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Belmiro Valverde Jobim Castor é professor universitário e diretor do Instituto Ciência e Fé. |
Opinião Belmiro Valverde Jobim Castor Há trinta anos, Jean Jacques Servant-Schreiber escreveu um livro provocativo que fez furor: “O Desafio Americano”, no qual fazia uma previsão sombria: a Europa estava condenada a se transformar em uma potência de segunda categoria, enquanto que os Estados Unidos assumiriam, de vez, a hegemonia econômica no mundo. Em todas as indústrias de ponta, os europeus seriam varridos da liderança por uma combinação de engenhosidade, capacidade científica e tecnológica, organização e capacidade produtiva dos ianques Como todo livro de previsões, o de Servant-Schreiber tinha um defeito básico: o de imaginar que a história dos países é uma manifestação inexorável do destino pré-traçado e não uma obra de construção permanente. Em pouco mais de uma geração, a Europa não apenas não se transformou em uma potência de segunda categoria como está em marcha batida para se transformar no centro da nova geoestratégia mundial; enquanto as etapas de integração econômica já foram cumpridas e o conjunto de vinte e cinco países integrados surge como um competidor formidável em todo espectro industrial e de serviços, a integração monetária está consolidada com o sucesso do Euro. Agora, a integração política também se acelera: a constituição européia é um documento revolucionário que estabelece as bases institucionais dessa enorme confederação começará a ser submetida ao voto popular dos nacionais dos países membros e, se aprovada, criará uma ordem política inédita. Os italianos gostam de lembrar que dois mil anos atrás, seus antepassados romanos também presidiram a criação de um mundo globalizado. Os ingleses não deixam por menos e também invocam precedência com o Império Britânico sobre o qual o sol nunca se punha. Mas os franceses não entregam os pontos facilmente e outro dia saiu um artigo em uma revista com o título “Napoleão, o verdadeiro pai da Europa”. Quem mais senão ele... No entanto, o que distingue a experiência européia é o fato de que a integração internacional está se fazendo por vontade própria dos integrados e não na ponta de uma baioneta ou de uma lança como no passado. A integração européia se faz como uma novela em muitos capítulos iniciados na década de cinqüenta e pacientemente executada desde então. Em cinqüenta anos, os italianos já foram governados por esquerdistas, direitistas, democratas-cristãos; os franceses já fizeram experiências socialistas, quase-comunistas, quase-fascistas e centristas; a Inglaterra já foi dominada pelo sindicalismo, pelo tatcherismo conservador e pelo neotrabalhismo de Tony Blair... E o projeto europeu superou todos os obstáculos até agora. Por que esses comentários? Porque quando vejo o Mercosul envolvido na sua enésima crise comercial, com os argentinos boicotando a entrada de produtos industriais brasileiros contra os quais seus próprios industriais não conseguem competir, fico pensando no que teria ocorrido se, a cada momento do processo de integração européia, os belgas tentassem boicotar os produtos dos vizinhos, os italianos se rebelassem contra a produtividade da indústria alemã e assim por diante. Criar um bloco de integração regional é coisa bem diferente de ficar toureando empresários pouco competitivos de parte a parte. O darwinismo está cada vez mais na moda e só os mais aptos sobreviverão nesse mundo integrado que vivemos. Publicado na Gazeta do Povo 18 julho de 2004 |
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