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IMAGO
O educado tom de voz não muda, os gestos refletem equilíbrio entre corpo e mente, a fala é cadenciada, didática. Esse polimento é cartão de identidade de quem é memória viva do universo das artes plásticas no Brasil — e o Paraná em particular — nos últimos 50 anos.Um tímido incurável, avesso a exibicionismos e a todo sucesso prête-a-porter, ele é a melhor testemunha da evolução da Arte Paranaense, que o teve, de 1955 para cá, em posições-chave na sua administração cultural e em curadorias de mostras significativas.
Tendências mais comuns nos dias de hoje levam a classificar Ennio de “zen”, pelo tônus que o identifica. Sua biografia envolve presenças tão variadas como a superintendência do Teatro Guaíra e participações decisivas nos júris e organizações do Salão Paranaense — nossa mais significativa mostra oficial de arte — e atuações nacionais como o fazer parte da Comissão Nacional de Artes Plásticas [1981] e do júri Salão Nacional de Artes Plásticas [1980], além de ter sido membro da comissão do Salão Nacional do Sesquicentenário da Independência [1972], ou ter comandado a restauração da Igreja de São Benedito, em Paranaguá, junto com o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico Nacional.
Mas nada parece mais entusiasmar esse Ennio de olhar educado para as artes plásticas do que rever a epopéia que foi montar a até agora não superada mostra internacional — que ele garantiu fosse realizada na Curitiba tímida de 1963, com as 115 obras —, denominada Pintura Contemporânea do México. Foi trabalho superlativo, em que o todo acanhado daqueles tempos foi superado pela ousadia, conhecimento de causa e envolvimento em tempo integral dele e da equipe no projeto. No final estavam lá, em tempo recorde, tomando todo o segundo andar da Biblioteca Pública do Paraná [então nosso único espaço com pé direito compatível com as obras a serem mostradas] os antológicos painéis mexicanos.
Preciso nas lembranças, Ennio vai como que recitando... “eram Rivera, com um imponente Retrato de Benito Juarez, Siqueros com Nuestra Imagen Actual, Tamayo com Terror Cósmico, Velásquez com Construccion de um Puente, Luiz Aragon, com Curación de Flores. Entre os abstratos, Vicente Rojo, Mira Landau, Juano Soriano, Tomás Parra...”. E, justíssimo nas avaliações históricas, lembra que o primeiro Museu de Arte do Paraná, dos Diários Associados, e presidido por Eduardo Rocha Virmond, deu seu apoio informal ao surpreendente evento. Imagine-se aquela cidade de ares provincianos, a Curitiba de 1963, contemplando painéis de Diego Rivera, Siqueros e o de Orozco, todos com cinco metros de altura, além de outros de arte pré-colombiana, igualmente de grandes dimensões, de dificílima montagem. Semeador Ennio Marques Ferreira nasceu para semear, preferentemente trabalhando terrenos acidentados e áridos. Se dependesse da vontade do pai, o lapeano João Cândido Ferreira Filho, o mestre em Agronomia que foi catedrático concursado do então mais importante centro universitário da época, a Escola Nacional de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, ele teria semeado no magistério agronômico. Ficou apenas na formatura em Agronomia, no Rio, 1949, e em episódicas funções exercidas por curto tempo em terras e cartografia e cooperativismo agrícola, quando voltou ao Paraná. Nesse capítulo, recorda um grande amigo, o arquiteto Gustavo da Gama Monteiro, carioca, e que teria papel capital na história das grandes mudanças urbanas que ocorreriam em Curitiba. Ao lado de Gustavo, atuando no Instituto de Terras e Cartografia, seria testemunha também privilegiada daquele caldeirão fundiário, em que vidas e terras “sumiam” ou “cresciam”, da noite para o dia. Deixaram o setor sem acumular bens, das poucas exceções na época da controvertida regularização das ricas terras do Estado. Curitibano de 1926, nascido na Avenida Iguaçu com Rua Lamenha Lins [no local, há hoje uma churrascaria], endereço do senhorial casarão da família tradicional, ali Ennio passou parte da infância, ouviu histórias de revoluções, e a Federalista lhe foi mostrada com detalhes particulares. Nela o avô paterno, o médico João Cândido Ferreira — tronco de expressiva árvore da genealogia paranaense — foi ator destacado no Cerco da Lapa, sendo socorro e amparo de centenas de feridos. Entrou na História. Ouvia também histórias do lado suíço da mãe, dona Josephina [Nina]. Com a família, chefiada pelo pai, agrônomo e servidor público — e que chegaria a ser secretário de Estado de Agricultura e também a ocupar interinamente o Governo do Estado nos anos 1940 —, Ennio andou pelo Paraná. Em Jacarezinho foi, com o irmão João Cândido Ferreira Neto, da primeira turma do mais notável colégio que o Norte do Paraná já teve, o Cristo Rei, mantido pelos padres Palotinos. Depois experimentaria, na fase carioca, os rigores da educação jesuítica no Colégio Santo Inácio, endereço do “creme” da elite do Rio dos anos 1940. Os boletins escolares o mostram bom em Biologia. Eram anos em que, nas ondas da Praia Vermelha, morando na Urca [onde encontraria Heloisa, moça refinada, originária do clássico Colégio Sion, que depois se tornaria esposa e companheira de vida toda], fazia parte de uma juventude muito ativa: exercitava-se nos esportes, fazia jornal para circular na praia, todo datilografado por ele, e depois se embrenharia no salto em altura [de que chegou a ser campeão brasileiro universitário, com 1,74 cm], vôlei e futebol. Competiu também pelo Botafogo, no atletismo, e em Curitiba, chegou a ter carteira de amador do Atlético em futebol. Na infância e no colegial nada indicaria, pois, o futuro animador e administrador cultural cuja visão fez o Paraná tornar-se referência nacional, com realizações como o Festival Internacional de Música do Paraná, e o Curso de Música de Curitiba, anos 1960, o Salão de Gravura, Salão de Desenhos, a direção da Casa Andrade Muricy, do Museu de Arte do Paraná, a Presidência da Fundação Cultural de Curitiba, os inúmeros salões e mostras regionais e nacionais que organizou ou fez curadoria, como a Arte Sul-América... O Ennio criador da primeira — hoje pertence à história — galeria de arte de Curitiba, a Cocaco, em 1955, que se tornaria incubadora de talentos e castelo forte dos que iam chegando ao mundo da arte. Além do observatório de artistas consumados, entre eles, Garfunkel e Viaro. E de jovens que ali se consolidariam, como Helena Wong, Jair Mendes, João Osório Brzezinski, Juarez Machado, Mário Rubinski, Fernando Calderari... Uma certeira análise sobre a importância de Ennio é do pintor Carlos Eduardo Zimmermann: “Mais do que curador de artes plásticas e gestor cultural insuperável, Ennio é a memória viva das artes plásticas no Paraná a partir da segunda metade do século XX”. E acrescenta: Zimmermann não deixa por menos: “Crítico de arte, protetor da cultura, ele participou ativamente das transformações na história das artes plásticas no Paraná — a mudança de uma escola de pintura realista objetiva, o surgimento do modernismo e o aparecimento de movimentos mais contemporâneos. Ainda é importante e fundamental seu papel na preservação, enriquecimento e difusão da memória cultural”. Em tudo, um exemplo A avaliação de outro pintor, Fernando Velloso, ele mesmo um dos expoentes da geração dos anos 1960, no Paraná, só reforça a compreensão do perfil único de Ennio: “Ele está presente em tudo o que se fez de importante em artes plásticas em Curitiba, a partir dos anos 1950”.
Tal onipresença de Ennio Marques Ferreira na vida cultural de Curitiba — e do Paraná, por extensão — foi notável, por exemplo, na tomada de posição com que os artistas manifestaram desagrado com os critérios de aceitação no XIV Salão Paranaense, e criando o Salão dos Pré-Julgados. Momento de renovação que a História registra como divisor de águas entre os que procuravam desvencilhar-se de heranças acadêmicas que eram avessas a renovações artísticas. Parte também da história contemporânea das artes plásticas do Estado, Fernando Velloso vai mais a fundo ao falar de Ennio: “Ele foi um nome de proa, sempre um trabalhador incansável, assumindo todas as etapas do processo de realização de eventos culturais. E quase sempre com o mínimo de recursos, conseguindo os melhores resultados a despeito da falta de apoio material. E tal forma inconfundível de ser ele colocou na Presidência da Fundação Cultural de Curitiba e em tudo o que fez”. Salão Paranaense — concorda Velloso, teve os seus melhores momentos quando esteve sob a coordenação de Ennio, “uma vida inteira de trabalho qualificado e de resultados, sem qualquer intenção de uso pessoal de suas atividades”. Velloso é dos que reconhecem em Ennio valores como desenhista e artista gráfico, provados em salões e mostras individuais.
Artista que acabou dando lugar ao grande curador-protetor-organizador cultural, por absoluta necessidade de exercer um papel histórico que apenas a ele, Ennio, parecia estar reservado... Lafaete e outros “naifs” Os avaliadores apressados poderão, com ares duvidosos, perguntar sobre “como Ennio se insere nos chamados movimentos populares de artes plásticas?” Tudo dentro dos cacoetes ditos sociais dominantes hoje. A boa resposta pode ser dada pelo longo processo de apoio aos santeiros em madeira, e pintores primitivos ou naifs, a quem não só acolheu como ajudou a projetar no Paraná. Alguns ganharam expressão e mercado nacionais, como o lapeano Lafaete Rocha, cuja vida foi marcada por tragédias como a casa incendiada com mulher e filhos, e cujos santos e cristos crucificados, ou cachos de banana invertidos preenchem um universo muito próprio do artista; o escultor em madeira Antonio Ferreira, de Ivaiporã, santeiro também de imaginário diferenciado, agora sem sensibilidade nas mãos; os pipoqueiros [braços de bonecos virando grandes facões, simulando mãos de soldadinhos] e passarinheiros de Curitiba, cujos trabalhos em madeira, muito coloridos, espalham-se em acervos de colecionadores exigentes; Antonio Zidowski, pintor curitibano que consegue ser “naif” e surrealista, na definição de Ennio... Quando fala desses artistas populares, Ennio faz uma referência carregada de reconhecimento a Ivany Moreira, que foi diretora da Casa Alfredo Andersen, e cuja ação garantiu a revelação de alguns desses soberbos artistas populares. A relação dos primitivos aos quais Ennio acolheu e apoiou tem ainda Jandira Martins, de Curitiba, 60 anos, de produção restrita, mas reconhecível pelas “viagens” que faz a outros universos, em suas telas; Antonio Pilarski, o tetraplégico de Ponta Grossa que deu sentido à sua vida limitadíssima preenchendo-a com telas ingênuas que retratam cenas rurais, um artista com obra valorizadíssima hoje; Suene [assina também S.O.S.], de Siqueira Campos, fértil “naif” no retratar uma paisagem interiorana e figuras em movimento.
Por último, mas não menos importante, há o escultor em madeira Espedito de Oliveira Rocha, cuja vida foi marcada pela militância política e se tornou um perseguido por seu ideário voltado à justiça social. Mineiro que vive há dezenas de anos em Curitiba, ele tem uma produção que o curador cita como “absolutamente ímpar”, “naif” e definidora de um artista popular exemplar. De Espedito, assim como dos demais citados, Ennio sempre esteve perto. Do curador-protetor cultural há agora um resumo de vida, o livro “40 anos de amistoso envolvimento com a arte”, lançado neste 2006. Inventário de vida, o livro de Ennio é resumo daquilo que foi importante na vida cultural do Paraná. É obra de referência que mostra gestos de reconhecimento à obra de Ennio, como a Medalha Estrela da Solidariedade, que lhe foi dada pelo Governo da Itália e a Ordem do Pinheiro, conferida pelo Governo do Estado. Ou a homenagem que lhe prestou a Fundação Cultural de Curitiba, então presidida por Carlos Frederico Marés, pela criação da Mostra de Gravura de Curitiba. Gestos, entre outros, que restabelecem a confiança no ser humano e instituições, que se mostram capazes de agradecer. Sinal de que restam esperanças e luzes.
No momento, Ennio, Velloso e Zimmermann se envolvem no desenvolvimento de trabalho sobre a obra e o papel de Guido Viaro, nome decisivo na grande ruptura artística, com a desvinculação do figurativismo de Andersen e a chegada de uma pintura moderna, com Viaro, de forte expressão social. De todas as alegrias pelo dever cumprido, a mais expressiva talvez tenha sido a curadoria da exposição Alfredo Andersen Volta à Noruega, mostrada de 2001 a 2002 na Pinacoteca de São Paulo e depois na terra natal de Andersen. Trabalho que compreende livro/catálogo por ele coordenado. Generoso para com os outros, é reticente em falar de si mesmo. |
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