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Meu amigo Papa
Alzeli Basseti

A longa e comovente história dos encontros
entre o presidente socialista ateu Sandro Pertini
e o Papa Karol Wojtyla, chefe da Igreja Católica.
Os dois amigos souberam somar as igualdades
- ambos foram heróis de lutas maiúsculas -
e subtrair as diferenças. Conheça um pouco da vida
desses dois que foram dos mais dignos
e influentes atores do mundo contemporâneo.


O Papa e o presidente esquiam amigavelmente em Adamello, em 1984.
Entre ambos brotou uma amizade profunda feita de contínuos encontros,
um vínculo exemplar firmado entre o socialista ateu e o chefe da Igreja
Católica provando que onde há lealdade não se instalam barreiras.

Em Roma, pouco depois das oito horas da manhã, o Papa toma conhecimento da morte daquele a quem sempre se referia como "amigo Pertini". Quem dá a ele a dolorosa notícia é Francesco Cossiga, pelo telefone, quando o Sumo Pontífice retornara de uma visita à história Fontana di Trevi. Cossiga estava cumprindo o compromisso anteriormente assumido com a viúva do falecido Carla Voltolina que, por sua vez, fazia valer um dos últimos pedidos do marido já ao leito de morte.

Karol Wojtyla visivelmente consternado manda um telegrama de condolências a Cossiga, lembrando o Pertini Estadista, mas especialmente o grande e fiel amigo que, "desde o início de meu pontificado ofereceu-me cordial amizade, comprovada antes, durante e depois do atentado que inesperadamente me vitimou, e que veio a tornar-se meu companheiro, dispensando-me em todas as ocasiões inestimável atenção e perene solidariedade".

Palavras permeadas de verdade, absolutamente sinceras, de vez que entre o Papa polonês e o presidente italiano foi-se firmando através dos anos uma legítima amizade, pontilhada de longa série de visitas mútuas e encontros gratificantes, longe dos fiscalizadores e sempre formais olhares oficiais. Tanto que numa dessas ocasiões fortuitas, Pertini confidenciou ao Papa - que mais tarde abordaria o assunto numa de suas audiências públicas -, que, de tanto a mãe ter rezado por sua conversão ao catolicismo, ele, como bom filho, chegara a conviver um bom tempo no convento dos salesianos.

Em outra ocasião, Pertini confidenciou ao Papa que, diante de certas opções políticas graves, costumava buscar auxílio na própria consciência. "Mas não esqueça que também a consciência é transcendência", replicou João Paulo II. Por duas vezes o Papa e o presidente haviam já se encontrado. A primeira em 1978, logo depois da eleição do primeiro ao trono de São Pedro. A outra em 1979, numa cerimônia oficial em que um representava o país e outro a Igreja. Encontros formais, suficientes para quebrar o gelo. Foi, porém, no atentado cometido por Ali Agca, precisamente a 13 de maio de 1981, que um vínculo forte se estabeleceu entre eles, a ponto de aprofundar-se e permanecer indelével até a morte de Pertini.

 
Dizia o telegrama a Cossiga:
"Nossa amizade era forte e profunda".
 

Tão logo foi informado sobre o atentado que vitimou e deixou seqüelas no Papa, Sandro Pertini dirigiu-se pessoalmente à Policlínica Gemelli, onde estava o amigo, àquela hora submetido a uma cirurgia de grande risco. Cerca de quatro horas permaneceu o presidente no estabelecimento hospitalar, confortando os discípulos mais chegados ao Papa, até certificar-se do resultado positivo da operação. No entanto, foi impossível falar com o amigo, nem mesmo vê-lo. Voltou à Policlínica no dia seguinte, um 14 de maio que impactou o mundo inteiro, voltou noutro dia e noutros mais, até o dia 22, quando finalmente obteve permissão médica para chegar à cabeceira do Papa. Este, comovido, agradeceu amistosamente tamanha deferência e tão comovente demonstração de apreço.

Depois, com a gratificante recuperação do Papa, Pertini convidou-o para uma visita a Castelporziano, residência presidencial de verão. O encontro, realizado a 19 de outubro de 1982, foi bastante informal. Os dois almoçaram sem qualquer cerimônia e ficaram papeando até a noitinha. No mesmo ano, os dois voltaram a se encontrar em várias solenidades oficiais, nas quais mantinham conversa alegre e inteligente, reciprocamente amigável aos olhos de testemunhas. O 16 de julho de 1983 marcou o convite indeclinável de Pertini para que ambos passassem as respectivas férias em Adamello, tirando proveito da neve profusa do local. A sugestão foi de pronto acatada pelo Papa. A foto dos dois esquiando juntos, um amparando o outro, correu o mundo, que viu também um Pertini com expressão um tanto quanto perplexa diante de um Wojtyla tirando de letra e cheio de graça a difícil arte de esquiar. Daquele dia em diante Pertini não perdia oportunidade para elogiar a destreza e a bravura do "amigo Papa".

Os felizes encontros dos dois não ficaram abalados com o fim do mandado presidencial de Pertini. A 23 de março de 1987 porém o Papa, que por várias vezes citara o amigo publicamente, fez menção à doença que se abatera sobre Pertini e o havia obrigado a submeter-se a uma cirurgia das coronárias. A princípio referiu-se ao amigo em cerimônia pública com muito afeto, solicitando aos fiéis orações. Depois, passados dois dias da cirurgia, foi visitá-lo pessoalmente no hospital. Ali, junto à esposa de Pertini, permaneceu por vinte minutos, rogando a Deus pela franca recuperação do amigo.

Era chegada a vez do Papa empreender seguidas visitas ao presidente, com alta camaradagem e solidariedade. Pertini restabelecido voltaram os contatos telefônicos e os encontros nunca de fato interrompidos. Quando Pertini exercia a presidência, o próprio Papa ligava para congratular-se, ora por um discurso politicamente correto - como o que foi feito no 1º de janeiro de 1986 -, ora por um discurso ético ou por data relevante. Quando Pertini completou 90 anos de uma existência digna e vibrante, o telefonema pontual de João Paulo II deu-lhe novo ânimo para ir em frente. Existem outros episódios que merecem menção. Há algum tempo Pertini encontrara em Milão o arcebispo Martini - que ainda não chegara a cardeal - e equivocadamente chamou-o de "eminência". Humildemente e um tanto desolado, Martini respondeu-lhe que tão nobre título não era por ele sequer imaginado. Pertini não se deu por achado: "Não se preocupe, falarei a respeito com meu amigo Papa".

Assim era Sandro Pertini: solidário, franco, generoso. Quando da cirurgia por que passou, entre telegramas de todas as facções políticas da Itália e de além-fronteiras, destacou-se um, do Cardeal Casaroli que, nos anos fascistas, havia sido condenado ao pelotão de fuzilamento pela prática de atitudes "subversivas" e não havia sucumbido à pena unicamente pela intervenção direta de Pertini que pessoalmente se dirigira a Savona - local da execução - tão logo tomara conhecimento de sua captura. Portanto, não só processos, prisões, atentados, ameaças e riscos à integridade físico-afetiva enriquecem a biografia de Sandro Pertini, na vitoriosa luta pelas liberdades e direitos humanos, contra o nazifascismo. Por isso a solidariedade política não lhe era incomum.

Em abril de 1929, foi transferido juntamente com companheiros da resistência para a Penitenciária Regina Coeli, mas ficou pouco tempo. Em novembro do mesmo ano foi condenado por um Tribunal Especial a dez anos e nove meses de reclusão, somados a três anos de vigilância contínua em função da prática de atividades subversivas. A condenação não o abalou. Muito ao contrário. À voz de prisão retrucou no mesmo tom com um "Viva o Socialismo", atitude que provocou o entusiasmo de um dos guardas incumbidos de prende-lo. Devido a esse brado, julgado ultrajante pelos homens do Duce, Pertini foi remanejado para a Penitenciária de Santo Stefano, tristemente célebre não apenas pelas celas sombrias e inóspitas, mas também e principalmente pelo rigor da segregação e da violência dispensada aos detidos.

 
Raras vezes na história da humanidade
Estado e Igreja usufruíram e espargiram
tanto calor humano.
 


Pertini ali permaneceu até dezembro de 1931, quando foi comunicado ser portador de grave infecção pulmonar: a tuberculose. As autoridades fascistas se viram obrigadas a manda-lo sem demora para o que comumente era chamado de cárcere hospitalar, na província de Bari. Ali, também convalescendo, se encontrava um dileto companheiro de fé e de grandes jornadas: Gramsci. Ambos eram tratados fria e brutalmente mas jamais se intimidaram ante provocações e ameaças dos militares. Angustiada pelas más notícias que lhe chegavam aos ouvidos por terceiros, a mãe de Pertini foi pessoalmente falar com o presidente do Tribunal Especial, rogando misericórdia ao filho. A iniciativa provocou a ira de Pertini que, tão logo soube do fato, tratou de escrever do próprio punho àquela autoridade, afirmando categoricamente que não compartilhava do pedido feito pela mãe. À ela, Sandro Pertini redigiu uma carta incisiva, dizendo que a mãe "o humilhara" profundamente, marcando um capítulo vergonhoso em sua ilibada carreira política, à qual amava como a própria vida.

Não se tratava de vã retórica. Na Itália de Mussolini, Pertini realmente se orgulhava de sua condição de resistente, dissidente, detido, perseguido. E quanto mais as autoridades procuravam espezinha-lo e diminuí-lo, tanto mais se sentia fortalecido em sua condição política. A fidelidade à causa e a bravura demonstrada no enfrentamento ao Poder armado faziam-no respeitado pelos co-cidadãos e temido pelas autoridades. A firmeza de espírito e a dignidade de comportamento permitiam-no suportar um cárcere de fronte erguida, um cárcere que costumeiramente fazia enfraquecer e abalar inúmeros cidadãos aparentemente firmes e sadios.

Após sete anos de reclusão, no decorrer do ano de 1935, Pertini foi gratificado com uma espécie de anistia. O governo sentia-se fraco ante o senso comum, havia rejeição e repúdio por todos os lados. O fiel socialista tratou de integrar-se a um grupo de resistentes que produzia um jornal de oposição franca, denominado Psiup. Foi esse grupo que viabilizou a ida de Pertini a Milão, onde mais exacerbada era a luta contra o nazifascismo. Um amigo dileto, Saragat, companheiro de grandes embates, indagado mais tarde sobre um perfil correto de Sandro Pertini para jornais estrangeiros, assim definiu: "Era um bravo pois tinha conhecimento pleno do alto risco que diuturnamente enfrentava; o perigo, porém, lhe era totalmente indiferente. Testemunhei naqueles longos dias o que é ser verdadeiramente um herói da pátria".

Reconvocado para integrar-se a Roma do amigo Nenni, Pertini solicitou um tempo para dirigir-se antes a Florença. Lá, chegou na justa hora em que ainda era disparados os últimos golpes contra os "tedeschi" em fuga, chegando inclusive a redigir de improviso no já então famoso jornal Avanti! Um número especialmente dedicado à vitória final. Ele mesmo, em plena euforia, tratou de distribuir exemplares entre os companheiros, tomados de total alegria. Finalmente em Roma, Pertini voltou à secretaria geral do Psiup, colaborando decisivamente para aparar querela que separava dois homens, os quais lhe eram particularmente caros: Nenni e Saragat. Como Pertini heróis da primeira e de todas as horas da Resistência. Compreendia como ninguém os motivos que haviam levado Saragat a romper com Nenni, mas alegava que acima de tudo deveria estar a unidade partidária, um valor que estava acima de qualquer outro pois envolvia a pátria amada. Não cansava de repetir que a cisão, fosse ela de qualquer amplitude e profundidade, seria certamente madrasta à Itália.

Sandro Pertini permaneceu na redação cotidiana do Avanti! De 1945 a 1953, sem todavia mumificar-se já que, por temperamento, não era homem de acomodações, de tiradas divisionistas ou de "igrejinhas", no jogo político do Poder. Foi na década de 50 que ele deu início à épica carreira política, elegendo-se a partir daí e sucessivamente para o Parlamento sempre com ampla margem de votação.

 
Tudo começou com as sistemáticas visitas pessoais ao pontífice ferido por Agca. Dali em diante a amizade foi solidificada pelas jornadas de esqui e finalmente pela presença papal na fase terminal do presidente.
 

Elegeu-se presidente em 1968, sob aclamação popular e parlamentar, carregado efusivamente pelo povo italiano. Sete anos depois pensou em colocar um ponto final na brilhante carreira ao envolver-se em áspera polêmica com os funcionários do Montecitorio que, afinal, nem lhe diziam respeito diretamente. Justificou o contundente confronto dizendo: "Sempre entendi que quem ocupa certo posto de importância e um mandato de representatividade deva enfrentar situações de risco em pessoa, nunca entrincheirando-se por trás dos outros". Estava ferido emocionalmente e bastante angustiado ao deixar o palácio presidencial, demonstrando a mesma imprevisibilidade que o caracterizava. Foi para Leonid Breznev a primeira mensagem enviada, pronunciando-se inclusive totalmente a favor dos dissidentes. A primeira visita fora do cerimonial foi feita ao Papa VI, então em fase terminal da doença. Com a incrível capacidade de conciliar e de harmonizar tanto comportamentos públicos como sentimentos privados daqueles que nele buscavam apoio, daquele homem de 82 anos muitíssimo bem vividos jorrava uma vitalidade contagiante.

Por isso continuou a ser a referência maior para a gente simples à qual orientava, reconciliando-a a sem traumas com a classe dirigente. Esta, ele sabia tornar mais humilde e receptiva. Sandro Pertini restituiu a ambas indubitavelmente a esperança de fazer da Itália um país moderno, ordeiro, democrata, polido, bem organizado.

Personalizou sobretudo a vontade dos italianos de resistir ao terrorismo e, em troca, ofereceu a imagem de uma verdadeira República. O Quirinal com ele voltou a ser uma instituição dotada de credibilidade porque, conforme descreveu O Economista, "Pertini soube como elevar uma simples casa de repouso para os políticos às alturas de uma monarquia contemporânea". Aqueles que não o amavam por causa da aparência um tanto altiva e ressentida, da sua intemperança verbal, da eterna busca de apoio junto ao cidadão comum, das crises de humor ou da tendência ao improviso, não podiam deixar de estimulá-lo pela devoção à pátria, pela integridade e visceral honestidade, pela fraqueza, pelo passado antifascista, pela brilhante e irretocável carreira política e pelo homem que soube ser, sempre dignificando a condição humana.

Não é de admirar, pois, que Sandro Pertini e João Paulo II - o presidente e o Papa - tenham firmado amizade tão bela e tão pura como os lírios do campo.

Alzeli Basseti, escritora, é vice-presidente do Instituto Ciência e Fé.

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