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Tato Taborda, Advogado, Jornalista e Analista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e
MARÇO DE 2007


ÁRDUA OPÇÃO NUCLEAR
Tato Taborda

Notícias recentes mostram alguns aspectos, gerados pela opção, de dirigir parte da matriz energética para Usinas Nucleares. O Japão, que tem hoje um terço de sua matriz energética à base de urânio, por falta de fontes hidroelétricas ou de GNP (gás natural de petróleo), enfrenta  um debate sobre esta opção. O maior, dentre 55 geradores nucleares, localizado na Usina Shiba, no oeste do país, foi obrigado a suspender suas operações. Uma sentença judicial acolheu os argumentos apresentados por sociedades civis de defesa do meio ambiente. Alegaram as sociedades que uma central nuclear seria alvo fácil em terremoto. Outras ações com esta mesma argumentação foram ajuizadas contra outras centrais nucleares. Ressalte-se que, um quinto da potência nuclear do Mundo, está localizada em áreas com risco de grandes terremotos.

Por sua vez, o programa nuclear iraniano, está ameaçado de grande retardamento. A Rússia comunicou que, em razão de atrasos nos pagamentos, vai interromper tanto a construção da usina nuclear de Bushrer, quanto o fornecimento de urânio enriquecido para funcionamento do programa iraniano. O Irã alega que os pagamentos estão em dia. Segundo Mohamad Saeedi, chefe da Organização de Energia Nuclear, a Rússia cedeu a pressões contra o programa nuclear iraniano. Embora, poucas semanas antes, Moscou tenha defendido o uso de tecnologia nuclear para fins pacíficos. Na mesma época, dezembro de 2006, Moscou apoiou uma resolução  do Conselho de Segurança da ONU, impondo sanções limitadas ao Irã por sua recusa em interromper seu programa de enriquecimento de urânio.Como se vê, embora tenha sido assinado há dois anos, o acordo entre Rússia e Irã passa por labirintos, que o fio de Ariadne não ajudaria a dominar.

Os fatos narrados mostram que investir em Centrais Nucleares envolve riscos de pressões políticas internas e externas. Esta ameaça parece não preocupar alguns ministros do Governo Luís Inácio da Silva. O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, afirma que a construção de Centrais Nucleares é uma solução para diminuir as emissões de gazes oriundas da queima dos combustíveis sólidos: óleo ou GNP. A ministro-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, cautelosamente, confirmou estudos sobre a retomada da construção da Usina Nuclear Angra 3, que poderá gerar 1.350 megawatts. A Senhora Roussef escondeu que quando ministro das Minas e Energia, exatamente o setor governamental responsável pela política energética, declarou que era contrária à construção de Angra 3, em razão do custo absurdo dos custos de produção. Angra 2, que entrou em operação em 2000, depois de 20 anos de construção, custou 20 bilhões de dólares. O plano nuclear, além de Angra 3, prevê a construção de mais seis Centrais, estimando seu custo em 14 bilhões de dólares. Para o físico José Goldemberg, ex-secretário de Meio Ambiente de São Paulo e ex-reitor da USP, o custo provável é cinco vezes maior, chegando a 70 bilhões de dólares.

Convém lembrar, que nossa primeira Central Nuclear, Angra 1, levou 15 anos para ser concluída. (1970-1985). Embora, tenha sua produção de 657 megawatts, equivalente a 47% de Angra 3. A principal dificuldade em sua construção foi a natureza porosa da rocha onde deveriam ser apoiadas suas fundações. Face ao enorme peso da Usina, os seus reatores não mantinham um prumo perfeito. Com isto, a produção ficava impossível. Fora do prumo o desgaste das engrenagens seria rapidíssimo. Um especialista alemão, chamado para tentar solucionar o problema, logo apontou a necessidade de aprofundar em dezenas de metros os alicerces.  A explicação para o erro no projeto era simples. Os projetistas não conheciam tupi-guarani. Pois, os índios, que habitavam a região, haviam colocado na praia da Usina o nome de Itaorna. Ou seja, “pedra mole” em tupi-guarani. Que falta fez o iluminado padre José de Anchieta.

Mas, esta trapalhada não assusta os defensores no novo Plano. A maior obra, prevista para estar concluída em 2015, é uma Central, com três usinas, 3.000 megawatts no total, às margens do rio São Francisco. Um presente para uma região carente, afirma o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Gonçalves. Segundo ele, o nosso Chico tem água suficiente para refrigerar o enorme conjunto nuclear. Água que seria devolvida para seu leito já aquecida. Um presente assim merece recusa. A água devolvida pelas centrais nucleares altera a fauna e a flora do receptor. Um mega projeto do governo Luis Inácio é usar a água do São Francisco, para irrigar um enorme território nordestino. Sem querer lembrar Chernobil (URSS) ou Three Miles Island (USA), enormes contaminações que afastaram o ciclo nuclear em dezenas de países. É bom lembrar que Angra 1 (que chegou a receber o apelido de pirilampo) não somente esteve ameaçada por graves  problemas técnicos geradores de emergências, como contaminou a belíssima baía da Ilha Grande. Para tentar fugir do reconhecimento quanto a contaminação da baía, o diretor-geral de Angra 1 afirmou que os dejetos encontrados não ofendiam a pureza da água. A declaração gerou um ciclo de debates, onde físicos de renome afirmaram que não existe meia contaminação nuclear. E que os peixes e outros organismos marítimos estavam comprometidos. A pesca ficou suspensa em larga temporada.

Os entusiastas da volta de investimentos pesados na área nuclear defendem o plano alegando que o Brasil tem a sexta reserva mundial de Urânio, garantindo combustível para todas as Usinas nucleares, nos próximos 60 anos. Nossa reserva é de Urânio 238, que precisa ser enriquecido entre 5 e 20% para gerar energia. Atualmente, não temos maneira de enriquecê-lo. Caberia apenas exportá-lo para receber na volta as pastilhas enriquecidas. Já tem gente, de dentro do governo, reclamando uma inversão de 200 milhões de dólares na fábrica nuclear situada em Resende, para que o enriquecimento possa ser feito aqui mesmo. O custo financeiro parece pequeno, mas o custo político é mil vezes maior. Caso chegássemos ao enriquecimento para fins pacíficos, nada nos separaria de chegarmos ao ciclo integral do urânio e do plutônio 239, o qual resulta da combustão de urânio enriquecido em Centrais Energéticas Nucleares.

Da mesma forma que uma pequena parte do Itamarati defende a modificação do estatuto da ONU para incluir o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, apareceria outro grupo, ou o mesmo, que pleiteariam o reconhecimento do Brasil como potência nuclear. Bom apenas para os que vão viver desta discussão. Para nós, nem o Conselho de Segurança, menos ainda o poder nuclear, trazem vantagens para o brasileiro. Quando muito, teríamos que receber constantes inspeções de organismos internacionais.

Existe um problema crucial em programas nucleares que é ignorado, ou subestimado, pelos aguerridos defensores do Plano. A combustão das pastilhas nucleares resulta em um lixo nuclear. O ciclo de duração das pastilhas é de 5 anos. Mas, a meia-vida dos seus resíduos, transformados em lixo, é de cinco séculos. No mínimo. Assim, os grandes produtores de lixo nuclear, como os USA, França e Rússia, apesar de lidar com o problema há 50 anos, não chegaram a uma conclusão. Enterrá-lo pode modificar o meio ambiente de grande território. Atingindo, principalmente, as águas subterrâneas. Tem cientista até estudando a possibilidade de emergi-lo no mar profundo ou no espaço sideral. E ninguém aceita o lixo alheio. O ministro da Ciência e Tecnologia tem dito que é pouca coisa para tanta vantagem. Proponho que ele o receba em sua casa. Pois afirmou que “Existe forma de armazená-los por 100 anos”.

É bom esclarecer o que significa o conceito científico de meia-vida, aplicável a resíduos nucleares. Meia-vida é o período necessário para cortar pela metade a radioatividade de partículas nucleares. O período varia muito. Dependendo da natureza dos resíduos e como foram acondicionados. O lixo nuclear de uma Central pode ter uma meia vida de 500 anos, ou até de dez vezes este mínimo. Basta um simples cálculo aritmético para verificar que o desaparecimento da radioatividade pode demorar mais de 2000 anos. Assim, o armazenamento tem como principal objetivo isolar as partículas. Para impedir que atue sobre a fauna, flora e condutores líquidos. É a maneira de proteger os humanos.

Os EUA estão tentando construir um depósito indevassável na Iuka Mountain. O custo estimado é de 100 bilhões de dólares. Mesmo assim, a oposição dos moradores nas redondezas e das organizações ambientalistas é forte. Alegam que basta Iuka sofrer um atentado nuclear, com um artefato relativamente pequeno, para que o lixo contido em cavernas profundas acarrete um enorme desastre em todo o Vale do rio Tenessee. Como se vê, a tecnologia ainda está engatinhando. São obstáculos reais que enquadram delirantes discursos laudatórios. A energia nuclear é perigosa e poluente, parâmetros que são desconsiderados nas propostas de oferta de Usinas Nucleares. Cabe-nos procurar uma matriz energética que respeite as limitações do ser humano. É preciso bem aproveitar nossas vantagens geológicas. Energia para crescer e permitir empregos para milhões de brasileiros. Vamos nos afastar da chantagem nuclear. O baixo nível de vida na Coréia do Norte mostra que a solução não está em manter um milhão de soldados, ou buscar um inútil espaço como potência nuclear de Quinta categoria.


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