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O   n   l   i   n    e
Maio de 2003

Morre o pai da genética paranaense

Cientista, que estava na UFPR desde 1951,
foi vítima de câncer, aos 84 anos

Um sábio inquieto
Newton Freire-Maia foi-se da mesma forma que viveu: discretamente. E com a mesma ânsia de questionar tudo – ciência e religião preferencialmente. Homem manso e polido, tinha a sagacidade do mineiro, uma certa sabedoria escondida e ao mesmo tempo aberta à procura do transcendental e da justiça social entre os homens. O próprio nascimento do Instituto Ciência e Fé é fruto desta procura que não conhecia barreiras, marca de Newton, que ele dividiu, na empreitada, com um grupo de intelectuais e profissionais liberais, cristãos e não-cristãos e ateus.
Aroldo Murá Haygert,
presidente do Instituto Ciência e Fé

A Universidade Federal do Paraná decide hoje que homenagem prestará ao professor Newton Freire-Maia, conhecido como o "pai da Genética paranaense". Um dos cientistas mais importantes da história do Paraná, Freire-Maia morreu no sábado, aos 84 anos. O corpo foi velado na capela da Reitoria da Universidade Federal do Paraná e enterrado na tarde de ontem no Cemitério Parque-Iguaçu, em Curitiba.

Presidente honorário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o cientista foi também representante do Brasil na Organização Mundial de Saúde, em Genebra (Suíça), presidente da Sociedade Brasileira de Genética e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, além de ter exercido outras funções (ver quadro).

Mineiro de Boa Esperança, nascido em 1918, Freire-Maia morava no Paraná desde 1951, quando aceitou o convite para fundar um departamento de Genética na recém-federalizada Universidade do Paraná. Na época, formado em Odontologia, já havia decidido se dedicar à Biologia e à Genética.

O primeiro estudo a colocar seu nome em evidência foi um detalhamento das conseqüências que os casamentos consangüíneos poderiam trazer para a descendência do casal. Freire-Maia trabalhou durante vários anos no assunto e publicou trabalhos pioneiros. Depois, aproveitando seus conhecimentos, passou a dar aconselhamento para casais que, apesar dos laços de parentesco, gostariam de se casar e de ter filhos. Explicava que o risco de as crianças nascerem com problemas de formação era menor do que se imaginava.

Freire-Maia também se dedicou ao estudo das displasias ectodérmicas. Durante mais de duas décadas, analisou casos e descreveu as formas da doença, até então pouco explorada pela comunidade científica. A equipe do professor catalogou cerca de 10% das displasias deste tipo que se conhecem hoje.

Além de cientista e professor, Freire-Maia foi autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais uma autobiografia e um trabalho sobre raças e racismo no Brasil. Também teve atuação política, sendo candidato a deputado uma única vez. Desistiu da vida política, porém, depois do golpe de 1964.

Freire-Maia dedicou boa parte de seus últimos anos de vida ao estudo das relações entre ciência e religião. No início da década de 1990, foi um dos fundadores do Instituto Ciência e Fé. A razão científica não o fez descrer de sua fé, desde que foi convertido por um frade franciscano. "Quando menino, fui levado a acreditar que a Bíblia deveria ser interpretada ao pé da letra. O frade me convenceu de que a religião é muito mais livre do que eu pensava", declarou em uma entrevista recente.

Para o ex-governador e amigo pessoal Jaime Lerner, que esteve presente ontem ao velório, Freire-Maia construiu um "legado importantíssimo para a ciência e para o Paraná". "Ele foi o o grande impulsionador da genética no Paraná", afirmou. O reitor da UFPR, Carlos Moreira Júnior, afirmou ontem que "o Paraná perdeu um grande pesquisador".

Freire-Maia, vítima de câncer de pulmão, deixa viúva a professora Eleidi Chautard Freire-Maia, com quem era casado em segundas núpcias. Do primeiro casamento, com Flávia Freire-Maia, nasceram quatro filhos – Regina Flávia, Fátima, Marco e Newton Freire-Maia Júnior, já falecido – e nove netos.

Quem foi Newton Freire-Maia

* Professor da UFPR desde 1951, onde fundou o Departamento de Genética.

* Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Genética.

* Membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

* Vencedor do Prêmio Nacional de Genética.

* Representante do Brasil na OMS, em Genebra (Suíça).

* Fundador do Instituto Ciência e Fé.

* Candidato a deputado pelo Partido Socialista Brasileiro uma vez, deixou a militância depois de 1964.

* Na cerimônia dos 90 anos da UFPR, em dezembro
passado, recebeu uma medalha por ser um dos mais antigos professores da universidade na ativa.

Rogerio Waldrigues Galindo

Publicado na Gazeta do Povo, 12/05/03

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