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Jesus,
Pai dos Monges, o Jovem Discípulo Brasileiro, e o Pai Espiritual:
O monge é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seus ombros ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando monges lêem que na hora da sua morte, Santo Antão,primeiro monge, mandou seu manto para Atanásio, todo mundo entende o que isto significa. Os monges do século quarto, o século da explosão do fenômeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitas horas por dia na leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez chegado o tempo de Casiano (séc. 4) , a escolha foi feita.. O primeiro "monge", o progenitor da raça monástica, ia ser Elias- Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo, Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz de Deus como a brisa mansa que segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto como ele, como seu espelho neotestamentário, os monges escolheram a João Batista- não certamente, o neném das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os monges não falavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu próprio rosto espiritual refletido na fisionomia de seguidores de Jesus como Pedro, Tiago e João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito: sabemos que a cristologia dos monges era uma cristologia chamada "alta", isto é, que enfatiza a divinidade de Jesus. Mesmo assim, esta "paternidade mais próxima" de Elias e João Batista necessariamente implica em certas conseqüências. Porque Elias e João Batista, pelo menos como compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escada que levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de "terríveis"- título de admiração, de certo, e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles tocassem. Ningúem nunca imaginou bater um papo com nenhum dos dois. Ora, o tema da palestra a mim pedido é "Ser monge na sociedade de hoje". Eu interpreto este título da seguinte maneira: Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da sociedade de hoje, e especificamente da sociedade atual brasileira? Por um lado, meus pobres cinco anos no país não me providenciam uma intuição muito aguda nesta questão. Por outro lado, tenho a vantagem de pessoalmente viver esta situação como um "desafio existencial". Superior de uma comunidade monástica brasileira, para mim é questão de vida e de morte chegar a discernir a interação exigida entre a sociedade local contemporânea e a tradição milenar monástica, para chegar àquela síntese que a gente chama de " inculturação". Evidentemente, seria absolutamente ilícito falsificar as exigências de monasticismo para agradar aos "fregueses", seria um tipo de morte. Igualmente, porém, seria morte cegar-me ao retrato vivo da sociedade brasileira jovem que eu contemplo em cada um de nossos vocacionados, sociedade que vive à uma imensa distância do Egipto do século quatro. Esta sociedade- aqueles que vêm desta sociedade e aspiram ser monges- precisam de outros pais que Elias e João Batista. Precisam realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na própria carta aos Hebreus, pensa em Jesus como o pai de seus seguidores, e esta tradicão persiste e se manifesta até na regra monástica mais difundida, a Regra de São Bento. Vamos considerar brevemente a paternidade de Jesus para aplicá-la à formação monástica. Para mim, é de grande interesse que o brado de João Batista, "Convertei-vos"- foi assumido por Jesus no começo de seu ministério. Lemos no Evangelho de Mateus que quando Jesus voltou da sua prova no deserto e ficou sabendo da prisão de João, iniciou a sua própria atividade de pregação, dizendo exatamente o que João dizia: "Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo." Parece que Jesus mesmo ia tomar João por seu pai. Só que esta palavra de conversão, ou pelo menos, esta maneira de abordar o tema de conversão, terminou com este primeiro anúncio. Certamente não porque Jesus decidiu que a transformação da vida não o interessava mais. Tranformação da vida, novidade da vida, constituia o núcleo da missão de Jesus. Contudo, em vez de exigí-la como João fazia, Jesus aprendeu que ele estava em condições de comunicá-la. Comunicava-a por meio de curas, de ensinamento (particularmente as parábolas), e sobretudo de perdão: "Teus pecados estão perdoados." Será que foi mais fácil para o pessoal de tempo de Jesus receber a vida renovada do que serem chamados a transformar-se? Acho que não: acho que a nova vida doia dentro daqueles que a aceitavam, que sentiam muitas saudades pela vida velha. Acho que finalmente Jesus não pedia menos do que João Batista. Mas ele criava, gerava naqueles que o seguiam a nova vida que ia depois pedir em prol do seu Reino. Mais ainda, ele implantava esta vida neles da sua própria vida . Cada vez que ele curava, uma força saia dele, e ele sentia a diminuição; cada vez vez que ele perdoava, assumia o pecado em si mesmo e sentia o aumento. Quer dizer, Jesus vivia todo o seu ministério eucaristicamente, infundindo nova vida nos outros, ou melhor, fazendo como que a transfusão de sua vida para os outros. E assim prostitutas, cobradores de impostos, leprosos e soldados chegaram a uma auto-doação que João Batista nunca poderia ter provocado neles. Podemos afirmar, então, que Jesus antecipava durante o seu ministério a intuição fundamental de Paulo na Carta aos Romanos: a humanidade não se salva através das chamadas da atenção. Uma humanidade desfigurada pelo pecado, alienada do Deus que fala nas profundezas da consciência, só se entristece e se endurece ao ouvir mais um apelo de ser diferente do que é- ou, em termos da teologia paulina, de enfrentar a Lei. Somente perdão gratuito, amor abundantemente derramado da própria fonte de amor- quer dizer, Graça,- tem a possibilidade de restaurar o homem. Garantia não tem nenhuma- é possível que o amor divino caia às vezes, muitas vezes até, num solo pedragoso, para morrer lá e apodrecer lá . Mesmo assim, é a única chance. II. Os Jovens de Hoje Os jovens que vêm buscando a vida monástica hoje em dia são pessoas admiráveis. Além de um grande idealismo que eles quase sempre trazem para o mosteiro, chegam com uma generosidade transbordante, um desejo de experimentar a Deus e uma esperança de viver numa comunhão de amor fraterno. Mas também chegam carregando um jugo pesado de sofrimento e de potencialidades ainda adormecidas ou despertadas apenas para tornar-se frustradas novamente. Vêm com grande frequência de situações de casa marcadas por todo tipo de abuso,negligência e fracasso. Vêm de lares pobres que não permitem o desenvolvimento normal de suas capacidades intelectuais, sociais, ou artísticas. Vêm de famílias onde não há livros ou instrumentos músicais. Vêm de ambientes onde experimentavam muito e sentiam muito, mas nunca aprendiam refletir sobre a própria experiência e ainda menos dialogar sobre ela. Vêm de pequenos mundos de criança onde as figuras de autoridade com as quais viviam- o professor, o patrão- nem sempre mostravam para eles a paciência e a bondade que faziam parte do seu cargo, que deveriam ter feito parte do seu repertório como adultos. E por tudo isso os jovens chegam ao mosteiro muito, muito inseguros. Que sentido faria, portanto, de assumir o tom de um São João Batista com estes moços? Há um trabalho enorme a ser feito, sem dúvida, tanto por eles quanto por aqueles que têm o privilégio de atuar como mestre de noviços ou superior. Mas este trabalho começa muito quietamente, e por sua natureza progride muito devagar. |