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Jesus, Pai dos Monges, o Jovem Discípulo Brasileiro, e o Pai Espiritual:
Tornar-se monge na sociedade secular de hoje


Bernardo Bonowitz,OCSO
Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
(Campo do Tenente)

III . A Vida da Mente

Vamos olhar primeiro para um tema relativamente simples: a formação intelectual do novato. Existe toda uma tradição a ser assimilada, uma tradição riquíssima, alias: a Bíblia, os padres da Igreja, os padres primitivos monásticos, os padres cistercienses de nossa ordem (século XII), a teologia sistemática, sacramental, moral, etc. Houve um momento em que eu achava que a dificuldade da assimiliação baseava-se na grande sofisticação e abrangência desta tradição. Agora sei que isto é o de menos. Em certas condições -disto sou testemunha repetidas vezes-, uma pessoa com pouca formação intellectual é totalmente capaz de entrar no mundo dos padres com compreensão, delicadeza e sim, prazer ( Ser testemunha deste encontro é ao meu ver uma das grandes alegrias da minha vida.). É trágico, sim, que o brasileiro comum recebe uma formação que pouco corresponde com sua inteligência inata. Mas dá para dar uma consertada nisso no mosteiro; afinal, temos livros e temos professores. Então, não é este o problema. O problema é que por falta da experiência ou por experiências negativas, o livro, a aula, a biblioteca, o professor incutem medo. O jovem não sabe que ele tem gosto de ler; ao contrário tem provas que não. Além disso, se ele lia antes, era sempre assunto de utilidade (ganhar o pão) ou diversão. O que fazer com uma leitura poética ou filosófica, cujo valor reside na própria beleza ou simplesmente numa aproximação maior da verdade?

Vemos assim que trata-se aqui de algo bastante básico e precioso: a descoberta do intelecto. Na minha última palestra para esta assembleia augusta (se assim se diz!), falei sobre a experiência exuberante do monge cair no mundo bíblico, de sonhar e depois acordar como um personagem a mais na história da salvação, tendo como companheiros Daví, Ester, Daniel, Pedro. Imaginem, portanto, o que pode significar acordar dentro da própria mente! É uma experiência mais cartesiana do que aquela de Descartes. Seu "Cogito, ergo sum"representava uma tentativa de estabelecer inabalavelmente sua existência por meio de sua consciência reflexiva. Aqui, porém, estas mesmas palavras exprimem um estalo, ao mesmo tempo de espanto e alegria. Penso, reflito, leio, entendo- e então sou, sou outro e mais do que jamais imaginava.

Será que uma tal descoberta vai acontecer somente pela leitura programada dos padres e dos teólogos? Duvido. Cabe ao formador pôr mais ingredientes na sopa, imitar a Jesus que sempre encontrava um vinho novo para botar nos odres novos. No caso ao qual estou me referindo, os odres seriam as mentes dos jovens. E o vinho novo? Um livro de poesias, um romance histórico de Alencar, uma sonata literária de Érico Veríssimo, as cebolas e pimentas de Machado. Inseparável desta tarefa é a de acompanhar o jovem em sua leitura. Além de comunicar ao noviço seu verdadeiro entusiasmo para as obras primas da espiritualidade monástica, reler com ele os livros que faziam a glória de sua própria juventude, sentir nova- mente o que sentia quando viajava sentado no lombo do burro ao lado de Dom Quixote, combatendo contra os moinhos de vento. O livro é o companheiro para a mente, certo ; mas a mente jovem tem necessidade de companheiro vivo para compartilhar com ele o seu alvoroço. E se o mestre questiona-se sobre este procedimento de dar espaço à leitura "profana" , que ele pense no escriba sábio do Evangelho que sabia tirar de seu armazém coisas velhas e novas. Minha experiência me ensina que uma preocupação excessiva neste assunto atrapalha mais do que protege. O jovem com tempo vai sentir-se atraido à beleza da literatura mística e patrística da Igreja, e seu contato com a literatura nacional e universal vai formar nele uma sensitividade ao enredo, caracterização, imagem e tema que só pode enriquecer sua lectio da Bíblia e dos escritos dos santos padres e madres.

IV . O Encontro com os Sentimentos

Tenho falado, então sobre a bem-aventurança de conhecer o mundo de livros. Segundo Orígenes, fundador da corrente da teologia mística cristã (século III), a suma bem-aventurança reside no conhecimento de si mesmo. Com isto ele quer afirmar que o "self" é o sacramento primordial de Deus que cada um de nós recebe. Simplesmente existindo, possuimos em nós mesmos uma reflexão perfeita da Divindade, em cuja imagem nós fomos feitos. Aquele que consegue ver fundo em si, vê além de si, vê o Deus trino cuja força e saberdoria formam a base do próprio ser. De um certo modo, cada homem e mulher tem direito de aplicar a si mesmo as palavras de Jesus, "Quem me vê, vê o Pai."

Esta visão à qual o monge é chamado (junto com todos os outros seres humanos) não é automática. Necessita um longo processo paralelo ao despertar do intelecto, isto é, o despertar da afetividade. E aí encontramos mais um desafio particularmente puxado para os nossos jovens.

Aqueles jovens brasileiros que vêm ao mosteiro levando nas costas o peso de seu passado sofrido não tem muito interesse em viver o primeiro passo desta subida/descida para a descoberta da sua identidade radical de filho de Deus. Qual é este primeiro passo "impulável"?

A apropriação da própria história de dor, fracasso e insegurança, uma apropriação que faz se sentir à flor da pele. Sem falar em fuga, o qual seria um termo injusto, o jovem pobre, ou subdesenvolvido de uma ou outra maneira, ou negligenciado, olha com desejo para o mosteiro como um lugar de felicidade. Se ele quissesse ficar mergulhado em seus problemas, poderia ter

permanecido no mundo. Ele busca a Deus, isto sim, mas ainda não busca a cruz de Cristo. Aquele que já carrega a cruz da sua vida não precisa a cruz de outrém.

Em pouco tempo porém dá para ver que para a pessoa sofrida todo lugar mesmo o mosteiro é um lugar de sofrimento. De fato, para tal pessoa, só tem duas possibilidades: consciência- a qual por enquanto vai ser necessariamente dolorosa- e distração: a tentativa de não conhecer a si mesmo à medida que este conhecimento implica dor. O maior desafio de todos, portanto, nos primeiros anos da vida monástica é deixar-se experimentar conscientemente a carga da dor que a gente levava inconscientemente fora. E "experimentar" no sentido mais forte da palavra: receber de novo os socos, os traumas que a vida ia distribuindo, sentir de novo o choque, a decepção, a culpa, o ódio que eles causavam, e reconhecer uma vez por todas que estes acontecimentos nunca vão ser apagados do livro da vida. Por isto, eu costumo dizer a respeito da questão de "fuga para o mosteiro": Pode ser que cada um de nós fugiu para o mosteiro. Que seja assim. Não importa. O importante é não fugir dentro do mosteiro, não fugir desta responsibilidade fundamentalmente humana de sentir.

É tempo de refletir novamente sobre o papel do mestre, do pai, como alguém que comunica vida, em memória de Jesus. Ele não pode simplesmente exigir do jovem vivendo este horror (realmente- este trecho da vida monástica é um horror) de aguentar, fazer pé firme, e quaisquer outros conselhos que constituem um afastamento afetivo do "assaltado". Esta seria a fuga do mestre, e uma fuga imperdoável. O mestre tem que assistir, por mêses...anos, à tribulação do seu filho. Tem que sentir algo da mesma raiva, chorar as mesmas lágrimas, sofrer a mesma incompreensão diante das injustiças e sujeiras jogadas encima do jovem às vezes por muitos anos. E não pode neste momento assumir a linguagem da razão para dizer, "Mas sabe, rapaz, todo mundo passa por tais pedaços". O problema com todos os amigos de Jó é que todos tinham doutorado em filosofia.Falavam demais. Faltava alguém que só ficava junto com Jó não tentando nem compreender nem comentar, alguém que superava seu medo de enfrentar em Jó a irracionalidade de sofrimento, alguém que sabia calar-se. No Novo Testamento encontramos este silêncio absolutamente necessário em Jesus ao túmulo de Lázaro, e em Maria, ao pé da cruz de Jesus. Como é que o mestre vai poder viver isto, talvez com cinco, seis, sete jovens à uma vez? Tem que ser ele mesmo um homem das dores. Vai precisar muito a consciência de suas própria dores como base de seu silêncio.

Ao mesmo tempo, o jovem não pode ficar vítima. Não foi por isso que Deus o trouxe para o mosteiro, simplesmente para chegar a medir o mar de sua dor. Ele tem vocação de ressuscitado, de passar por todos os quartos da sua interioridade e finalmente dar-se com o espelho na parede onde ele contempla-se a si mesmo como imagem de Deus. O novo mandamento de Jesus, pelo menos o mandamento mais frequentemente enunciado por ele, é "Levanta-te". Este "levantamento" faz-se por uma experiência muito paradoxal, mas de valor ilimitado. É uma experiência de compreensão, de percepção espiritual tímida, através da qual o jovem começa a conhecer-se como radicalmente fundado e seguro em Deus. Se a gente pudesse imaginar o significado último da frase "são e salvo", a gente teria uma ideia desta graça. Muitas vezes esta iluminação realiza-se num momento de oração depois de um período de grande tensão interior; outras vezes, parece que o jovem ouve seu nome pronunciado (por quem? Não sabe direito) carinhosamente- como se o seu nome fosse uma carícia. De qualquer modo que seja, representa o primeiro instante da verdadeira contemplação. Pela primeira vez, a pessoa humana reconhece - em si, unido a si, não diferente de si - Aquele de quem ele é o sacramento.

Não é o mestre que comunica esta intuição, que não é sugestão de fora, mas certeza brotando de dentro, aquela certeza que somente Deus é capaz de produzir. Mas o mestre tem a tarefa de confirmar o que o jovem vê passageiramente, num triz de densidade ontológica enorme. Se é possível falar de uma certeza fraca, é isto que o jovem conhece a respeito daquilo que viu ou ouviu no momento inesquecível de descobrir a própria identidade em Deus. O mestre tem que testemunhar por suas palavras, seu sorriso, o respeito com o qual ele presta atenção às reflexões do jovem, que este jovem é uma nova criatura em Deus, e que tudo aquilo que ele passou não o destruiu, não podia destruí-lo, porque em Deus ele é imortal. Pode ser que o próprio mestre esteja passando por uma época difícil. Neste caso, que ele liberte-se de si mesmo. Seu chamado agora é de ser testemunha da ressurreição. Segundo os evangelhos, de nada mais se duvida do que da realidade da ressurreição. Deste acontecimento inesperado e totalmente impar na vida do jovem o mestre tem que ser o pregador infatigável. "Vi o Senhor!...em ti."

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