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Fábio Campana é jornalista e editor do Caderno de Idéias

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Janeiro de 2004

Artigo
Brasil indiferente

Fábio Campana

I

Ser paranaense é não ser.

Somos de tantas origens, de tantas culturas, e nenhuma se impôs às demais para nos dar um sentimento de identidade coletiva, de comunidade e de destino comum.

Este processo não cessou. O Paraná recebe todos os dias gente que desistiu da vida em alguma parte do planeta e decidiu que este é um bom lugar para recomeçar.

Só em Foz do Iguaçu convivem 68 etnias. A maior parte da população de Curitiba já não é de descendentes de europeus. Os polacos e ucraínos são minorias. Somos cada vez mais negros, pardos, amarelos, crioulos, mamelucos, mestiços.

Nesta babel de línguas e costumes é mais fácil saber o que não somos. Gostamos de sublinhar o que nos distingue e nos faz sentir diferentes dos demais. O resultado é um rio de preconceitos.

Acreditamos que somos paranaenses porque não temos a extrovertida alegria do carioca, a empreendedora cobiça dos paulistas, a preguiçosa malemolência dos baianos, a picardia política dos mineiros, a sobranceria do gaúcho.

Nos sentimos paranaenses porque somos diferentes, embora sejamos um pouco de todas as tribos, de todas as raças, de todas as crenças. Sendo tantos e nenhum, a negação do outro é também a nossa negação.

II

Somos muitos, somos vários. Ao menos, sabemos o que não somos. Ou o que não queremos ser. Ou, ainda, o que não queremos que pensem que somos.

Há sempre uma ponta de orgulho na negação dos atributos alheios. O limite que impomos ao estranho acostumou-nos a manter o olhar desconfiado e a cultivar timidez enfermiça que nos incapacita a doar-nos inteiramente.

Sempre guardamos boa margem de segurança. A primeira regra é manter distância dos invasores de nossa intimidade. Nos protegemos com a fria couraça da indiferença que limita aproximações bruscas, invasões indevidas.

III

Somos povo de pouca história e muita geografia. Não houve ciclos hegemônicos. O Paraná teve ciclos regionais e muito curtos, insuficientes para formar a nata e deixar história.

Da frustrada procura do ouro no litoral e nas serras, passamos à condição de entreposto das tropas que iam de Viamão a Minas. Território de passagem. Pobre de oportunidades. Comércio e pousada.

Acabou o ouro em Minas e as tropas deixaram de passar por aqui. Os currais foram tomados pelo mato. Os cavaleiros sumiram. Sem ouro, sem comércio, os que por aqui ficaram encontraram outra fonte de riqueza: a erva-mate.

A erva-mate consolidou a primeira oligarquia. Foi o único ciclo econômico paranaense. Nos deu a emancipação, a estrada da Graciosa, o primeiro banco, o primeiro jornal e os simbolistas. Ah, e o paranismo, praga duradoura.

IV

Apenas 150 anos de emancipação neste dezembro. Sem luta. Sem sangue. Sem glórias. O Barão de Antonina, de pouquíssimas letras, mas de muita astúcia e muito dinheiro, era o maior interessado na instalação da Província. Foi ao Rio e convenceu a maioria no parlamento do Império. Consta que levou fornida mala para derrotar os argumentos das maiores inteligências da época.

De Nabuco a Feijó todos eram contrários ao desmembramento da 5a Comarca. Venceu o Barão de Antonina e o Paraná surgiu sem empreendimento ou luta que deixassem marcas definitivas sobre as quais pudéssemos construir as lendas de nossa formação, criações tão artificiosas quanto às ficções literárias, mas necessárias para dar aos indivíduos o sentimento de identidade.

V

Depois do mate, o desmatamento. Nós, os paranaenses, fomos bons de machado, motosserra, trator de esteira. Derrubamos em poucas décadas a porção de mata atlântica que cobria o território. Exportamos a madeira e na terra nua aceitamos novas migrações.

Há 100 anos o Paraná era imenso território inexplorado. Tinha apenas 34 municípios e 324 mil habitantes. Começou então a abandonar o extrativismo e a descobrir sua vocação agropecuária.

O café saltou as fronteiras de São Paulo e desceu até onde a geada e a fragilidade dos solos o fez recuar. Ao Sul, o paralelo 24. Daí para baixo as geadas impediram a sua expansão.

Outra breve idade do ouro. O café enriqueceu o Norte, fez brotar cidades, quadruplicou a população do Estado em duas décadas. Pela primeira vez a riqueza era produzida pelo
trabalho e não pela predação, pela extração, como nos ciclos anteriores.

VI

Anos 50, o Sudoeste recebeu colonos do Rio Grande do Sul. Gaúchos descendentes de italianos e alemães que formaram uma sociedade baseada no minifúndio. Muita guerra para garantir a propriedade.

Nos anos 60, no Oeste, gente do Sul, gente do Nordeste, gente de todas as partes ocupou as terras e estendeu a monocultura da soja e trigo até as barrancas do rio Paraná.

Nos anos 70 o Estado passou a represar os rios e a construir grandes hidrelétricas. Afogamos Sete Quedas e as terras mais férteis do extremo-Oeste. Expulsamos população para o Paraguai e para o Norte. Alto preço para passar à condição de grande produtor de energia.

VII

O Paraná foi ocupado ao Norte, ao Sul e ao Oeste por culturas que brotaram em outros Estados. Em 150 anos, passou por transformações políticas, econômicas e sociais tão rápidas e tão extensas que jamais permitiram a consolidação de uma idéia única sobre o Estado.

Só uma coisa não mudou. O comando político permaneceu quase sempre em mãos da mais antiga oligarquia, sediada no Sul. A primeira oligarquia, aquela que preferiu a predação à produção, soube se manter na sela do poder.

Curitiba, ao perder a força econômica do mate, transformou-se em centro de poder regional. Cidade burocrática, cartorial, sede do Estado hipertrofiado para absorver milhares de pessoas que já não tinham outra forma de sobreviver.

E a própria Curitiba passou a viver às expensas da riqueza produzida no campo. Do excedente das exportações de café sobrou para construir o Centro Cívico, o Teatro Guaíra e toda a arquitetura oficial inaugurada no centenário.

Com a apropriação do excedente da madeira, da soja, do trigo, Curitiba refez seu planejamento urbano e lançou, por fim, as bases de sua tardia revolução industrial, derradeira esperança de nova idade do ouro que já não dependa dos frutos da terra. Que encerre a longa carreira de uma elite laborfóbica, improdutiva e, por isto mesmo, prisioneira de seus piores vícios, a cobiça e a inveja que habitam a alma do burocrata que um dia pensou ser príncipe.


VIII

Por enquanto, permanecemos assim. O homem do Sul nada tem a ver com a formação do paranaense do Norte, do Oeste ou do Sudoeste. E entre os que vieram colonizar estas regiões havia gente de todas as partes do mundo. Somos todos vizinhos. Só não somos iguais ou parecidos. Daí a sensação de exílio na própria terra. Não nos sentimos membros da mesma porção de humanidade, o que nos estimula a permanente autofagia.

Nenhum símbolo é mais compatível com a nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo do que o ceifador.

Publicado no Caderno de Idéias, Travessa dos Editores, dezembro de 2003

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