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Belmiro Valverde Jobim Castor é professor universitário e diretor do Instituto Ciência e Fé.

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Julho de 2004

Opinião
Para onde vamos?

Belmiro Valverde Jobim Castor

Estamos às portas da eleição e a campanha política, até agora, não chegou a empolgar. Longe, muito longe está o clima eletrizante de campanhas no passado, em que a cidade, o estado e o país se dividiam entre getulistas e antigetulistas, udenistas e petebistas, juscelinistas e lacerdistas, neystas e lupionistas. As mesas de bares ferviam com discussões e argumentos acalorados, famílias se dividiam no almoço semanal, amizades e namoros começavam ou acabavam por causa da política.

Deve-se ter saudade daqueles tempos? De uma forma geral não, pois a polarização político-partidária, o antagonismo exacerbado e o passionalismo prestaram, em geral, um grande desserviço ao país fomentando crises e levando a impasses. Agosto é um mês propício para se lembrar de duas dessas encruzilhadas históricas: o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e a renúncia de Jânio Quadros em 1961.

Minha geração viveu sua juventude em sobressalto com a permanente ameaça da ruptura institucional, as tentativas de golpes, contragolpes e as inquietações militares, alimentadas pela retórica incendiária dos Lacerdas e Brizolas. Na prática, dissipamos boa parte de nossa energia nacional inventando maneiras de apagar incêndios institucionais em vez de construir uma nação de respeito. Agora vivemos no pólo oposto: na apatia, na modorra cívica, como se as pessoas tivessem chegado à conclusão de que não vale a pena se preocupar com “essas coisas da política”. Fábio Campana tem razão quando atribui essa abulia eleitoral coletiva à sensação disseminada de que, embora os políticos vivam a massagear o ego da população com juras de submissão às suas vontades e de obediência às suas determinações, na realidade tratam-na como mera coadjuvante do processo político.

De vez em quando, repete-se o velho argumento de que a esqualidez de nossos quadros políticos ainda se deve à opressão do regime militar. O argumento me parece simplista por duas razões: primeiro porque há vinte e cinco a atividade política e a imprensa no Brasil são totalmente livres e, se no espaço de uma geração, as universidades, os sindicatos, o empresariado, as profissões liberais e as lideranças comunitárias não foram capazes de gestar novas lideranças que empolguem a população, não há de ter sido por falta de oportunidades ou pelo amordaçamento das liberdades de expressão; segundo, porque as atuais lideranças que mandam no país são exatamente as forjadas durante o período militar, parecendo mesmo que um dos pré-requisitos para se ter qualquer evidência política é ter tido, mesmo que de maneira remotíssima, qualquer atitude oposicionista naquela época, que possa ser ostentada como um galardão, incluída no currículo e, quem sabe, até ajudar a descolar uma indenização ou uma pensão.

Para mim, a mornice do processo eleitoral reflete ainda um outro fenômeno, o da ausência de um ou de poucos objetivos nacionais de grande magnitude que unam as vontades e as energias da população. Em certos momentos da vida brasileira, tais objetivos foram a industrialização, a modernização do país, os cinqüenta anos em cinco. Em outros, a auto-suficiência econômica, o Brasil potência, a construção da oitava maior economia do planeta. E agora, qual é? Que pretendemos, como nação, além de cumprir nossos objetivos com o FMI, manter os credores externos e internos tranqüilos e saciados, e quando muito distribuir favores assistencialistas à parte mais carente da população rotulando esse assistencialismo oficial de “inclusão social”?

Os políticos parecem ter perdido a capacidade de identificar algumas poucas idéias e projetos capazes de promover transformações dramáticas para melhor na vida das pessoas, como fizeram, por exemplo, Taiwan, Coréia do Sul, Malásia, Cingapura quando elegeram a educação, a ciência e a tecnologia como seus objetivos prioritaríssimos e investiram maciçamente para transformar países que eram mais atrasados do que o Brasil em 1950 em potências emergentes nesta Terceira Revolução Industrial que estamos vivendo, com a emergência da indústria do conhecimento. Hoje suas populações desfrutam de padrões de afluência e de qualidade de vida inigualados na maior parte do mundo.

À falta desses objetivos nacionais, os políticos se refugiam na vacuidade das frases feitas e das abstrações generosas (aproximar-se da comunidade, ser sensíveis aos reclamos populares, promover a melhoria do bem-estar coletivo...) ou no varejo dos pequenos projetos, capazes de melhorar incrementalmente a vida das pessoas, mas que ficam longe de lhes assegurar aquela sensação gostosa de que a sua vida e a de sua família realmente mudou para muito melhor.

A propósito, paciente leitor: há quanto tempo você e sua família não experimentam uma sensação desse tipo?

Publicado na Gazeta do Povo 29 agosto de 2004

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