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Arodo
Murá G. Haygert |
Perfil por Aroldo Murá G. Haygert
Sem compromissos cronológicos, visões — de 1960 a 2003 — de momentos para sempre memoráveis sobre aquele que só quis ser o que foi: paranaense, provinciano, universal, iconoclasta, underground (ou avant-garde?), crítico de seu tempo, cronista, contista, sociólogo, marquetólogo, publicitário, modelador de políticos, homem de espírito, amigo, genioso, genial, “pão-duro”, generoso. Enfim, o Jamil, acima e além da crítica literária. Do “Turco” se podia esperar quase tudo, ele não surpreendia. Só não conseguíamos entender bem — os amigos mais próximos, daquelas caminhadas noturnas, aprendizados peripatéticos pelo centro de Curitiba, começados em 1960 —, onde e quando ele achava tempo para estudar. Estudava pra valer, fomos descobrindo, e particularmente se embrenhava na etimologia das palavras. Era um atualizado em muitos saberes, com acompanhamento especial do que acontecia na literatura, a ficção importante no mundo todo. Tinha
uma espécie de PC imaginário na cuca: pediase- lhe o significado
de um termo, que esclarecesse tal dúvida, lá vinha a resposta.
Sempre acompanhada de um pigarrear, o som meio que preso na laringe, como
que a disfarçar um certo recato, parecendo pedir desculpas por
nunca ser apanhado em falta na matéria. Se, por acaso, flagrava
uma estultice do interlocutor, não perdoava, colocava as coisas
no lugar, de modo particular no pontificar sobre língua portuguesa.
Mas não chegava a massacrar o pobre coitado, pelo menos por pecados
contra a chamada norma culta. Não foi aluno brilhante no ginásio
e no científico, pode riam testemunhar a irmã Sheila, o
irmão Iberê e a octogenária dona Anita, a mãe,
aquela velhinha que conseguiu sobreviver Será
que ela já aceitou que Jamil partiu para outras paragens? Tenho
dúvidas. Naquela noite, a do “porre”, recebia Carmen Portinho, impressionada com o primeiro livro de Jamil, Tempo sujo, editado pelo autor. Impresso ali ao lado, na gráfica do seu Antônio, o pai. Impressão tipográfica, em máquina de leque, gráfica que, se poderia dizer, quase de fundo de quintal, não fosse propriedade de um homem sério, com licença até para confeccionar notas fiscais. Livro composto em linotipo em outro endereço, naquela usina movida a chumbo que as gráficas maiores tinham. Linotipo, hoje, se encontrada, deve ser peça de museu. O “porre” de Jamil Snege foram dois goles de Martini ou coisa parecida. Recebia uma mulher culturalmente respeitável, uma resistente aos comandos militares da época, que fora casada com o arquiteto Affonso Redy da Costa. E a recebia com a dupla fidalguia: a árabe — marca registrada do sisudo seu Antônio Snege, filho de libaneses cristãos — e a italiana, dos vênetos, os ancestrais de dona Anita. Receber
gente do naipe de Carmen Portinho — presidente do Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro, em tempos de esplendores culturais cariocas
— era coisa rara. Mas a mulher ilustre era acolhida naquele espaço
apertado do pequeno sobrado, fundos Nos fins de semana daqueles finais dos anos 60 a casa vivia cheia. Daniel, o filho do primeiro casamento (com Luiza Helena) não deixava ninguém pensar, era só estripulias, rasgando sofás, nasceu notívago, o pai como professor emérito. Roberto
Requião e Maristela, Luiz Júlio Zaruch, Filomena Gebran,
Eurico Schwinden, Wilson Bueno, Fábio Campana, Luiz Carlos Zanoni
e Mary Alegretti, Manoel de Andrade, Araré e Araken Cordeiro, Sônia
Regis Pacheco, Malala, João Osório Brzezinski (em Imago
quem Jamil experimentava muitas de suas armadilhas de finíssimo
humor, golpes aceitos sem dores pelo artista plástico e amigo muito
próximo), Rogério Dias, O Carlos
Alberto Pessôa também era amigo muito próximo, só
não me lembro dele na casa. Nada a lembrar saraus acadêmicos,
mas com certeza arena de discussões O “salão”
não era freqüentado pelo pessoal do Paulo Leminski —
este e Jamil não dividiam o mesmo espaço, havia muitos motivos,
alguns jamais ditos em voz alta, mas que cheiravam a poesia feita por
mulher. O gênio do Catatau e Jamil fingiam se ignorar, nem a intervenção
apaziguadora do jornalista Aramis Millarch— possível ligação
entre os dois — conseguiu promover um armistício na guerra
surda existente mas não Parece
que estamos numa peça de Priestley, alguma coisa a lembrar O tempo
e os Conways, um jogo com o tempo. Mas o que possa eventualmente parecer
salada cronológica não compromete o essencial, aquilo que,
como testemunha privilegiada, fui recolhendo do início ao fechamento
de uma vida muito singular. Assim, aqui se espalham coisas que vi, ouvi
e depreendi com olhos, ouvidos e feeling que a terra há de sepultar
ou o crematório fazer cinzas em duas horas e meia de fogo ardente,
a mil graus. O essencial e o acidental, a essência e o acidente
presentes. Meu faro para a raridade Jamil chegou-me pela apresentação
de um amigo comum, o Newton, no Verdadeira
vocação para guru, logo ele teria não um entourage
em torno dele. Passaria a ser observado, suas palavras repetidas, seus
escritos pontificando, Escondia,
e poucos sabiam que ele tinha uma hérnia abdominal, sempre à
véspera
Cresci
em respeito e admiração junto ao Turco. Respeito e admiração
mais amizade que nunca foram salvo- conduto para Jamil poupar-me. Pelo
contrário, fez-me personagem de alguns momentos de seus livros,
pelo lado burlesco, naturalmente. Mas nunca tocamos no assunto, eu fingindo
que não lera os livros, ele fingindo que nada escrevera sobre mim.
Mas voltando às preocupações com o além, e
a experiência que patrocinou com um médium de mesa e um parapsicólogo
improvisado (?), na casa dele: dias depois, confessava-me haver se tornado
um deísta. Passara a temer a Deus. No fundo, herdeiro da veia mística
do pai, seu Antônio, um sacerdote de cultos afros, que semanalmente
presidia sessões de cura espiritual e material num centro espírita
ali pelas redondezas. O pai, a quem ele amava a distância, com consideração A fase
espiritualista inaugurada prosseguiu até o fim. Fortaleceu-se com
a mulher que o acompanhou por 20 anos, Vera, espiritualizada também.
Dos primórdios dessa união há aquele poema Senhor,
resumo de crenças e certezas depositadas no Numinoso. Já
nos anos 80, eu era dos poucos com portas do flat abertas: a privacidade
com Vera e o Pimpo ele preservava. Não havia mais o “salão”.
O Jorge Menezes era outro que às vezes aparecia, e Daniel era “vigiado”:
morava num apartamento no andar debaixo. Todos
suspeitávamos de que o Jamil tivesse poupança, dinheiro
guardado, grandes aplicações. Quem sabe, até investimentos
num paraíso fiscal (nada demais, desde que declarados ao IR). Nada
disso, morreu pobre, sem pensão, sem aposentadoria, sem pecúlio.
Mas fez o sucesso de não poucos. Querem alguns exemplos do envolvimento
do Turco na construção de imagens: o hoje governador Roberto
Requião foi lançado na política, disputou a primeira
eleição a deputado estadual, em 83, alavancado por um mote
construído pelo gênio de Jamil:“Quem é Richa
é Requião, irmão”. O mote pegou, As campanhas políticas e outras do publicitário são do domínio da história da propaganda do Paraná. Lembram- se do Kid Malu, personagem para vender os produtos da Malucelli da Visconde? Houve
um tempo, lá pelos anos 90, que Fábio Campana dividia espaço
com o Turco, na Beta. Aliás, o Fábio, depois de ruptura
entre os dois — e que não durou dois anos — foi o arrimo,
o porto seguro de Jamil, nos seus dias finais. Fábio e a sua mulher,
a doce Denise, foram os caminhantes ao lado de Jamil e Vera naquela via-crúcis
autêntica, véspera da morte agônica, tantas vezes anunciada
e só adiada pelo avanço da ciência médica e
pelo apego do Turco à paisagem terrena, a paisagem de Curitiba,
cujas calçadas e esquinas conhecia centímetro a centímetro.
Além, é claro, dos cuidados que teve dos três citados.
Não ficou rico porque não quis. Lembro-me de um O presidente, Mr. Z., queria o Turco fazendo suas campanhas. A conta havia sido conquistada sem dificuldades por um contato. Jamil achava Mr. Z. um chato, um “patrício” para quem não trabalharia. E pronto. Não trabalhou, nem lhe atendeu os súplices telefonemas. Mas trabalhava para o insignificante candidato a vereador de uma cidade do interior, ou para amigos como Marcelo Almeida, sem preocupação com lucros. Haveria tantas fases para lembrar. Uma das mais rentáveis para o folclore noturno da cidade deve ter sido aquela do coffee shop do Hotel Deville, na rua Comendador Araújo, aberto então 24 horas. Foi lá pelos anos 70, começo dos 80. Jamil sem dúvidas era o presidente da patota, um grupo que fora se formando em torno dele, com Roberto Requião, José Maria Correa (ainda delegado de polícia), Poty (o boêmio, não o artista plástico), Campana, Menezes (o designer), Almir Feijó Junior, Carlos Alberto Pessôa, e outros. Cinema, política, propaganda, PMDB, principais centros dos infalíveis encontros. Só 30 anos depois de termos descoberto uma poesia raríssima de Federico Garcia Lorca — revelada por um pesquisador espanhol, que a achara “extraviada” em meio ao que restou de papéis do vate andaluz — é que voltamos a conversar sobre a preciosidade. E conversamos sobre o assunto na Travessa dos Editores, em 2002, quando se comemorava o aniversário do Turco. Pareceu-me, pela primeira vez, ter visto lágrimas nos olhos dele. Já se sabia bem doente, ou pressentia a chegada do Anjo da Morte? Foi repetindo — à tarde suspensa a um ombro”, tal como o gitano: Quero
dormir um pouco Publicado na Idéias 11, junho de 2004, Travessa dos Editores |
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