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Eu vou gritando: paz, paz, paz
Alzeli Bassetti

"Qual é o princípio fundamental do budismo?" perguntou o sábio ao santo budista. Este respondeu: "O princípio fundamental do budismo é deixar o mal e aprender a fazer o bem". Retrucou o primeiro: "Não vos pedi que me dissésseis o que qualquer criança de três anos sabe. Desejo que me digais qual é o mais profundo, mais sutil, mais importante preceito do budismo". O santo confirmou o que havia dito e completou: "É verdade que uma criança de três anos pode refutar o mal e fazer o bem, porém homens de cabelos brancos vêm se provando incapazes de colocar esse preceito em prática". A história da humanidade é a saga do bem e do mal, sem que um e outro seja privilégio ou pecha de determinado povo, raça ou região. Assim, atribuir o terrorismo ao suposto atavismo de um povo é racismo.

Por terrorismo entende-se certo modo de agir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, impondo-lhes a vontade pelo uso sistemático de terror. Politicamente, é uma forma de combater um poder estabelecido opressor mediante emprego da violência. Miséria, autoritarismo e parca perspectiva de mudança compõem o caldo no qual floresce o radicalismo que compele ao terror. Urbano ou rural, reivindicando independência ou separatismo, sob capa de religião ou de doutrina, escancarado ou sub-reptício, o terrorismo sempre esteve presente na história humana. A ele têm recorrido radicais dos EUA, do país basco, da Irlanda, da Alemanha, da Nigéria, do Japão, do Chile, da Colômbia, e a milícia fundamentalista islâmica do Taleban. Um dos fundamentos éticos da Política é não qualificar de terrorista, portanto, somente um povo ou país.

Outro mandamento de igual relevância é não aplicar o maniqueísmo na análise de fatos, satanizando uma das partes do conflito e endeusando outra. Mal e bem são inerentes à condição humana e não premiam uns nem punem outros ad aeternum. Torna-se, assim, injusto e abominável pregar uma "cruzada" contra o terrorismo, escolhendo certos povos entre os demais, arrostando no desvario todos aqueles que abrigarem terroristas. Nem os EUA escapariam desse pretenso karma. Os efeitos desse non sense, eivado de orgulho ferido, já se fazem sentir neste day-after dos EUA em que árabes, brasileiros, caribenhos, africanos e outros não tão loiros nem de olhos tão azuis sofrem discriminação e agressões.

Estabeleça-se prioristicamente o primado da paz sobre qualquer forma de violência. E renegue-se com a mais enfática repulsa o terrorismo de qualquer jaez, recurso sempre injustificável. A hecatombe provocada em solo dos EUA por atos terroristas é o capítulo mais grave da contenda entre Palestina e Israel, a espiral sangrenta que vem ceifando vidas civis de gerações, através do terrorismo crescente, praticado pelas duas partes. Não há terrorismo novo, há o recrudescimento e a adequação do antigo. A diferença é que esse capítulo foi cumprido em solo estadunidense, contra os símbolos político, econômico e militar da nação mais poderosa, que teve escancaradas sua vulnerabilidade e fragilidade. A dissolução da URSS paradoxalmente foi nefasta aos EUA, já que a falta do contraditório fizeram-lhe perder a noção dos limites e o equilíbrio necessário a um país líder mundial.

É preciso dizer não à retaliação. É preciso dar uma chance à paz. Somente um estadista com visão macro terá capacidade para detectar no atual conflito a gravidade da intolerância, o choque de civilizações, as questões cultural e religiosa, a prioridade da paz mundial sobre o brio de qualquer povo. Um líder pertinente ao momento terá que mirar na história. Verá que na Antigüidade a Política dos Imperadores e do Senado romanos, no que se referia às religiões, refletia de modo sábio os conceitos dos doutos e os hábitos dos supersticiosos. As muitas formas de adoração eram consideradas pelo povo como igualmente corretas, pelos filósofos como igualmente falsas e pelos governantes como igualmente úteis. Os romanos que imploravam o Tibre não hostilizavam os egípcios que imploravam o Nilo.

Tal era o espírito tolerante que os gregos, romanos e bárbaros estavam convictos de adorar os mesmos deuses, embora sob diversificados nomes e cerimônias. Reverter o clamor por retaliação em trabalho pela paz é a missão de G. W. Bush. O terrorismo conseguiu o que parecia impossível: integrar a nação, habitualmente fragmentada. Por fim, cabe à ONU convocar para a construção da paz universal, que se realizará um dia não porque os homens se tornarão melhores, mas porque uma ordem nova, uma ciência inovadora e maiores necessidades econômicas hão de impor-lhes o estado pacífico, tal como outrora suas próprias condições existenciais os colocavam e os mantinham no estado de guerra. A opção pelo "olho por olho", condena todos à cegueira e extingue a concretização desse ideal supremo.

Alzeli Bassetti, escritora, vice-presidente do Instituto Ciência E Fé.

Artigo publicado na Gazeta do Povo, Opinião, em 24 de setembro de 2001

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