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Genética
e Ética
Newton Freire- Maia

A
Genética é a única ciência que tem ética
em seu próprio nome. Obviamente, isto é mera coincidência
e não tem significação alguma. As ciências
mais novas de que tenho conhecimento (a Astrobiologia, a Genômica
e a Proteômica), nascidas nos últimos anos, não têm
ética alguma, o mesmo acontecendo com as pseudo-ciências
velhíssimas (Astrologia) ou menos velhas (Psicanálise).
Pelo menos no Brasil, a genética também era conhecida, em
alguns círculos, como Heredologia palavra que felizmente
deixou de ser usada, deixando o lugar para o termo já de uso internacional.
E, note-se bem, Heredologia não tem ética alguma...
O aborto provocado é uma forma de assassinato. Infelizmente, a
insensibilidade ética prevalente hoje no mundo forjou razões
capazes de justificar tal tipo de assassinato. Assim como a chamada legítima
defesa, quando não usa meios desproporcionadamente mais eficientes,
discriminaliza um ato que, em outras circunstâncias, seria criminoso,
da mesma forma os últimos decênios, marcados por crescente
globalização, desenvolveram uma série de justificativas
e conseqüente discriminalização para
se provocar o aborto. Uma delas refere-se ao fato de um feto mostrar-se
portador de malformação séria, letal logo após
o nascimento (a anencefalia, por exemplo) ou de forma grave de retardamento
mental com possíveis repercussões físicas (a síndrome
de Down, por exemplo). Esses fatos não servem como justificativas
para a prática do aborto. No primeiro caso, o feto seria assassinado
pelo motivo de que a criança morreria logo depois do nascimento.
No segundo, a razão invocada para o assassinato é ainda
mais sem razão: o afetado, apesar de suas limitações,
pode levar vida longa e feliz, sendo motivo de alegria e felicidade para
seus pais e irmãos.
Sabe o leitor o que significa aquiropodia? Essa palavra, com
tripla origem grega, significa sem mãos e pés.
Designa uma gravíssima malformação congênita
múltipla: as crianças nascem sem mãos, sem antebraços
e sem pés. Na realidade, é um pouco mais do que isso, mas
essa definição simplificada designa razoavelmente bem a
gravidade da situação. As pessoas afetadas, de ambos os
sexos, andam ajoelhadas, com os cotos das pernas voltados para trás
e, não tendo mãos, nada podem segurar com a facilidade com
que os normais o fazem. Mas podem tomar conta de casa, de comércio,
escrever e realizar operações aritméticas, vender
objetos, receber e trocar dinheiro, retirar objetos dos bolsos, riscar
fósforos, acender cigarros, capinar quintais, segurar livros, andar
a cavalo, etc. E podem se casar, ter filhos e cuidar dos filhos!
Trata-se de uma malformação congênita hereditária,
devida a um gene autossômico recessivo. Por isto, muitos dos afetados
são filhos de uniões consangüíneas (em geral,
casamentos entre primos). Quando o antigo Laboratório de Genética
da Cadeira de Biologia Geral (do Professor Doutor Homero Braga) passou
a se interessar pela Genética Humana, um dos nossos projetos de
pesquisa visava às malformações dos membros por falta
ou redução de elementos ósseos. Os nossos primeiros
estudos focalizaram a aquiropodia e seus autores foram, além do
autor deste artigo, o Prof. Dr. Antonio Quelce Salgado e o Dr. Roaldo
Amundsen Koehler. Mais tarde, o assunto tornou-se o foco da tese de doutorado
de meu irmão, Prof. Dr. Ademar Freire-Maia, que estudou exaustivamente
várias famílias brasileiras (do Paraná, de São
Paulo, de Minas Gerais, da Bahia e de Pernambuco) e, assim, realizou um
esplêndido trabalho de investigação científica.
Eu tive a oportunidade de conhecer apenas três aquirópodos
(dois do Paraná e um de São Paulo). O de São Paulo,
relativamente moço, encontrei numa rua de uma cidade de cujo nome
me esqueci. Sentamo-nos em um banco de jardim e começamos uma longa
conversa sobre ele próprio e sua família. Num dado momento,
nem me lembro por que, tive uma idéia idiota a de perguntar
àquele pobre homem pobre, sem mãos e sem pés, se
ele tinha alguma tristeza na vida... E ele, depois de pensar um pouco,
deu-me uma resposta de que não me esqueço até agora,
já passados alguns decênios. Aquele pobre homem pobre, sem
mãos e sem pés, que se locomovia ajoelhado e que me parecia
estar marcado por toda a sua vida, por uma desgraça arrasadora,
respondeu-me:
Tenho uma tristeza, sim! É que as professoras não
me aceitaram na escola para eu aprender a ler e a escrever...
E ele continuou a explicar:
Elas pensavam que, sem mãos, eu não poderia pegar
um livro ou um lápis, mas eu posso, sim...
E, tomando uma caneta que eu trazia, com seus cotos de braços rabiscou
qualquer coisa numa folha de papel. Mostrou que podia ter sido alfabetizado.
E sua tristeza era que continuava analfabeto. Resposta simples que me
tocou profundamente e de que não me esqueço até hoje
e de que não me esquecerei até sempre. Imagine-se uma mãe
com o laudo de um exame ecográfico (sonográfico) de seu
útero:
O seu filho é aquirópodo! O seu filho não
tem mãos e nem pés!
Seria isto uma justificativa para o aborto? Que diria o pai da criança?
E seus avós paternos e maternos? E o tios? E o primos? E a sociedade?
O que pode parecer algo muito grave para uma pessoa que vê a desgraça,
talvez não seja tão grave para quem sofre a desgraça.
A ciência não tem muitas coisas. Não tem pátria,
não tem língua, não tem ética, mas o cientista
tem pátria, usa uma língua e tem ética. Tudo isso
é extra-científico. Extra-científica também
é a música. Extra-científicos igualmente a literatura,
o cinema, o teatro. A pintura e a escultura também. A religião
também é extra-científica.
A realidade das coisas não científicas é tão
importante (ou mais importante) do que a realidade das coisas científicas.
O amor é extra-científico.
Newton
Freire-Maia, doutor pela UFRJ, é professor titular emérito
sênior da UFPR e diretor do Instituto Ciência e Fé.
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