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M
A R Ç O
D E 2 0 0 2
Reality
show
Frei
Betto
Sim, quero
ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram
de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir
à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à
tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados
em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto de quimera,
livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões
de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das
grades odiosas dessa existência de penúria anônima,
escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar nem foi aquinhoado
pela sorte.
Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso
de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade,
no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem
toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender
da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará
a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha
indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças.
Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha
alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão
que faz de mim teu pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo
o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem
busca a complacência com seus próprios limites para tentar
encobrir a mesquinhez que me corrói.
Ficarei atento a teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às
tuas refeições, fiel à exposição perene
desse teu ser desprovido de preocupações e conteúdos,
entregue a essa liberdade que faz de ti o que não sou e me permite
projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo
de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão
de todos os valores, como se nos cômodo que te abrigam findassem
todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar
soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica,
meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei
os teus odores e beberei o teu sabor.
Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio
e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu
peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir
os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões
mais abjetas.
Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas
emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico
de luxo, exposto à multidão como carne no açougue,
a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um
jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como
sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te
representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso,
preso ao teu desempenho "huit-clos".
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico,
decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ao condenando-te,
juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração,
deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas
conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração,
agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero
ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas,
até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada
de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe;
o pai assinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não
pode parar e que o seu limite é não ter limites.
Carlos
Alberto Libânio Christo, o Frei Betto. Frade dominicano, escritor,
assessor de movimentos sociais e pastorais.
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