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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
MAIO DE 2005

IMAGO
FANI LERNER,
a mão amiga

Aroldo Murá G. Haygert



Liana só fará três anos em março mas é boa amostra de uma geração que está chegando. Por exemplo, trata os mais velhos de “vocês” e, dia desses, sem rodeios, com a maior desenvoltura, perguntou à avó Fani: “qual é teu e-mail?”. Ela é parte do universo a que a avó tem se dedicado — o mundo da criança —, bem diferente daquele que a menina Fani (Woller Proveller) Lerner, nascida em 1945, viveu na avenida Sete de Setembro, entre as rua Alferes Poli e 24 de Maio, em Curitiba.

É para gente miúda como os netos Ben, cinco anos, Liana, Tobias, três anos, e Sophie, um ano, mas sobretudo para um universo de crianças anônimas, e nada íntimas de avanços digitais, que a ganhadora do Prêmio Kellogg’s de 2003, entregue em Columbus, Ohio, Estados Unidos (uma espécie de prêmio Nobel, reconhecimento aos que fazem muito pela infância no mundo inteiro), tem mergulhado num trabalho sem paralelos no País: foram 500 creches por cuja implantação lutou e fez bandeira de vida, em oito anos como secretária Estadual da Criança nos dois governos Lerner. No município de Curitiba, nos três mandatos do marido, foram120 as creches que ela pode exibir como obras resultantes de seu empenho.


Em 1995, Fani toma posse como secretária de
Estado da criança e do adolescente, No primeiro
governo Lerner. Ao fundo, Emília Belinati.

Haverá estatísticas capazes de dimensionar os resultados dessa quase obsessão pelo mundo da criança?

E em futuro próximo, quando a parceria da Prover (ONG fundada por Fani com os US$ 100 mil recebidos da Kellogg’s) e o centro universitário Unicenp, do grupo de ensino Positivo, tiver materializado seu ambicioso projeto, crianças de todos os estratos sociais poderão mergulhar no mundo da ciência e tecnologia ofertado pelo futuro Museu Interativo, ou Centro de Estimulação Infantil, voltado a crianças de 3 a 14 anos. Que começa a nascer no campus Campo Comprido da Unicenp, em Curitiba. Vai lembrar o impressionante projeto pedagógico interativo Lavillette, de Paris, com um diferencial: a ele terão acesso gratuito crianças atendidas por creches e escolas públicas em geral. Os outros pagarão entrada, passaporte para imersão numa centena de brinquedos interativos, com propostas psicopedagógicas. Lá as crianças poderão se familiarizar com os avanços das ciências, a partir do lúdico digital concebido por professores universitários amplamente dedicados ao projeto. O edifício arrojado de nossa Lavillette terá a assinatura de Manoel Coelho, o que dimensiona a proposta educacional em jogo. E que se completará com a oferta de espaço e equipamento próprios para o treinamento e capacitação de educadores que atuam com a infância.

— A criança não é, porventura, o pai e a mãe do homem e da mulher? — indaga Fani, recordando um velho adágio.

Raízes em análise

Fez análise por oito anos seguidos. Até por isso, Fani não teme enfrentar eventuais fantasmas interiores. Também cursou psicologia. Assim, admite ter tido “uma certa dificuldade” de linguagem que, acredita, teve raízes em bloqueios de infância. Uma meninice que, se por um lado foi encantada pelo sentido de amplidão e liberdade na casa da Sete de Setembro — com a mãe Ana e a irmã Ester —, teve o peso da ausência definitiva do pai, “seu Manoel”, polonês de Lezen, chegado ao Brasil no final dos anos 20, atacadista de batatas. Por isso, ganhou o cognome de “Manoel Batateiro”, identificado por um ir-e-vir entre Curitiba, Irati e Araucária na comercialização do produto. Foi sócio de outra personagem indissociável da comunidade judaica do Paraná, Bernardino Schulman. Quando Fani tinha quatro anos, Manoel Proveller morreu de diverticulite, um mal que não é pena de morte nos dias de hoje.

A chefia da casa ficou com Ana Proveller, também polonesa, de Varsóvia, chegada em 1937, fluente em iídiche, ucraniano, alemão e polonês. Jovem, 34 anos, bonita, mulher de charme, embora com muitos pretendentes, resolveu enfrentar a criação das filhas como viúva, com o apoio de dois irmãos, Samuel e Bernardo Woller. E as criou a partir dos balcões de sua A Moderna, de roupas femininas, na Praça Zacarias. Virou um dos endereços do bom comércio da cidade, então fundamentalmente localizado
na área central.


Ana Woller Proveller com as filhas Fani (E) e Esther

Cadeiras na calçada

Como esquecer daquela Curitiba? Fani mergulha, com intimidade, nos contornos daquela cidade. Aqui e ali, menciona nomes de famílias tipicamente curitibanas, dos anos 50, 60, 70, e endereços, paisagens, tipos folclóricos, usos e costumes de uma capital então provinciana, mas com material humano muito especial. O inconfundível DNA curitibano, do leite quente, apfel strudel, a vina, a cuque, o café da tarde, e todo o resto de suas digitais. Um Brasil diferente, como sabiamente o professor e crítico Wilson Martins vê o Paraná em parte de sua obra magistral (e muitas vezes patrulhada em nossos cursos de graduação e pós-graduação de Letras Português...).

Era a Curitiba em que ela e Ester conviveriam, por exemplo, com os Mello e Silva, os avós do governador Roberto Requião de Mello e Silva, senhorios de dona Ana. Lúcia Requião Mello e Silva Arruda, irmã do governador, partilhou momentos de fraterna convivência infanto-juvenil com as irmãs Fani e Ester.

— Era um tempo em que se colocavam cadeiras na calçada, na frente de casa, nos fins de tarde, para um prosear sem fim — recorda Fani.

Cadeiras nas calçadas foram apenas uma das fronteiras a distinguir a cidade acanhada que, a partir de 1972, seu companheiro de vida, Jaime Lerner, iria transformar radicalmente, do ponto de vista urbanístico e assim oferecendo ao mundo uma visão renovadora, com inimagináveis intervenções urbanas. Planejamento urbano que se imporia numa superior antevisão do futuro (prever para prover), notada- mente no sistema viário. Uma guinada que, tanto quanto possível, teria de garantir a convivência harmônica daqueles traços alemães, ucranianos, poloneses, italianos — sem falar na herança portuguesa — com as surpresas de novas realidades revolucionárias: sistema viário (com o trinário) sem igual, preservação ambiental, ruas exclusivas para pedestres, centros de criatividades, canaletas de ônibus expresso, “ligeirinhos”, estações-tubo, biarticulados, parques, coleta seletiva de lixo reciclável, troca de lixo por alimentos, preservação de edifícios históricos e potencial construtivo, integração do transporte com a Região Metropolitana e tarifa única de ônibus, Cidade Industrial, vias conectoras de tráfego, vias rápidas, moradias de bom gosto em conjuntos habitacionais populares...

Claro que isso não é marketing, como querem os inconformados com o fato de Curitiba gerar um urbanista “exemplário para o mundo”, como diria Reinaldo Jardim.


Em frente à casa em que a família viveu 37 anos, no Cabral, hoje sede do
Instituto Jaime Lerner

Professora em Vila Lindóia

Infância e mocidade pontilhadas por uma convivência única, multiétnica, com passagens inolvidáveis, como os muitos anos no Instituto de Educação do Paraná, no qual entrou aos cinco, no jardim de infância, e do qual saiu normalista, orgulhosa de seu uniforme e de sua gravata azul-marinho. O Instituto, na rua Emiliano Perneta, de arquitetura algo clássica, e a vivência diária com nomes que depois, como ela, pontilhariam muitos campos da vida social. Um universo de colegas e amigas de jornadas e aprendizados, como Eliane Petraglia, Waldney, Davina Espírito Santo, Clotilde Spíndola, Maria Teresa Prieto, Eva Woller (prima), Antônia Rocha Loures...

Naqueles dias os curitibanos se beneficiavam de uma realidade educacional pública de qualidade jamais repetida, vivida no Instituto de Educação do Paraná e no Colégio Estadual do Paraná, este, com justo ufanismo, apresentado como “equiparado ao Colégio Dom Pedro II”. Na época, era distinção estudar nesses colégios, sem qualquer demérito ao Santa Maria, Medianeira, Bom Jesus, Sion, Cajuru — colégios também de qualidade.

Fani — que foi aluna aplicada, líder e com boas notas — recorda a saudável rivalidade intelectual entre os alunos dos dois colégios. Só não havia rivalidade nos footings da Rua XV ou nas paqueras que precediam as “tradicionais” sessões de quintas-feiras do Cine Avenida, na Avenida João Pessoa, sempre às 16 horas, anos 50, início dos 60.

As meninas do Instituto tinham uma certa inveja do Estadual, por esse ser um colégio misto, embora, durante o consulado de notáveis mestres, como o do diretor Francisco Gomes Ribeiro, a separação de sexos, nas aulas e pátios, fosse questão de honra. “Pena capital”, expulsão, nos anos 50, para quem ousasse atravessar a linha nada imaginária que separava os gêneros, cada um confinado ao seu bloco de salas de aula.

A realidade do magistério começou na Vila Lindóia, e lá foi vivida por cinco anos seguidos. Fani se transportando de ônibus carimbados pelo pó das ruas de saibro, e às vezes levada de carro por Jaime. Era professora concursada no Grupo Escolar Itacina Bittencourt. Lá ficou até que Jaime e ela conseguissem construir a casa da rua Bom Jesus, 76, Cabral, hoje sede do Instituto Jaime Lerner, e onde eles viveram por 37 anos.

Hoje moram num amplo apartamento, no outro lado da rua. Nunca aceitaram a idéia de deixar o bairro onde criaram Ilana (casada com Cláudio Hoffmann, pais de Ben e Liana) e Andréa (casada com o pintor holandês Sebastian Bremer, pais de Tobias e Sophie, radicados em Nova Iorque, onde ela tem grupo de danças modernas com a sócia curitibana Rosane Chamecki).


Na agenda lotada, cuidados com projetos como o Museu
Interativo, que está nascendo em parceria com a Unicenp:
avanços tecnológicos acessíveis a crianças de todos os
níveis sociais (foto Diego Singh)


Provopar, o grande voluntariado

Fani é das poucas personalidades que, tendo vivido dezenas de anos na chamada berlinda do poder, pode dispensar relatórios sobre sua obra. Os feitos, 500 creches, estão escancarados nas 399 cidades paranaenses (uma creche na maioria das cidades; em outras, mais de uma). E estão, sobretudo, no presente e no futuro de milhares de crianças — centenas de milhares — atendidas por programas como o Da Rua Para A Escola, Projeto Piá (contraturno), Vale Creche (pioneiro no Brasil, as empresas compram vagas para filhos de seus funcionários, por exemplo), creches comunitárias (com apoio do município e do Estado), creches públicas.

— O Mozart, jogador curitibano hoje na Itália, é um dos frutos de uma de nossas creches, a Pimpão — cita Fani, lembrando que por anos acompanhou o piazinho, hoje astro do futebol.

Tudo começou na segunda gestão Lerner na Prefeitura de Curitiba, em 1979, quando ela passou a liderar um impressionante programa de voluntariado (Provopar de Curitiba), reunindo, de saída, 400 mulheres. O alvo foi a criança carente, em primeiro lugar, no levantamento e apoio às suas necessidades materiais e também com a oferta de suporte pedagógico. A idéia motora que comandava Fani e seu grupo era a de que a mãe pobre, que trabalha fora, precisa de espaço adequado para deixar os filhos de zero a seis anos. E que fosse lugar de acolhimento e de educação, jamais reproduzindo os “depósitos” de crianças, então comuns na periferia, simulacros de creches.

E daqueles tempos da arrancada do Provopar, os bons avaliadores sabem contabilizar o trabalho de gente como Maria Cecília Leão Rosenmann, Beatriz Sera, Maria Helena Canet, Margot Canet, Elizabeth Bley, Regina Bley, Mônica Kastrup, Kinquinha Kastrup, Maria Elisa Grillo (há 30 anos seguidos firme como voluntária numa creche), Anny Schulman, Cristiane Mocelin, Clarissa Brik, Lílian Kopp...

No âmbito estadual, dona Nice Braga liderava também amplo programa de voluntariado, com o Provopar-PR.

Na primeira gestão Lerner na Prefeitura de Curitiba, Fani tinha só 24 anos — o marido, 33. Ela sentiu a mudança, brusca, passando de uma vida então voltada para a escola e a família, para as funções de primeira-dama. Se não se retraiu de todo em ações oficiais, só deslanchou para assumir por inteiro sua vocação de capitã da ação social a partir de 79, na segunda gestão.


Uma obra com Reconhecimento internacional:
em 2003, nos Estados Unidos, recebe o
Prêmio Kellogg’s

“Evita?” Ou como aceitar dólares holandeses

Se Fani diz que nunca “fui muito boa de linguagem”, a prática tem demonstrado o contrário. Nas incontáveis solenidades oficiais de que participou, sobretudo inaugurações de obras de sua área, foi sempre vista como “boa de microfone”. E não poucos avaliadores do universo da política por vezes manifestaram que ela seria “o melhor lado político de Jaime Lerner”.

— Há os que chegaram a ver em Fani uma espécie de Evita, naqueles traços mais notáveis e exemplares da chamada “mãe dos descamisados”. Acho que é pouco: ela consegue liderar e extrair resultados sociais como quem tira água da pedra. Mas jamais utilizou o mundo dos desvalidos, da criança carente, do adolescente pobre e da velhice abandonada para projetos eleitoreiros. Esta é a diferença que fica — opina o deputado Luiz Carlos Martins (PSL), também identificado com obras sociais continuadas e notáveis, em sua Rádio Banda B.

Como a verdade está no meio — in medio virtus —, o correto é concluir que Fani é muito bem articulada, tem a noção do “espetáculo”, da arena de atuação, e, como poucas pessoas públicas, conseguiu aglutinar, por pelo menos 30 anos, um mundo de lideranças femininas, no Estado todo. Foram mulheres de todos os níveis sociais, desde as chamadas “locomotivas da sociedade”, como diria Ibrahim Sued, às humildes benzedeiras ou carismáticas de núcleos pentecostais, de mulheres de oração e ação.

— No mundo ocidental, onde se formam as lideranças populares? — indaga Fani para apresentar a resposta: “Estão sobretudo nas igrejas, em sindicatos, em associações de bairros, nas escolas...”

Cautelosa no andar sobre as brasas da vida pública, passou incólume, de 1972 até agora, de maldades ou maledicências tão comumente associadas à administração de recursos do erário. E mais que isso, teve como outra característica, um especial feeling para oportunidades.

Bom exemplo aconteceu no início da segunda administração Lerner na Prefeitura. Ela não deixou a sorte passar em sua frente: aceitou a generosa doação de US$ 100 mil que a Fundação Van Leer, da Holanda, tentava de todo jeito doar ao governo do Estado, e que foram rejeitados pela Secretaria de Estado de Educação. Dinheiro carimbado, foi direto para o desenvolvimento pedagógico do pessoal de creches de Curitiba.

Os dólares foram usados para os primeiros passos de desmontagem de uma imagem-mentalidade, em que se identificavam as operadoras de creches como “tia”, babá, atendente. Com esse dinheiro, Fani fez deslanchar o reconhecimento da educadora de creche, por meio de trei- namento e formação pedagógica. Problema em grande
parte resolvido.

Esse é apenas um ponto que ajuda a explicar uma biografia rara. E nada a ver, pois, com a de Evita.


Em1980, Fani e Jaime Lerner recebem o Papa João Paulo II, em
Curitiba. Saudações em polonês, e observações sobre a terra dos
pais do casal

O contrabando faz boas ações

Ela nunca escondeu que quer ser reconhecida como dona de vôo próprio. Tem orgulho de Jaime Lerner, pode-se dizer que muitas vezes parece o alter ego dele. “Mas sabe andar sozinha, tem cintilação só dela, o que não deve ser fácil vivendo ao lado de astro de raro fulgor”, depõe ainda o deputado Luiz Carlos Martins.
Funcionária pública assídua, as sessões de quimioterapia sempre a mantiveram o menos possível em repouso. Surpreendia o pessoal da Secretaria da Criança a partir de 1996, quando passou a conviver com um câncer. Poucos dias depois de penosíssimas sessões de quimioterapia, estava a postos no gabinete, despachando. Dona absoluta da agenda, teve sempre a seu lado a irmã Ester e Rosa Maria Carvalho, conselheiras, suportes, apoios mais próximos.

Uma usina de idéias, Fani descobriu muitos ovos de Colombo. Um deles: conseguiu que a Receita Federal doasse boa parte dos produtos apreendidos em contrabando — especialmente brinquedos, eletroeletrônicos, gadgets — para o Provopar estadual. Na Vila Guaíra instalou amplo armazém para a venda do contrabando legalizado, com resultados financeiros para construir creches e apoiar outras ações sociais. Neste particular, ajudas vitais foram de Anny Schulman, Clarissa Brick e Jaçanã Groff.

O devotamento de Fani à causa da criança pode também se resumir em dois outros exemplos: criou na terceira administração Lerner na Prefeitura o Vale Creche, exemplo seguido Brasil afora; e no Estado, envolvendo a Fundação Ayrton Senna, criou a multi-sopa, industrializada, enlatada, liofilizada, que passou a ser de consumo obrigatório em creches, socorrendo asilos de idosos e famílias carentes. Da sopa, criteriosamente concebida com verduras que eram fornecidas no Ceasa-Curitiba, e distribuição gratuita, com o detalhe do baixo custo para o Provopar e o amplo espectro humano atendido com essa alimentação balanceada.

Ecumênica, obras como o Lar Hermon, evangélico, de apoio a jovens dependentes químicos, foi “cliente” assíduo de Fani e sua equipe.

Frei Miguel Bottaccin, o místico da Vila Nossa Senhora da Luz, costumava enaltecer Fani colocando-a nas alturas. Numa das manifestações hiperbólicas sobre sua admiração da benfeitora de seus pobres, ele fez publicamente uma declaração de amplo respeito à secretária. No melhor linguajar ítalo-eclesiástico, com a simplicidade direta e comovente que o identificava, certo dia saiu-se com esta: — Ela é ótima. É praticamente uma boa cristã...

Transcrita da Revista Idéias edição 23, maio de 2005

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