoso, é que, de um para o outro, nunca houve ruptura - nem naqueles tempos loucos da Renascença: o Papa podia fazer tropelias como ser humano; mas a doutrina estava lá, preservada, intocada.

Quer isso dizer que o católico pode ir dormir por que todos os problemas estão resolvidos? Bem longe disso. Cada época tem a sua coleção de problemas - e os de hoje são tão complicados quanto os de qualquer época. O que fazer com as vocações que diminuem, com a família, que muda radicalmente de feição? Onde terminam (ou começam) as linhas de ortodoxia? A doutrina é a mesma: é a que está no Evangelho. Mas ela precisa falar a cada época na sua linguagem própria.

Também essa relação da Igreja com o mundo é altamente dialética; é um diálogo, como o que Deus entabulou com Abraão e Moisés. Não cabe à Igreja "adaptar-se" ao mundo; mas se ela não sabe mais falar no mundo, onde fica o diálogo que é a própria história do cristianismo?

E, ao mesmo tempo, sempre se pode lembrar dos muitos profetas que falaram a verdade e foram apedrejados por causa disso. Por isso é que os velhos gregos diziam: "a verdade mora no fundo de um poço".

Luiz Paulo Horta. Jornalista.

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