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Jesus, Pai dos Monges, o Jovem Discípulo Brasileiro, e o Pai Espiritual:
Tornar-se monge na sociedade secular de hoje


Bernardo Bonowitz, OCSO
Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
(Campo do Tenente)

VII. Conclusão

"Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas o que é psíquico; o que é espiritual vem depois." Assim fala São Paulo na sua primeira carta aos Coríntios (15:46). Nos últimos anos fala-se muito entre formadores sobre a necessidade de uma forte base humana como pré- requisito para uma vocação religiosa. Onde falta a maturidade afetiva, diz-se, falta a esperança para o desenvolvimento saudável do vocacionado. Estou totalmente convicto da importância de tais elementos humanos no processo de crescimento e transformação dos jovens; por isso decidi tratar os temas que consideramos nesta palestra em vez de refletir sobre jejum, vigílias e salmodia. Mas quando estas condições prévias não existem, e esta privação não se refere a um ou dois casos mas a quase todos, se não a todos, então como proceder? A gente pode fechar a loja ("close shop"), ou a gente pode rever o projeto e dizer com São Paulo, "Primeiro o psíquico e depois o espiritual". Mas não o psíquico como missão cumprida antes da entrada no mosteiro; antes os dois feitos juntos no mosteiro . Será que este representa um projeto realista?

Como vocês já percebem, minha posição é que tal processo duplo é possível, mas somente quando o monge formador ( o superior, o mestre dos noviços) identifica-se mais com o modelo de formação de Jesus do que aquele de João Batista. Como sempre, o mistério chave é a Encarnação : a descida alegre e amorosa ao nível do outro para estar com ele lá, e de lá , pela força quieta da autodoação, fazer o outro subir. Recentemente, num encontro de um pequeno grupo dos superiores reunidos para estabelecer a agenda para nosso próximo Capítulo Geral, uma abadessa me perguntou, "E então? Como vai a batalha?" "Madre", respondi, "às vezes quando olho para os meus monges, não os acho onde esperava encontrá-los, mas num ponto mais baixo, mais necessitado." "E o que faz?" "Eu vou lá onde eles estão, e começo lá de novo. Agora, eu sei que isto vai acontecer muitas vezes. Mas não importa. O que importa é ir para onde eles estão e começar de novo. Um dia vamos todos chegar juntos no fundo do poço, e depois vamos subindo." "Pois é", disse ela. "Se eu não pensasse assim , não haveria monjas."

Quando São Bernardo busca a imagem certa para a Encarnação e sua necessidade, ele a descobre na história do profeta Eliseu e o menino. Eliseu tinha feito a bobagem de prometer um filho a um casal estéril. A senhora não quis, não acreditou muito, talvez presentisse dificuldades futuras. O profeta insistiu. No ano seguinte nasceu um menino e por doze anos tudo ia bem. Um dia o menino trabalhando com seu pai na lavoura queixou-se de enxaqueca. O pai o levou para a casa mas o menino morreu ainda nos seus braços. Desesperada, a mãe mandou chamar o profeta que em vez de comparecer imediatamente enviou seu servo junto com seu cajado profético para tocar no menino. Isto não produziu efeito algum. Agora, enfurecida, a mãe quase voa no caminho para a casa do profeta, com o pensamento, "Este menino foi ideia sua."Eliseu já estava no caminho para a casa do casal. Chegando lá, ele sobe para o quarto onde o menino jazia e fecha a porta. À sós com a criança morta, ele deita-se encima do cadáver, suas mãos sobre as mãos dele, seus pés sobre os pés dele, seus olhos sobre os olhos dele, sua boca sobre a boca dele, como o livro dos reis conta em grande detalhe. " Então", como diz a Bíblia com o toque mais caseiro imaginável, "o menino espirrou, e abriu seus olhos". E o profeta o devolveu a sua mãe. Assim agiu Jesus com a humanidade necessitada, diz São Bernardo, "encolhendo-se e adaptando-se à nossa pequenez". Assim tem que agir o mestre com os jovens que Deus manda para sua comunidade. Se não, por que chamá-lo de "pai espiritual"?

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