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Alzeli Bassetti. Vice-presidente do Instituto Ciência e Fé e escritora. |
Opinião Alzeli Basseti
"No dia dezessete do sétimo mês a arca repousou sobre as montanhas do Ararate" (Gênese, 8,4). Coube ao íntegro Noé a incumbência de capitanear o desígnio divino para livrar da perversão e da violência a humanidade de então. Como prescrito, o patriarca construiu uma arca de madeira resinosa, tendo o cuidado de calafetá-la com betume interna e externamente. Foi fiel aos 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura, preservando um para encimá-la. Adentrou nela com a grande família genérico esclarecedor de todos dotados de boa-fé , pela entrada à lateral, e tratou de acomodar seres e alimentos pelos três andares. Cumpriu religiosamente todas as recomendações, sem um veto ou questionamento. Dos animais puros, tomara sete pares, macho e respectiva fêmea. Dos impuros, somente um par, para perpetração da espécie. Feras as mais temidas conviveram com animais domésticos, répteis, pássaros, peixes, aves, todos restando imunes às águas do dilúvio que jorraram por 40 dias e 40 noites ininterruptamente. Ao cabo, Noé soltou um corvo, que de imediato voltou. Dias depois, libertou uma pomba que, na primeira vez sequer completou o vôo. Na segunda tentativa, retornou à arca ao entardecer, portando um ramo novo de oliveira no bico. Na terceira vez, a pomba alçou vôo e não mais regressou. Noé teve a certeza de que as águas se haviam escoado sobre a superfície. Um comovente arco-íris surpreendeu a todos ao saírem da arca, simbolizando a aliança entre o Criador e criaturas. Uma nova, promissora e esperançosa ordem mundial foi estabelecida. Ao contrário do que apregoam certas cassandras políticas, a Arca de Noé longe de representar promiscuidade, simboliza o fim de um período de aflição e o início de outro qualitativamente superior e gratificante. Mais do que instrumento de preservação de toda e qualquer espécie de vida, é ela um modelo de convivência harmônica entre desiguais e não inferiores e desafetos, de sublimação de ressentimentos passados e de priorização do interesse universal ou coletivo. Somente assim, sem retaliação, com petição, ódio, rancor, preconceito ou discriminação, foi possível aglutinar sem imolar, para desfrutar de nova e melhor ordem cósmica. Não há como negar a similitude do atual contexto mundial imerso em perversão, corrupção e violência , com os pródromos da Arca de Noé. Os partidos políticos, instados pela saneadora verticalização, firmaram alianças, extrapolando os limites de sua área e buscando ampliação. Sem granjear adeptos, não se faz política. Nela, convém sempre curar os possíveis males, nunca vingá-los. O purismo pretensão de ser imaculado não amplia, não integra, não permite governabilidade num país que se diz e se quer democrático por princípio. Estultice, pois, será fechar as portas àqueles que optem pela proposta do governo de uma frente política, em que seriedade para com a res publica e fidelidade ao Estado de Direito são compromissos pétreos. Foi através de alianças que em todos os tempos, lugares, circunstâncias, ocorreram as grandes conquistas humanas. Caolha é, pois, a visão dos que teimam em desafiar a "estátua de sal", pela incapacidade de virar uma página histórica já lida. Dinâmica, a política exige reciclagem constante. Em fala marcante, Getúlio Vargas alertou sobre a existência de certos políticos com tendência de analisar muito o passado, mastigando mazelas, esquecendo do presente e principalmente o futuro: "trata-se de um perigoso cacoete, pois quem muito olha para trás e remói, acaba torcendo o pescoço". A Arca de Noé esteve sob a égide de mudança radical em todos os aspectos. O compromisso da nova aliança não foi excludente. Ao contrário, todos foram necessários ao estabelecimento da nova era. Pesquisas as mais diversas estão apontando a opção popular determinada por mudanças, buscando identificar quem reúne condições melhores para efetuá-las com segurança. Entre tantos requisitos ao novo mandatário, desponta como relevante a vontade política. É o conjunto de coragem, competência, experiência, determinação, discernimento e liderança. Na arca primitiva, Noé a tinha e de sobra. |
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