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Estar no Seu nome
Evaristo Eduardo de Miranda

Durante sua vida, muitas vezes Jesus disse aos seus discípulos: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estarei no meio deles" (Mt 18,20). O que implica a expressão "de meu nome"? Basta fazer o nome da cruz ou dizer "no nome de Jesus", para que Ele esteja no meio de duas ou três pessoas? Não é verdade. Estar no nome de Jesus, não é algo que se diga da boca para fora.

Estar em Seu nome tem um alcance espiritual preciso e profundo dentro da tradição judeo-cristã. Está no nome de Jesus, quem já caminhou bastante em sua estrada espiritual, como um verdadeiro discípulo. Não é o caso de quem somente frequentou as igrejas ou estudou doutrinas. Está no "Seu santo nome" aquele que, no caminho do Senhor, descobre, manifesta e amadurece a presença do seu Reino, numa compreensão inteligente de sua própria vida, em comunhão e solidariedade com os irmãos e a natureza. Quando dois ou três- com a experiência de vida- se reúnem, Deus está no meio deles. Fazei isto em memória de mim! (Ex 12,14; 13,9; Dt 16,3 Lc 22,19).

No Pirkei Avot, Ética do Pais, tratado de tradição judaica com o pensamento de sábios fariseus de antes e depois de Jesus, essa passagem evangélica tem uma explicitação. No capitulo 3, Mishná 3, Rabi Chananiá ben Teradion diz: Quando dois homens sentam juntos ou reúnem-se e não há entre eles palavras de Torá, eis uma reunião de frívolos, pois foi dito: "Bem aventurado o homem não se assenta numa roda de frívolos"(S1 1,1). Mas quando dois homens se sentam juntos e pronunciam palavras de Torá, a Providência Divina (Shechiná) pousa entre eles, pois foi dito: " Então os que temem ao Eterno falavam uns aos outros e o Eterno atentava e ouvia, e havia um memorial diante d'Ele para que os que temem o Eterno e honrem o Seu nome" (M1 3,16). Isso no caso de dois, porém de onde podemos concluir que, mesmo que um só estiver sentado ocupando-se com a Torá, terá também recompensa do santíssimo, bendito seja (Ex 20,24). Do versículo: "Embora sente sozinho e medite em silêncio, ele receberá recompensa"(Lm 3,28).

Rabi Chanania ben Teradion viveu durante as perseguições do imperador Adriano, após a morte de Bar Kochbá, em 135 d.C., quando Roma proibiu o estudo de Torá sob pena de morte. Ele tinha uma academia, ieshivá, em Sichnin. Ao longo dos anos, cresceu em importância e autoridade.Lá arrecadou e distribuiu escrupulosamente dinheiro para fins de caridade (tzedaká). Doava integralmente todo o arrecadado aos pobres. "Ninguém"- disse Rabi Elazar ben Yaacov posteriormente- "contribuiria para a caridade se seu administrador não fosse alguém coma Rabi Chanania ben Teradion"

Segundo a tradição judaica, ele e esposa foram condenados a morte e sua filha condenada a escravidão. Envolveram-no em um rolo da Torá e atearam fogo a ambos. Foi quando disse suas imortais palavras, em meio à sua dor horrível: "Vejo arder o pergaminho (do rolo de Torá), mas todas as letras ascendem ao céu!"

Nesse dia, durante os congressos eucarísticos, milhares de cristãos revivem a palavra de Jesus e dão graças, reunindo em seu nome. Ao retornar aos seus estados e cidades, paróquias e comunidades de base, movimentos e pastorais, cultivam melhor a qualidade dessa comunhão espiritual: como fermento, dois ou três, perdidos na massa, em trabalho de aprofundamento pessoal. Os cristãos não devem somente reunir-se, levados por solidariedade diante do mesmo destino ou dos desafios na defesa da vida humana e da natureza, mas também para reunir-se em Seu nome, em torno de Sua lembrança.

Eucaristia não é um rito mágico que precipita Jesus sobre a Terra. Não se trata de uma presença que possa Ter à mão, manter à nossa disposição numa caixinha ou colocar no bolso. Se fosse assim, nós reduziríamos a um ídolo. A presença real não é a presença local, fisicamente acessível, mas sacramental. Como dizia São Tomás de Aquino, a comunhão é um encontro de duas presenças e uma abertura para toda humanidade. É em comunhão, um com os outros e a natureza, que nós comungamos com Ele. Participar da eucaristia é aceitar as exigências evangélicas, sentir-se responsável pela construção do mundo de irmãos, preservando a Vida e toda Criação.

Eu estarei no meio de vocês! Por essa promessa, escrita na tradição judaica, Jesus assegurou aos seus discípulos, que fazendo isso em sua memória, reencontrariam o Absoluto e renovariam sua fé. Esse contato direto e íntimo, eles haviam conhecido junto a Jesus. Naquelas horas benditas que Ele estava, não somente diante deles, mas nele. Quando a Sua palavra, diretamente saída dele mesmo, os penetrava, transformava, preenchia e fazia ser. A tradição, na Igreja Católica, significa: atualizar no presente o que recebemos no passado. Além de seus primeiros discípulos, o mesmo chamado e a mesma promessa de Jesus dirige-se a todos aqueles que o sucederam na fé.

Evaristo Eduardo de Miranda é ecólogo, pesquisador da Embrapa e diretor do Instituto Ciência e Fé

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